As memórias de Scott Cooper desaparecem muito depressa, mas o australiano de 66 anos ainda viaja pelo mundo fora, desafiando a sua demência. Ele e a sua mulher, Jill, visitam a filha no Canadá duas vezes por ano e exploram regularmente a Austrália. O seu país natal é um dos poucos destinos que começa a organizar experiências para turistas com demência: experiências que influenciam a sua capacidade de recordar, de pensar e de se comportarem.

Cooper diz que o turismo lhe dá a “oportunidade de continuar a desfrutar da vida”.
“Por vezes, viajar pode ser stressante, mas também é estimulante ter novas experiências”, afirma. “Como requer muita energia, ajuda-me a manter-me activo, física e mentalmente.”

Os cientistas prevêem que cerca de 153 milhões de pessoas em todo o mundo padeçam de demência até 2050. Este grupo de doenças neurológicas que, geralmente, afecta os idosos, pode causar perda de memória, confusão, depressão, apatia e alterações de humor. Os tratamentos mais prescritos para a demência incluem socializar, praticar exercício físico, manter-se mentalmente activo e obter vitamina D através da exposição solar.

Num estudo recente que envolveu entrevistas a mais de cem pessoas com demência na China, estudiosos da Austrália e da China afirmam que viajar pode ajudar as pessoas com demência, proporcionando-lhes estímulos cognitivos e sensoriais originados pela exposição a novos cheiros, paladares, vistas e encontros sociais.

No entanto, segundo os especialistas em cuidados de idosos, a maioria dos destinos ignoram as necessidades dos turistas com demência. Isto está lentamente a mudar na Austrália, Canadá, Reino Unido e nos Estados Unidos da América, onde estão a ser publicados guias de viagens adequados a pessoas com demência e os turistas com demência podem desfrutar de atracções e actividades concebidas especificamente para eles, desde cafés a trilhos sensoriais e workshops de arte.

Como viajar ajuda as pessoas com demência

“Todas as experiências turísticas proporcionam elementos de expectativa e planeamento e ambos estimulam o funcionamento do cérebro”, diz Jun Wen, professor de turismo da Edith Cowan University e um dos investigadores do estudo recentemente publicado. “O exercício é, frequentemente, uma componente importante das experiências turísticas, sendo muitas vezes incluído nos planos de intervenção contra a demência.”

Viajar também pode ajudar as pessoas que padecem desta condição a ganharem maior confiança, activar-lhes memórias e promover a sua independência, diz Warren Harding, professor de cuidados de demência na Universidade Macquarie, na Austrália. “O turismo é um complemento promissor de intervenções não-farmacológicas” afirma. “Não é um tratamento, mas pode proporcionar benefícios emocionais e sociais significativos.”

Harding fala por experiência própria, pois realizou várias viagens com a sua falecida mãe enquanto ela tinha demência. Ao planear cuidadosamente as suas viagens, ele conseguia reduzir o stress e ansiedade da mãe. Programava as saídas para os períodos do dia em que ela estava mais alerta, mantinha os horários das refeições, de dormir e da medicação em sincronia com as suas rotinas domésticas e assegurava que ela tinha consigo os seus documentos de identificação e pormenores do local onde estavam alojados, caso se separassem. “Depois, podíamos partilhar fotografias e histórias [sobre a viagem] que a ajudavam a lembrar se”, diz Harding.

Experiências de viagem adequadas a pessoas com demência

Na região ocidental da Austrália, mais de 20 locais organizam eventos de “café de memória”, onde pessoas com demência socializam enquanto tomam o seu chá matinal. Em Sydney, o Museu de Arte Contemporânea da Austrália disponibiliza aulas, nas quais os formadores discutem o significado de obras de arte específicas com os participantes, que recebem materiais para criarem as suas próprias obras-primas em casa.

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FOTOGRAFIA DE THOMSON HAY LANDSCAPE ARCHITECTS

O primeiro trilho sensorial adequado a pessoas com demência da Austrália foi inaugurado em 2021 no Parque Regional Woowookarung, nos arredores de Melbourne. Os bancos esculpidos em basalto (na imagem) estão dispostos de modo a incentivarem conversas e enfatizarem as vistas sobre o dossel florestal.

O primeiro trilho sensorial adequado a pessoas com demência da Austrália foi inaugurado em 2021 no Parque Regional Woowookarung, nos arredores de Melbourne. Atravessando uma floresta verdejante que é o lar de cangurus e wallabies, este trilho com um quilómetro foi concebido pelo Victorian State Government, com o contributo de doentes com demência e os seus cuidadores.

Acessível a cadeiras de roda e cães de apoio, tem nove paragens. Estas incluem vários pontos de encontro comunitário, onde os visitantes podem juntar-se para ouvir música e partilhar histórias e opiniões sobre a paisagem.

Este trilho pode “evocar memórias, sentimentos e sensações positivas”, diz Maree McCabe, CEO da Dementia Australia. “O projecto pretende criar um espaço seguro para as pessoas com demência, bem como servir de modelo para outras comunidades criarem trilhos semelhantes”.

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FOTOGRAFIA DE THOMSON HAY LANDSCAPE ARCHITECTS

Este passadiço largo e próximo do solo protege as raízes dos eucaliptos e permite que as pessoas toquem na casca das árvores.

No Reino Unido, os organismos governamentais Visit England e Visit Scotland publicaram um guia turístico adequado para pessoas com demência (Dementia-Friendly Tourism Guide) que explica como os negócios turísticos podem melhorar os serviços para pessoas com demência, através da construção de casas de banho acessíveis, sinalização clara, descontos para cuidadores e directórios de atracções locais adequadas.

Guias semelhantes estão a ser elaborados pela Dementia Australia, a Alzheimer Society do Canadá e a Alzheimer's Association dos EUA. Um número crescente de atracções turísticas desses países está a acompanhar a tendência. O Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MOMA) tem formadores que dão aulas sobre apreciação de arte aos visitantes com demência.

Mais de uma dezena de museus, galerias e centros de natureza nos estados de Wisconsin, Minnesota, Michigan, Tennesseee Colorado juntaram-se ao programa cultural Spark!, que organiza workshops para pessoas com demência. Em Inglaterra, o National Museums Liverpool também disponibiliza vários serviços para estes visitantes, incluindo“passeios de memória” através dos sites dos locais históricos da cidade, sessões de recordação em grupo e actividades para crianças e os seus avós.

Nos próximos anos, os especialistas em cuidados de idosos esperam que pessoas como Scott e Jill Cooper possam gozar férias com mais facilidade, criando memórias das suas viagens, independentemente de quanto durem.

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.