No lago Song-Köl, no Quirguistão, o tempo corre lento

Bruno Fernandes, professor de História, acredita que "viajar é o que melhor serve a educação". Na região de Naryn, no Quirguistão, visitou Song-Kol, o "lago seguinte", situado a 3.016 metros acima do nível do mar. Partilha hoje com os nossos leitores as suas impressões e memórias, com a ajuda de fotografias do seu arquivo pessoal. Vamos viajar até à Ásia Central?

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Em Agosto de 2016, julguei ser boa ideia saltar daqui e cair no Quirguistão. Quando contava às pessoas que decidira embarcar nesta viagem, recebiam-me olhares que mais parecia que lhes tinha afirmado ser meu desejo besuntar-me de mel e atirar-me num formigueiro. Qualquer país cujo nome acabe em -istão acaba por, com tantas notícias que cruzam os ecrãs, causar um certo arrepio. No entanto, foi exactamente isso que me levou a insistir que não estava maluco: tinha curiosidade. Ser professor de História e debitar simplesmente aforismos e coisas que leio em manuais nunca me pareceu a melhor maneira de ensinar ou sequer comunicar o que é o mundo. Viajar é o que melhor serve a educação – foram duas semanas de descoberta de uma terra oculta, esquecida, com gente genuína. Foi aí que estive dois dias no lago Song. Depois de várias horas de viagem, cheguei e o que aqui trago é um cruzamento entre o que a minha máquina fotográfica e o caderninho que me acompanha sempre que saio do meu conforto lembram. A minha memória também ajuda. Já leva uns anos, mas há imagens que tenho mais registadas na minha mente do que píxeis ou ficheiros digitais. E o melhor que consigo fazer é transmitir as coisas que, como diz a canção dos Heróis do Mar, são do mundo e não sabendo-as contar só se conseguem ver ao longe.

lago Song-Kol Quirguistão

Bruno Fernandes

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A chegada num Honda preto

Estou a cerca de 3.000 metros de altitude. A erva é de um verde suave e cândido, atravessada por veias de terra onde os veículos podem entregar-se ao masoquismo mecânico. À minha frente, uma boca bem aberta, defronte de montanhas, enche-se de água e recusa-se a engoli-la. Chamam-lhe lago Song-Kol (ou Sonkol, Song-Köl, and Son-Kul). Saio do carro – um Honda preto que acaba de descer uma ligeira colina para se abeirar de uma planície onde pasta gado, principalmente cavalos. Tendas brancas chamadas yurts formando a espinha dorsal da vida da comunidade nómada que aqui habita, uma procissão de panos coloridos estendidos em cordas de roupa na pauta musical do vento, lançando-nos melodias que nem se escutam nem são visíveis, mas passam-nos pelas mãos.

Song-Kol Quirguistão

Bruno Fernandes

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O lago que se segue

Song é "seguinte", Kol é "lago". Este lago seguinte enche-se a 1.316 metros de altitude. Com 270 quilómetros quadrados, é três vezes maior do que o lago Zurique. Localiza-se na região de Naryn, no Quirguistão, um segredo turístico maravilhoso. Poucos  conhecem este país da Ásia Central, muito menos o visitam os ocidentais. Tem uma beleza natural que se instala confortavelmente numa lista das mais intensas em todo o mundo. Aqui, carroças deram lugares a jipes, embora o cavalo ainda seja o meio de deslocação vital. O lago Song estende-se por 29 quilómetros. Vestígios arqueológicos demonstram que as suas margens são habitadas há vários milhares de anos. 

CDSC

Bruno Fernandes

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Uma cultura nómada

Na Ásia Central, o nomadismo é um modo de vida desde os primórdios. As tendas pálidas, a ordenha das vacas, o ritual de ir buscar água ao lago montando num burro, pré-adolescentes dominando o dorso de cavalos como se tivessem visto na vida selas antes de fraldas sublinham essa cultura, apesar dos jipes que chegam e partem. A sensação é a de que esta gente, vivendo em altitude e distante de um traço de civilização a sério, segue o ritmo do Sol, seja na duração dos dias ou dos ciclos. Chega uma altura em que recolhem lonas e animais para descer aos vales onde o Inverno não chega em brancura nevada.

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Bruno Fernandes

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Um regresso à infância

É um modo de estar e ser mais dependente dos caprichos naturais, mas onde o relógio interior badala com mais vontade; e quando fotografo quatro garotos de idades diferentes que brincam e se metem connosco, alinhando em "macaquinhos do chinês" sem tradução, vejo sorrisos que me lembram, vagamente, a criança que já fui. Não sou um deles, mas de máquina em punho, finjo ser. Aqui, cada um pode ser o que quiser e
sem memória.

Yurt e o peixe-enigma

Bruno Fernandes

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Um refúgio chamado yurt e um peixe-enigma

Foi a primeira vez que chamei refúgio a um yurt, circular e branco, uma fortaleza de lona que parece querer sumir ao primeiro sopro ventoso, mas resiste sólido e protector. Por fora impera o pálido monocromático, mas desvenda-se o panal que tapa a entrada e há um festival de cores, espalhadas em múltiplos tons. Agora, o Sol acabou de se pôr e estou no umbigo deste pequeno mundo. Apenas regresso a mim quando chamam para jantar, e o o restaurante é igualzinho, branco por fora e espirro colorido por dentro. Variedades de comida espalham-se por uma mesa horizontal e corrida: frutos secos, pão compotas, biscoitos, rebuçados, salgados e carne seca, até que chega o prato principal que é um peixe-enigma. Pergunto a quem mo traz como foi preparado. Não me sabe responder. Na minha boca, segreda-me água doce e sei desde logo que veio do mesmo lago que fotografei. O que me deliciou os olhos consola-me agora o estômago e confunde-me a boca.

Quirguistão

Bruno Fernandes

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Cavalos que são arcos

Ninguém acreditaria se contasse a diferença que seis ou sete horas podem fazer num local. As nuvens cinzentas quase me despenteiam com dedos e o lago reflecte a sua cor e murcha o verde dos pastos. Cavalos aproximam-se da água e param, ruminando a verdura, dispondo-se em contas geométricas – cada um a sua própria manada. São arcos defronte da escuridão das águas, contra-luz da brancura das neves e funcionam como uma demarcação entre terra, lago e céu, garantindo que são reais, mas em simultâneo aumentando a irrealidade desta visão. Enquanto caminho fotografo e vejo, ao longe, a luz solar furando de vez em quando, procurando aquecer-nos.

Madrugada na montanha

Bruno Fernandes

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Como um Inverno permanente

A noite de sono que se segue é interrompida por um sonoro metrónomo, batuques de dedos no tecto do yurt. No meu estremunho, identifico a chuva. Quando regresso a mim consciente, já são seis e meia da manhã. Sou chamado pelo despertador do telemóvel para fotografar. Vestido a rigor para um baile de baixa temperatura, sinto que o yurt foi afinal nave voadora e aterrei noutro lugar. O cenário rochoso que me rodeava no dia anterior está agora aconchegado por um grosso lençol de neve, como se o sono fosse de hibernação e despertasse num Inverno permanente.

O (difícil) Adeus

Bruno Fernandes

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O (difícil) Adeus

Subitamente, estou debaixo de uma tempestade de granizo em Agosto e segue-se um sprint para me proteger. O abrigo está a 300 metros, mas paro aos 50, quando me apercebo de que o ar se tornou mais denso e respirar é um acto de coragem quando em esforço. Aos 3.000 metros, viver custa um pouco mais, diz o corpo. Já na tenda, a mochila recebe a máquina, limpa e intacta, e nos cobertores, recubro-me ainda a sorrir. Uma imagem me ocorre agora enquanto escrevo: montes nevados soprando feitiços que nos aumentam 100 vezes mais do que somos, sem que seja preciso entoá-los. Basta pensar neles e agora mesmo as nuvens rodeiam minha cabeça. Estou certo que aquelas luzes que se dirigem para mim são de um avião. Daqueles que voa bem alto.