Estamos na França profunda, autêntica mas também escondida. Concentram-se aqui diversos atributos notáveis: aqui fluem rios generosos, com vales perfilados, castelos e cidades medievais, algumas das aldeias mais belas de França, grutas pré-históricas e marcas de vanguarda. Mas, sobretudo, la douceur de vivre.

Tudo isto se traduz numa paixão pela boa mesa e pelos frutos da terra. Mas é preciso definir com precisão a área no mapa. Périgord é o nome de sempre para designar a Dordonha, um dos departamentos administrativos da região da Nova Aquitânia. O território deve o nome ao rio homónimo e a capital é a cidade de Périgueux. Tradicionalmente, fala-se em Périgord Negro devido às florestas frondosas, Périgord Branco por causa do calcário, Périgord Púrpura pelo vinho e Périgord Verde... A definição cromática perde cada vez mais precisão pela sua simplicidade e porque remonta a tempos antigos de um turismo inocente. Os mais jovens preferem falar agora dos vales dos rios, considerados o sangue ou a seiva de França.

Vindo de Bordéus, onde se encontra o aeroporto mais próximo, entra-se de imediato no Périgord Púrpura, a cor do vinho. De ambos os lados da estrada, as cepas seguram-se com os seus ramos, fios de arame e estacas. A paisagem mostra-se domesticada e arrumada, marcada por casas agrícolas a que chamam châteaux (castelos à letra, embora por vezes não o sejam) e que dão nome ao domaine (herdade) e ao vinho que se produz neles.

A casa de Montaigne

Um destes verdadeiros castelos ergue-se em Saint-Michel-de-Montaigne e foi lar do pensador do século XVI, Michel de Montaigne.

O autor de "Ensaios", obra de referência do humanismo universal, escreveu também um "Journal de Voyage" relatando a sua viagem a Itália. Dessa época, resta apenas uma torre isolada, onde Montaigne tinha a sua biblioteca, capela e dormitório. A poucos passos, encontrava-se a casa, mas esta ardeu e acabou convertida num castelo ao gosto do século XVIII e que oferece agora visitas guiadas aos seus elegantes salões. À saída da povoação, o sítio arqueológico galo-romano de Montcaret revela bonitos mosaicos da Antiguidade.

vinho, transportado em barcaças pelo Dordonha, deu esplendor a Bergerac. A imagem desta cidade medieval continua intacta, com cores que fazem lembrar Itália, realçadas pelo intenso aroma das glicínias. Na margem do rio, um velho mosteiro do século XII alberga a Maison des Vins, onde se pode ficar a conhecer as 13 denominações de origem da região e provar vários vinhos. De passagem, não deve perder uma visita ao claustro, bonito e de ar rural.

périgord

Durante uma visita em que participei, um jovem perguntou se aquela era a casa de Pascal Dupouy, estudioso do tema e o responsável pelo turismo local, disse-lhe que, para seguir os passos de Cyrano, teria de ir a… Paris. É que, para além da personagem criada por Edmond Rostand em 1897, existiu um tal de Hector Savinien de Cyrano, nascido em Paris em 1619. Para entrar no corpo de mosqueteiros, Hector Savinien de Cyrano adoptou como “apelido” Bergerac, o nome da herdade parisiense onde se refugiava nos momentos de lazer.

Bergerac

Bergerac, berço de Cyrano?

O nome de Bergerac atrai anualmente centenas de visitantes que procuram encontrar nas suas ruas a casa do cavalheiro de nariz grande que o escritor Edmond Rostand dotou de talento para os poemas de amor. A casa não existe porque o verdadeiro Cyrano de Bergerac viveu em Paris, mas em troca a cidade possui um bom conjunto de atracções que transportam o visitante ao passado. Deve começar pelo núcleo medieval, constituído por ruas estreitas e pequenas praças; a Maison des Vins e o seu claustro, em frente do porto fluvial. Às quartas-feiras e aos sábados, realiza-se o mercado em torno da Igreja de Notre-Dame e as tardes podem ser guardadas para passeios pelo caminho junto do rio. Uma última curiosidade: o Museu do Tabaco, instalado num palacete do século XVII.

A sul de Bergerac, o Castelo de Monbazillac é um retrato ideal de um château vinícola. Rodeado de vinhas e a funcionar em pleno, este recinto mais renascentista do que medieval também pode ser visitado, tal como o Castelo de Bridoire, nas proximidades, restaurado profundamente em 2013 e com um programa completo de actividades diurnas e nocturnas vocacionado para escolas e famílias. Os jogos decorrem dentro e fora do castelo e tornam inesquecível a visita.

Na vila de Cadouin, suaves colinas envolvem uma rua medieval que desemboca numa abadia românica de 1115. Ali venerava-se o Santo Sudário de Cristo, trazido da Terra Santa na época das cruzadas. Os peregrinos acudiam aqui em massa, trazendo oferendas. Em 1934, porém, um erudito apercebeu-se de que as orlas que ornavam o lenço sagrado continham uma dedicatória em árabe a um califa do século XI. O bispo mandou retirar a relíquia e acabaram-se as procissões. Todavia, um tesouro não partiu: o claustro gótico renascentista, cujas pinturas e esculturas mereceram a classificação de Património Mundial pela UNESCO. Nas proximidades, também a Abadia de Saint-Avit-Sénieur, uma importante etapa da Via Lemovicensis para Santiago de Compostela, ostenta a mesma distinção.

Estamos em território de bastides, povoações muralhadas que surgiram no século XIII durante as guerras entre ingleses e franceses. O núcleo articulava-se em torno de uma praça quadrada e porticada onde existia uma igreja de um lado e ao centro um mercado coberto. Existem mais de 300 bastides identificadas e um terço delas encontra-se na Aquitânia. Das muitas que povoam o Sul de Périgord, a que podia ser classificada como a mais “pura” é Monpazier.

Monpazier conta com o Centro de Interpretação Bastideum, onde se explica esta corrente singular de urbanismo medieval.

Abundam também as povoações pitorescas, como Belvès, espreitando a paisagem de hortas e pastagens por cima das suas muralhas. Aqui também se pode ver “habitações pré-históricas”, outra das curiosidades mais procuradas, embora o conjunto mais atractivo seja o de Madeleine, em Tursac, no vale do Vézère.

Se tiver a sorte de a visita coincidir com o dia de mercado, nas bancas poderá cheirar, tocar e comprar a alma nutritiva do país. Os camponeses vendem patês feitos em casa, conservas de pato, cochon noir (porco preto, semelhante ao ibérico), bem como tartines e pão ou doces artesanais, óleo de noz, cogumelos ou trufas (se for época delas), queijos, mel… e, claro, hortaliça e legumes acabados de apanhar.

Por vezes, o vale do Dordonha estreita-se e passa entre a vegetação furiosa. Noutras ocasiões, respira e alarga-se, como se quisesse passar de rivière à categoria de fleuve ou rio maior. Junto da água, vê-se, ao longe, o Château de Beynac, e a povoação a trepar pela encosta acima. Vale a pena subir a pé para perceber a importância da sua localização. O edifício de pedra, com recordações de Ricardo Coração de Leão, tem uma traça que acentua o rigor medieval. Do alto das suas torres, divisam-se outros quatro châteaux nas margens do rio: Fayrac, Castelnaud (visitável), Lacoste e Marqueyssac, com jardins suspensos que são considerados a varanda do Dordonha.

França

Château de Marqueyssac. Com trilhos que correm entre vegetação rasteira e um miradouro a 130 metros de altitude, o seu jardim é um dos recantos mais encantadores do vale.

A escassos minutos de automóvel, seguindo as curvas suaves do rio, avista-se a formidável plataforma rochosa de La Roque-Gageac. É a povoação mais cobiçada e fotografada de toda a região. Apenas uma rua cobre o caudal largo, com as casas incrustadas na parede rochosa como moluscos. Abundam hotéis e restaurantes requintados e estão disponíveis passeios de barcaça pelo rio e voos de balão de ar quente na alvorada. Nas imediações, a bastide de Domme, no topo da montanha, permite contemplar o vale inteiro e ficar por momentos sem fôlego perante tamanha beleza. Sarlat, a jóia da região, surge pouco depois. A capital turística de Périgord conserva admiravelmente os seus becos e escadarias medievais, a catedral gótica e a casa renascentista de Boetie, um rico amigo e discípulo de Montaigne.

Lascaux 1, 2 e 3

A antiga Igreja de Santa Maria parece ter a abside cortada com uma faca quando foi pensada como armazém ou talvez outro uso ainda mais profano. Actualmente, é um mercado. As portas monumentais para fechar o arco ogival da nave amputada são obra recente do arquitecto Jean Nouvel, um filho da terra que regressa a casa dos pais de vez em quando. Nas portas, pode ler-se uma frase do filósofo Jean Baudrillard que poderia ser o lema do próprio Nouvel: “A arquitectura é uma mistura de nostalgia e antecipação extrema.”

Outra deslumbrante faceta arquitectónica aguarda o visitante a menos de uma hora de distância, em Montignac. Trata-se do soberbo edifício Lascaux 4, do atelier norueguês Snohetta, inaugurado em Dezembro de 2016. Substituiu Lascaux 2, que continua em uso, réplica da gruta do Neolítico coberta de pinturas espantosas.

A gruta de Lascaux 1 original, descoberta em 1940 por quatro jovens que resgatavam um cão, só pode ser visitada pelo Presidente da República. E Lascaux 3? É uma exposição itinerante que percorre o mundo. O escritor Henry Miller (1891-1980), que viveu algum tempo na Dordonha, escreveu que “se o homem de Cro-Magnon se instalou neste recanto, é porque era sumamente inteligente e tinha muito desenvolvido o sentido da beleza”.

Dordonha

Os quatro rios que atravessam Périgord de este a oeste, Dronne, Isle, Dordonha e Vézère, definiram a paisagem desta bela região de França. Nas suas margens, nasceram castelos, aldeias e abadias que ainda hoje nos maravilham. No subsolo, o encanto continua com as grutas com pinturas rupestres e formações calcárias que parecem obras de arte. O fantástico criador destas obras é a água, em elemento essencial que se converteu num dos recursos mais valiosos para atrair os viajantes do século XXI. As descidas em canoa ou barcaça, as visitas aos moinhos e às antigas fábricas de papel revitalizaram o turismo, complementado com inúmeras experiências enológicas, nomeadamente passeios nos vinhedos e provas de vinhos. Um autêntico prazer.

Margens do Isle

O vale é conhecido como Périgord Branco devido às suas rochas claras. Ao centro, situa-se a cidade de Périgueux, onde se encontram as ruínas romanas de Vesunna e a Catedral de Saint-Front. Entre os castelos destacam-se os das localidades de Chatêau L’Évêque e Neuvic. Também existem templos notáveis: a Abadia de Chancelade ou o priorado de Merlande. Outras atracções da região incluem passeios em canoa pelos rios Isle e Auvézère, o ecomuseu de Sorges e os mercados semanais que convidam à prova de trufas e patês.

Tesouros subterrâneos do Vézère

Périgord Negro, a sudeste, é um fenomenal campo de vestígios pré-históricos. Perto de Montignac localizam-se as magníficas grutas de Lascaux, consideradas a Capela Sistina da arte rupestre devido às suas pinturas. A norte, na vila de Tourtoirac nas margens do Auvézère, existem grutas que são uma maravilha geológica. E, a sul, Saint-Cirq esconde-se a gruta do Sorcier (feiticeiro), com gravuras rupestres. O Pôle Internationale de la Préhistoire, apresenta exposições muito interessantes. O Périgord Negro também conta com bonitos monumentos como a Igreja de Savignac de Miremont ou o Castelo de Hautefort. Nas actividades de natureza, aconselha-se a navegação nos rios Dordonha e Vézère.

Vale do Dronne

O norte de Dordonha é a zona mais frondosa e daí a denominação de Périgord Verde. O Parque Périgord-Limousin protege boa parte das suas florestas, atravessadas por trilhos adequados a todo o tipo de viajantes. Navegar pelo Dronne permite contemplar castelos e povoações medievais, como Brantôme, que tem uma abadia beneditina adossada a um abrigo rochoso onde existem galerias e casas “trogloditas”. Além do Dronne, correm por aqui também os rios Isle e Auvézère. A abundância de cursos fluviais deu lugar a uma indústria papeleira da qual se conservam ainda diversos moinhos.

A paisagem de vinha de Dordonha, origem do Périgord púrpura

O Périgord Púrpura, na ponta sudoeste, está atapetado de vinhas e é regado pelo rio Dordonha. Aqui encontra-se a cidade de Bergerac, centro de uma região vitivinícola de fama mundial. Além das provas de vinhos produzidos na zona, na Maison du Vin de Monbazillac ou de Bergerac, por exemplo, há que dedicaralgum tempo à descoberta do património monumental. A estação arqueológica galo-romana de Montcaret preserva mosaicos, a Abadia de Cadouin tem um belo claustro gótico e a aldeia de Couze-et-Saint-Front recuperou o moinho de papel de La Rouzique, documentado desde 1530. A povoação de Le Bouisson-de-Cadouin, além da mencionada abadia, tem também as grutas de Maxange, galerias descobertas casualmente no ano 2000 e que, porora, contam com um percurso aberto ao público com 250 metros. Nas imediações, encontra-se o Jardim de Planbuisson onde se pode vercerca de 180 espécies de bambu.

A última paragem do roteiro é Périgueux, a capital. Não é muito grande. Tem cerca de 30 mil habitantes, mas afigura-se uma autêntica slow city onde a vida se saboreia como um aperitivo. Subindo à torre medieval de Mataguerre, ;pode apreciar-se a estrutura dual desta urbe na margem do Isle. De um lado, vê-se o que parece um torreão, mas na realidade é um templo circular galo-romano dedicado à deusa Vesunna. No lado oposto, ergue-se a cidade medieval e renascentista, em torno da Catedral de Saint-Front.

Se passear pela parte medieval temo seu encanto, entrar na villa romana de Vesunna deixa o visitante boquiaberto. Não são apenas os mosaicos e os frescos que espantam, mas também o Museu Jean Nouvel dedicado à domus romana. É admirável a forma de “envolver” em vidro semelhante esplanada. E uma lição sobre a forma como a faceta mais arcaica (sejam pinturas rupestres ou vestígios romanos) casa perfeitamente com o vanguardismo mais audaz.