Os 4 mosteiros que lhe propomos visitar neste Natal

Estar com a família não implica fechar-se em casa. Aqui ficam quatro sugestões de obras de arquitectura religiosa menos conhecidas em Portugal passíveis de (ainda) surpreender crentes... e não-crentes.

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O frio e a chuva podem convidar ao recolhimento doméstico, mas as férias de Natal são também uma boa altura para circular, maravilhar-se e aprender um pouco mais. Os mosteiros medievais – idealizados e materializados como locais de refúgio e isolamento na busca de uma paz que mais facilmente ajudasse a entender os desígnios de Deus – são uma opção, quer pela sua arquitectura, quer pela sua mística. 

Jerónimos, Alcobaça e Batalha são Património da Humanidade e referências óbvias, mas no território português existem outros mosteiros, mais obscuros e esquecidos, igualmente representativos da monumentalidade monástica portuguesa e dignos de uma visita. 

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1. Mosteiro de Santa Maria de Cárquere

Fundado no século XII em Resende, pelos Cónegos da regra de Santo Agostinho, o interesse neste mosteiro não reside tanto na sua arquitectura – uma igreja de planta românica, com traços góticos, da qual resta a igreja principal com uma torre e a capela funerária dos Resendes, família nobre que baptizou a terra –, nem no facto de ser provavelmente o local onde pela primeira vez foi representada numa imagem uma gaita de foles. Não, o interesse maior de Santa Maria de Cárquere está nas lendas que o rodeiam.

A mais famosa é, sem dúvida, a que se prende com a cura de Dom Afonso Henriques quando era criança. A primeira menção é encontrada numa crónica do século XV. Egas Moniz, pertencente à casa nobre de Ribadouro, uma das mais importantes bases de apoio do nosso futuro primeiro rei na luta pela independência, pede ao Conde Dom Henrique se pode ser o aio e educador do seu primeiro descendente, fosse ele homem ou mulher. O conde acede e, em 1109, nasce Afonso, Henriques de apelido. No entanto, conta a lenda que o pequeno infante viera ao mundo com as pernas mal formadas. Dona Teresa temia, assim, que este jovem jamais pudesse seguir a carreira do pai, tendo sido as suas esperanças militares traídas. Mas o seu aio, emocionado pela situação, rogou aos pais que o deixassem encarregar do tratamento de Afonso.

Chegara Afonso aos cinco anos e, reza o mito, Egas Moniz sonhara com Nossa Senhora, indicando uma igreja inacabada de sua invocação e que ali deveria levar a criança, colocá-la no altar. A cura estaria aí. Moniz obedeceu, deixando o jovem Afonso no altar. No entanto, adormeceu e, a meio da noite, uma vela cai no pano que envolve o infante, pegando fogo. Este levanta-se então e apaga o incêndio rapidamente, evitando males maiores. De pé, pernas fortes, direitas: Afonso estava curado.

Já deve ter adivinhado que a igreja é a deste mosteiro. Cárquere é historicamente uma localidade de forte implantação religiosa, com indícios que apontam para cultos pagãos a deuses da caça. É o local ideal para a lenda de um milagre. Esta história envolve grande debate e até teorias da conspiração que indicam a troca de Dom Afonso Henriques pelo filho mais velho de Egas Moniz… O Mosteiro de Cárquere, no entanto, lá está, de pedra e cal, numa das mais belas zonas do país, à sua espera.

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CC BY-SA 4.0

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2. Mosteiro de Travanca

No concelho de Amarante, um edifício parece um castelo e, afinal, servia para adoração e silêncio religiosos. O mosteiro de Travanca confunde inicialmente, com a sua característica torre de traços góticos mesmo colada à igreja. Aliás, confunde duplamente, porque nem sequer combina com o restante traço românico de todo o complexo. A torre foi construída no século XVI, embora com um propósito puramente simbólico, mas a igreja, com dedicação ao Divino Salvador, da qual resta a maior parte da planta original, data do século XI, com alguns acrescentos a prolongarem-se até ao século XIII.

É uma construção que impresssiona pela sua dimensão, o que dá uma ideia da implantação e poder das ordens religiosas na zona do Sousa durante a Idade Média. Neste caso, da Ordem Beneditina. Construído sob o beneplácito da linhagem dos Gascos, à qual pertenceu Egas Moniz, famoso aio de Dom Afonso Henriques, era em tempos medievais um dos principais mosteiros masculinos da zona Entre-Douro-e-Minho.(Fotografia de Manuel V. Botelho

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3. Mosteiro de São João de Tarouca

Viajemos agora até à serra de Leomil, onde encontramos o primeiro mosteiro cisterciense fundado em Portugal: São João de Tarouca, localizado no concelho de Tarouca, Viseu.

Construído em 1154, motivado por uma promessa de Dom Afonso Henriques – mas no caso relacionada com a vitória na batalha de Trancoso – sofreu várias transformações durante o século XVII e o que encontramos hoje em dia é uma estranha quimera arquitectónica que cruza elementos da planta românica original, de um gótico que foi acrescentado posteriormente e também alguns aspectos barrocos. É um bocadinho como fazer uma viagem no tempo na monumentalidade religiosa portuguesa.

Além das várias pinturas religiosas, o Mosteiro alberga um enorme dormitório de dois pisos, raro na Península Ibérica, e apesar do desgaste derivado de ter sido explorado pela pedra das suas paredes, o que foi muito comum a outros mosteiros depois de 1834 (com o decreto que extinguiu as ordens religiosas em Portugal).

Encontra-se aqui também o Mausoléu de Dom Pedro Afonso, filho bastardo de Dom Dinis. Apesar de alguns dos edifícios estarem ainda em ruínas, a envolvência natural do vale mantêm São João de Tarouca como um local agradável de visitar. Se quiser estender a visita religiosa, existem perto o Mosteiro de Santa Maria de Salzedas e o Convento de Santo António de Ferreirim.

4. Mosteiro de São Bento de Cástris

Terminamos no Sul, no distrito de Évora, onde encontramos o primeiro mosteiro cisterciense feminino a Sul do Tejo. Fundado por Dona Urraca Ximenes em 1274, no local onde existia uma muito simples ermida dedicada a São Bento, é uma pequena amálgama de vários estilos que vão do românico ao barroco, passando pelo gótico tardio, o mudejar ou o manuelino. Visitá-lo é viver uma pequena aula de História da Arte arquitectónica portuguesa. Do Alto de São Bento, onde se localiza, temos uma vista excelente de toda a planície alentejana entre Évora e Arraiolos. Um episódio macabro marca, porém, a sua história.

Por alturas da crise de sucessão dinástica de 1383-85, era abadessa do mosteiro Joana Peres de Ferreirim. A população de Évora, alinhando com Dom João, Mestre de Avis, odiava-a, pois a abadessa era parente de Leonor Teles, viúva de Dom Fernando, partidária de Castela e vista por todos como a grande responsável pela morte daquele que viria a ser o último rei da primeira dinastia. Conta Fernão Lopes que Joana Ferreirim se escondera na Catedral de Évora, temendo que os populares dessem com ela em São Bento de Cástris. De nada lhe valeu: foi descoberta, arrastada até à Praça do Giraldo – local central da urbe eborense – e ali mesmo assassinada.