Na forma de arte ancestral do Noh, figuras mascaradas envergando vestes requintadas servem-se do canto para tecer contos sobre deuses e fantasmas, amor e perda das lendas japonesas. O Noh surgiu no século XIV, sendo, por isso, uma das mais duradouras tradições de teatro do mundo. No entanto, apesar da sua longa história e influência sobre outras formas de arte, incluindo o Kabuki, o Noh permanece relativamente menos conhecido.

O Noh recorre a movimentos e gestos rigorosos e deliberados. Uma vez que as máscaras ocultam as expressões humanas, os artistas evocam as emoções com ligeiras inclinações da cabeça e o público deve preencher as lacunas com a sua imaginação.

Comparativamente, o “Kabuki foi criado como um teatro comercial, o que significa que a montagem do espectáculo era importante”, afirma Tove Björk, professora de literatura japonesa da época moderna na Universidade de Saitama. Uma mistura vívida de narrativas dinâmicas, maquilhagem ousada, música e gestos dramáticos, o Kabuki rapidamente atraiu o interesse estrangeiro.

Aluno prepara-se para um espectáculo de Kabuki
Noriko Hayashi, The New York Times/Redux

Nos bastidores, um aluno prepara-se para um espectáculo de Kabuki, na escola primária de Damine, na aldeia homónima, situada no centro do Japão, a 9 de Fevereiro de 2020.

Embora tanto o Noh como o Kabuki tenham raízes em séculos de tradição, inovações como a realidade estendida (XR), palcos imersivos e adaptações de espectáculos populares e manga estão a quebrar as barreiras em ambos.

Em seguida, contamos-lhe aquilo que os viajantes precisam de saber sobre o Noh e o Kabuki, a forma como estão a mudar e onde pode assistir a espectáculos quando visitar o Japão.

O nascimento do teatro japonês

“O Noh é como uma ‘arte mãe’ na qual os artistas mergulham”, diz Julia Yamane, directora e representante do Discover Noh in Kyoto. As flautas e tambores do Noh também são utilizados por músicos que participam em festivais japoneses famosos como o Gion Matsuri. O designer de moda japonês Issey Miyake incorporou silhuetas sobredimensionadas inspiradas no Noh na sua colecção de pronto-a-vestir da Primavera de 1995. Mais recentemente, os fãs de James Bond poderão lembrar-se do vilão Lyutsifer Safin, interpretado por Rami Malek, que usou uma máscara ao estilo do Noh em 007 – Sem Tempo para Morrer.

As origens do Noh derivam dosangaku, uma variedade de espectáculos importada da China no século VIII, que incluía acrobacias, ilusionismo e música. Com o passar do tempo, o sangaku evoluiu no sentido da comédia, tornando-se conhecido como sarugaku. À medida que esta arte ganhava popularidade no século XIV, Kan’ami Kiyotsugu, líder de um proeminente grupo de sarugaku e o seu filho começaram a criar os alicerces do Noh. Incorporaram os elementos de canção e dança do dengaku e a comédia oral do kyōgen, criando a combinação dicotómica do Nohgaku. Pouco depois, Kiyotsugu formou a Escola Kanze, uma das mais antigas das cinco principais escolas de teatro Noh.

No distrito de Ginza, em Tóquio, os turistas podem assistir diariamente a espectáculos no Teatro Noh da Escola Kanze. Para aqueles que não estão familiarizados com o Noh, as peças podem parecer um pouco estáticas, tanto em termos físicos como dramáticos. No entanto, ao contrário do Kabuki, incorporam uma estética de austeridade e elegância. Encenado pela primeira vez no século XVII, o Kabuki utilizou instrumentos do Noh na sua forma mais primitiva, “mas combinados com danças provocantes, nas quais os artistas se travestiam com frequência”, diz Björk. “Os textos de Noh impressos [também se tornaram] úteis para as peças [de Kabuki].”

Como o Noh e o Kabuki estão a mudar

A inovação é um aspecto inerente ao Kabuki. A arte “sempre acolheu e trabalhou arduamente para apurar o mais alto grau de tecnologia, pois queria impressionar tantos espectadores quanto possível”, diz Björk. Nos últimos anos, os teatros de Kabuki incorporaram projecções imersivas e video mapping, incluindo obras do famoso artista de realidade virtual Hatsune Miku. Durante a pandemia de COVID-19, foi desenvolvida uma aplicação de realidade aumentada para que as pessoas pudessem apreciar Kabuki em casa. Os teatros de Kabuki também ganharam novos espectadores ao adaptar histórias de outras formas de arte, desde filmes icónicos de Charlie Chaplin a histórias da mangacomo One Piece e Naruto.

Mulher japonesa fabrica uma máscara tradicional Noh em madeira
Xpacifica, Nat Geo Image Collection

Uma mulher japonesa fabrica uma máscara tradicional Noh em madeira. Existem, pelo menos, 60 tipos de máscaras Noh, que podem parecer felizes, tristes ou zangadas dependendo de como os artistas mexerem a cabeça.

Embora o Noh tenha sido mais lento a adoptar tecnologias do que o Kabuki, Diego Pellecchia, professor associado da Universidade Kyoto Sangyo e artista de Noh, diz que os recentes espectáculos de realidade virtual e adaptações da manga, como a peça do ano passado baseada na popular história Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba, levada a cena no Teatro Ohtsuki Noh, em Osaka, e no Teatro de Noh da Escola Kanze, em Tóquio, são sinais dos esforços que estão a ser empreendidos para “renovar” o Noh, mantendo-o simultaneamente fiel à tradição. “Só o tempo dirá se o Noh conseguirá reter a sua essência, se irá transformar-se noutra forma de arte ou se tornará numa peça de museu”, diz Pellecchia.

Como experienciar o Noh e o Kabuki

Espectáculos públicos de Noh e Nohgaku são encenados em diversos teatros em todo o Japão. Em Tóquio, o Teatro Nacional Noh apresenta espectáculos regulares num espaço em madeira de cipreste com 591 lugares que se assemelha a um templo. Um pequeno museu de disfarces e máscaras amplifica a experiência.

A Discover Noh in Kyoto, organiza eventos em diversos espaços da capital, incluindo o Kyoto Kanze Kaikan, com 452 lugares. Numa parceria com a GetYourGuide, a Discover Noh in Kyoto também oferece a rara oportunidade de conhecer um actor Noh de terceira geração num palco privado, em sua casa. Os espectadores desfrutam de um espectáculo privado, com peças de vestuário e máscaras com centenas de anos e da possibilidade de aprender alguns movimentos metódicos e ritmos típicos do Noh com este mestre.

Pode assistir à altamente estilizada forma de arte do Kabuki no Teatro Nacional de Tóquio ou no Teatro Kabukiza, construído em cerca de 1889. Os espectáculos de Kabuki tendem a ser longos – até quatro horas – mas pode comprar um bilhete para assistir a apenas um acto e desfrutar de 30 minutos ou uma hora de entretenimento.

Se pretender uma visita personalizada ou assistir a ante-estreias, o serviço de concierge de luxo Taro dispõe de ofertas de acesso a teatros Noh privados e espectáculos Kabuki guiados, com figuras proeminentes como Kikunosuke Onoe.

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.