Uma Jornada pelo Mundo: Muralhas, Fronteiras e Inconformismo, por Paul Salopek

Nas suas últimas notas de viagem, o jornalista premiado reflecte sobre os onze anos que percorreu a pé pelo planeta, rompendo as muralhas da mente.

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FOTOGRAFIA DE PAUL SALOPEK

Um residente idoso empurra a sua bicicleta nas ruelas de Ping Yao, uma cidade bem preservada do século XIV na Província de Shanxi. À semelhança da maioria das cidades antigas da China, está rodeada por muralhas altas.

Paul Salopek, jornalista premiado e explorador da National Geographic Society, embarcou numa viagem de 33.000 quilómetros no âmbito do projecto Jornada pelo Mundo – Out of Eden Walk. Seguindo as pegadas dos nossos antepassados humanos, Paul envia-nos as suas notas do terreno. Neste artigo, evoca o poder das muralhas e das fronteiras. E a capacidade humana para não se deixar manietar por elas.

Junto da Portela de Yanmen, Shanxi, China, 39° 11' 41" N, 112° 48' 30" E

Estou no cimo de uma secção de “muralha selvagem” da Grande Muralha da China, ou seja, um segmento isolado e decadente dos cerca de 21.000 quilómetros de construções em camadas que outrora defenderam os antigos reinos chineses uns dos outros e do mundo nómada da Eurásia. Esta correnteza de fortificações específica, junto de Yanmenguan, ou “portela dos gansos selvagens”, no centro da província de Shanxi, não foi restaurada para fins turísticos. As suas fantásticas muralhas revestidas a pedra têm 7,5 metros de altura e são frequentemente interrompidas e cobertas por erva seca. As cumeeiras carecas e erodidas de Hengshan rolam lá ao fundo como grandes vértebras castanhas. O meu companheiro de viagem chama-se Wang Wei e é professor de arqueologia na Universidade de Tiayuan. Wang é incansável como uma cabra-montesa.

“Sim, acho que as muralhas resultam”, responde Wang, quase gritando no meio das rajadas de vento que sopram vindas da Mongólia. “Esta resultou durante muitas centenas de anos.”

“Quando vejo uma muralha nacional, vejo um fracasso político”, respondo a Wang.

“Sim, concordo. Isso também pode ser verdade."

Continuo a caminhar através da China. Vou no 11.º ano de uma viagem global a pé prolongada a que chamei "Out of Eden Walk". Orientado pelos conselhos de arqueólogos, paleontólogos, especialistas em genética e historiadores, estou a refazer, a pé, os primeiros corredores da dispersão humana para fora de África, durante o Paleolítico. Pelo caminho, tento examinar os eventos actuais através do prisma do tempo futuro – analisar as origens de notícias de última hora nos frontões escondidos da história. Ando a caminhar desde 2013, num mundo economicamente integrador, mas politicamente fracturante. Algo está a mudar sob os meus pés.

A minha primeira observação, nada original, embora recebida da perspectiva invulgar das minhas botas, caminhando a nove quilómetros por hora, sugere que embora a globalização contemporânea nos tenha dado a cozinha de fusão tailandesa ou os Nikes baratos, resultou sobretudo na criação de elites e no enriquecimento colossal de empresas multinacionais. As mercadorias podem ser transportadas livremente. Mas não há globalização das pessoas propriamente ditas, nem dos seus sonhos. Muitas das mais de 280 milhões de almas que vivem actualmente fora dos seus países de origem – um recorde histórico – não se aventuram até ao estrangeiro devido a um sentimento de fraternidade global. Foram empurradas pela estagnação, pela pobreza (frequentemente induzida pela globalização), pela guerra e pelas crises climáticas existentes na sua terra natal. (Lembra-se daquelas previsões obtusas, aqui há anos, de que dois países com McDonald’s nunca entrariam em guerra?) Tanto quanto pensam nisso, as pessoas comuns com quem me cruzo ao longo da minha longa caminhada mostram-se desiludidas com frequência com o estado do mundo supostamente integrado. E eu observo muralhas a erguerem-se noutros locais.

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FOTOGRAFIA DE PAUL SALOPEK

Uma janela através do tempo: Uma torre de vigia na secção da “muralha selvagem” da Grande Muralha, na Província de Shanxi, com vista para as estepes varridas pelo vento da Mongólia.

O meu amigo professor Wang, especialista na dinastia Ming – a última dinastia que renovou significativamente a imponente muralha de Yanmenguan contra os exércitos dos cavaleiros das estepes no século XIV – vê as coisas da perspectiva da dinâmica, mas turbulenta, época dos Dezasseis Reinos na China. Durante esse período, entre os séculos IV e V, o Norte da China foi dividido entre reinos de curta duração, mais pequenos e enérgicos, envolvidos em disputas constantes, que eram frequentemente multiculturais, incorporando prototurcos, mongóis, tibetanos e chineses da etnia han.

“Como em muitas outras épocas de turbulência, a vida era excitante, mas difícil”, diz Wang. “Não era fácil. As influências do exterior vinham acompanhadas por trocas compensadoras. É como a globalização dos nossos dias. Alimentou a esperança de toda a gente. Mas também causa agitação. Tem um preço. Por isso, estamos a assistir a aberturas e fechos. As pessoas abraçam a novidade e depois recuam. É cíclico. Talvez seja como um casamento. Chegamos a determinado patamar em termos de vantagens. E depois deixa de ser tão excitante. Isto é humano.”

Wang sobe às ruínas da muralha selvagem.

Conduz-me a uma abertura ínfima naqueles quilómetros de alvenaria majestosa. Este túnel minúsculo escavado junto da base da muralha com 9 metros está escondido e não parece suficientemente amplo para permitir a passagem de um foragido. Era, porém, uma saída secreta e uma entrada para batedores e espiões.

“Lá fora!”, grita Wang, rindo-se, com o cabelo puxado para o lado pelos ventos frios, apontando em direcção da Mongólia na abertura ocidental do túnel. Vira-se e aponta de novo para o buraco. “Cá dentro!”

Um poro na pele do império.

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FOTOGRAFIA DE PAUL SALOPEK

O arqueólogo Wang Wei inspecciona restos da Grande Muralha na distante Província de Shanxi.

Na minha caminhada global, a primeira muralha que encontrei, há 11 anos, encontrava-se no vale do Rifte em África, na mal assinalada fronteira entre a Etiópia e o Djibuti.

O meu guia era um pastor da etnia afar. Fomos detidos por agentes da polícia do Djibuti depois de atravessarmos a fronteira ilegalmente. Os meus amigos afar tinham-se recusado a acreditar no meu GPS nesta matéria. Zangados, os agentes fronteiriços mandaram-nos retroceder quilómetros, sob calor devastador, para os nossos passaportes serem carimbados com um selo de saída num posto de guarda etíope.

Não culpo os pastores que me acompanhavam na caminhada.

Artigos vendidos por um exército de vendedores ambulantes transpirados num lado etíope da fronteira: panquecas de trigo sarraceno njera, Coca-Cola, chá, café, amendoins, doces, cartões recarregáveis de telemóvel, pacotes de dois preservativos, cigarros à unidade, cerveja e molhos de folhas narcóticas de qat vinham todos os dias em camiões das terras altas.

Quais os artigos vendidos pelos vendedores ambulantes do lado do Djibuti? Precisamente os mesmos.

A “muralha” entre eles era um cano de água dobrado por guardas abusivos, que subia e descia numa auto-estrada escaldante. Nenhuma outra barreira nacional era visível, até onde os olhos conseguiam alcançar, no deserto em redor.

A fronteira que governa a topografia mais poderosa do planeta é delimitada pelas ondulações da mente humana.

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FOTOGRAFIA DE PAUL SALOPEK

As ruínas muradas de um templo da dinastia Ming pairam sobre o Rio Amarelo, junto à aldeia de Mahuaping, na região central China.

O professor Luo Xin, eminente historiador e escritor da Universidade de Pequim, em Pequim, encontrou a seguinte troca de correspondência enterrada nos arquivos imperiais da China.

É uma conversa que ecoa até nós, vinda de soldados han que patrulhavam o topo da Grande Muralha (os topos das ameias chinesas eram com frequência concebidos para suportar uma estrada elevada com a largura de dez soldados a pé ou de cinco a cavalo) e um cavaleiro solitário que se aproximou da vasta fortificação vindo do reduto coberto de erva das estepes mongóis:

Vens espiar-nos?  – perguntam os soldados ao intruso, lá em baixo.

Sim, grita-lhes o cavaleiro como resposta. Estou aqui à procura de pontos fracos para o nosso próximo ataque.

Olha! Tu falas como um han, não mongol! respondem os soldados, sobressaltados.

É verdade. Tratam-me muito melhor deste lado!

“A ideia de que a Grande Muralha era uma barreira rígida entre as pessoas é falsa”, explica Luo. “Havia mongóis a cultivar a terra no lado chinês e chineses han a negociar no lado mongol. Era complicado.”

Por outras palavras: as muralhas podem tentar cercar a identidade humana. Mas não conseguem.

Há muitos anos, enquanto atravessava a Cisjordânia até Jerusalém, controlada pelos israelitas, deparei-me com a tristemente célebre Barreira da Separação.

Esta estrutura é uma imponente muralha com oito metros de altura, feita de lajes sólidas de betão que serpenteia entre os territórios palestiniano e israelita. Pode ser facilmente observada por satélite. A sua superfície apresenta-se densamente coberta por grafitos irados – sinais e pragas, poemas e provocações, clamores e presságios. Foi construída para manter os bombistas suicidas palestinianos longe de Israel após a Segunda Intifada.

“Eles construíram a muralha aqui num só dia de 2003”, disse-me Claire Anastas, uma cristã residente da cidade vizinha de Belém. A sua casa ficava em plena linha de divisão do território. Ela recusou-se a ceder. Então, o governo israelita erigiu as enormes muralhas em volta de três lados da sua modesta casa, ao alcance da sua mão se esticasse o braço para fora das janelas. “As crianças foram para a escola de manhã e, quando chegaram, encontraram a casa cercada”, disse Anastas.

“Tu!”

A voz ouviu-se através de um intercomunicador no posto de controlo da barreira. Eu estava ao lado de um detector de metal. Não havia nenhum ser humano à vista. Intrigado, olhei em redor.

“Sim, tu!”

“Onde estás?”, perguntei. “Não te vejo.”

“Atrás de ti! Atrás do vidro! O que tens na mala?”

“Um computador portátil, uma câmara de vídeo, um gravador de áudio, um telefone de satélite… “

“De onde vens?”

“Da Etiópia.”

“Não! De onde és?”

“Dos Estados Unidos.”

“Bem-vindo a Israel.”

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Fotografia de PAUL SALOPEK

Turistas amontoam-se nas ruas de Ping Yao, uma cidade murada do século XIV na Província de Shanxi, que foi outrora um grande centro financeiro. Equipas de operários estão a escavar as antigas estradas de tijolo para as substituir com pavimento em pedra, mais “autêntico”.

Antes de me levar até à muralha selvagem, o arqueólogo Wang Wei juntou-se a mim em Ping Yao, uma excepcionalmente bonita e bem preservada cidade histórica construída na província de Shanxi, no século XIV. Equipas de operários preparavam-se para remover os antigos tijolos das estradas para os substituir por pavimento de pedra, mais “autêntico”. As lojas vendiam gelado. Algumas alugavam trajes da dinastia Ming para os turistas passearem. Os turistas tiravam auto-retratos com os telemóveis, vestidos nesses trajes – incluindo delicados chapéus de sol.

A cidade fora um grande centro financeiro durante as dinastias Ming e Qing. À semelhança da maior parte das cidades antigas da China, encontrava-se rodeada de muralhas altas.

Quando se anda a pé, vêem-se muralhas por toda a China. No caso de Ping Yao, são paliçadas altas de pedra que incluem seis portões, quatro torres, 72 torres de vigia e 3.000 merlões – estes últimos simbolizando os 3.000 alunos de Confúcio.

“Na China antiga, o povo era o principal recurso”, diz Wang Wei. “Os agricultores vinham do povo. Os soldados também. Quem controla o povo, controla tudo.”

Quando saímos da cidade através do seu labirinto de ruas estreitas, caminhando sob o portão setentrional da muralha, Wang diz: “Durante milhares de anos, este foi o universo chinês. Milhares de anos de vidas desenrolando-se nas ruas. Esta muralha? Era o limite do universo conhecido. Do outro lado? Nada.”

Um troço antigo e selvagem da grande Muralha da China, junto da fronteira com a estepe mongol, dá-nos lições sobre as divisões no nosso mundo contemporâneo. (Out of Eden Walk)

O tempo é uma muralha. Talvez a vida também seja.

Sigo em frente, com os meus companheiros de caminhada chineses.

Passamos por filas de choupos esguios, de casca branca e sem folhas, dispostos como postes de uma cerca. Nas aldeias, palavras de ordem pintadas nas paredes de edifícios governamentais incitam-nos: Acende um fogo. Vai preso! E Parabéns aos bancos locais — os depósitos ultrapassam os 16 mil milhões de renminbi. E Novas ideias. Nova visão. Novo líder. Das vertentes altas cor de ocre dos penhascos que contêm o rio Amarelo, explosões bem altas ecoavam no local onde as equipas de construção estavam a prolongar uma linha de caminho-de-ferro.

Nunca me esquecerei da aldeia de Mahuaping.

Caminhamos pelas ruas silenciosas à luz do crepúsculo. Não há muralhas visíveis.

É um posto avançado típico da zona rural do Centro da China, situado no Planalto de Loess. Várias casas são muito antigas: grutas escavadas à mão chamadas yaodong. Vemos fendas nas belas estruturas de filigrana existentes em redor das janelas porque quase todas as casas estão abandonadas. Foram trocadas por arranha-céus nas cidades. Vemos espigueiros erguidos sobre molhos de paus. Há mós antigas – rodas de granito – caídas entre a erva. Os pomares de jujubeiras tornaram-se semi-selvagens. Tudo terá desaparecido dentro de 20 ou 25 anos. Desaparecido e esquecido.

“Quem são vocês?”, pergunta uma avózinha desconfiada à porta da sua casa. “O que andam aqui a fazer?” Ficou aqui encalhada. Talvez seja a última moradora.

Ruth, onde estás tu?, pergunto, em voz alta, a mim próprio, caminhando em frente, pensando nas minhas pessoas, naqueles que existiram antes e passaram por alguma muralha. E, sem abrandar o passo, aceno-lhe.

A National Geographic Society, empenhada em divulgar e proteger as maravilhas do nosso mundo, financia o explorador Paul Salopek e o projecto Out of Eden Walk desde 2013. Explore o projecto aqui. Siga Paul no Instagram e no X (Twitter)