A magnético encanto da Bulgária em 12 fotografias

Balcânica pelos montes, mediterrânea pela gastronomia, oriental pela ligação cultural, helénica pela efusividade do seu povo... A Bulgária é um dos países mais interessantes e menos turísticos da Europa.

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O mosteiro de Rila, a 120 quilómetros de Sofia, é Património da Humanidade.

Parques naturais, ursos, mosteiros e comida deliciosa, ou o charme das ruas de Sófia, Plovdiv, Bachkovo, Kazanlak e Veliko Tarnovo... A Bulgária está a convidá-lo para uma lição de história e hospitalidade. Partimos em viagem para os Balcãs?

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1. PLOVDIV ENTRE SETE COLINAS

Há 2.600 anos, também andavam pessoas na Rua Tseretelev. Talvez de forma mais apressada do que as que procuram agora os tesouros arquitectónicos de Plovdiv, a segunda cidade mais importante da Bulgária. Seriam comerciantes ou artesãos, que ocupavam uma das sete colinas sobre as quais assenta esta cidade milenar.

Para chegar à Cidade Antiga, há que atravessar o bairro de Kapana, o mais estiloso da cidade, repleto de belíssimos murais pintados por artistas urbanos, lojas originais onde é possível fazer sapatos por medida em poucas horas ou transformar um cabide e algumas folhas numa escultura, restaurantes modernos com cadeiras desemparelhadas e empregados de mesa com chapéus porkpie que servem comida de fusão em frascos de conservas. Os mapas do posto de turismo chamam-lhe Distrito Criativo. Ocupa uma planície quadrada e tem apenas 20 ruas.

Quando se atravessa o túnel subterrâneo sob a Avenida do Czar Boris III e se entra nas ruas íngremes do centro histórico, a paisagem muda. A quadrícula desfaz-se e as ruas assumem formas sinuosas, estreitando-se e conduzindo a casas enormes pintadas com a dedicação de um ourives, com cores e frisos chamativos.

São as propriedades oitocentistas dos comerciantes mais ricos da cidade. Visitam-se com veneração, fazendo estalar os soalhos antiquados e entrando em prodigiosas salas de receber, invariavelmente decoradas com os melhores móveis da casa e uma janela de sacada com vista para o jardim. Contavam também com um espaço chamado alafranga, com um trompe l'oeil e um requintado gosto francês, contrastando com o aspecto oriental do resto da casa, que era turco. E a influência do Império Otomano, que aqui passou cinco séculos, destruindo mais do que construindo, mas deixando a sua inevitável marca no espírito búlgaro.

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2. OS SÍTIOS ROMANOS DE PLOVDIV

Os bairros de Plovdiv estão prodigiosamente interligados. Num mero instante, sai-se de um rosário de casas imponentes e chega-se às ruínas romanas, dando de caras com um anfiteatro. E, em seguida, um estádio. E, mais adiante, um fórum. E depois um odeão. Tudo isto integrado na avenida pedonal mais moderna da cidade e encaixando-se como um puzzle perfeito. Pelo caminho, encontra-se a Mesquita Dzhumaya, uma das mais antigas dos Balcãs, onde se reza a Alá desde o século XV. As suas paredes estão decoradas como uma bela tapeçaria e despertam aquela confusão tão habitual neste país: Estamos na Bulgária ou na Turquia? Numa mistura requintada dos dois países?

Para apreciar melhor a concavidade que acolhe a malha urbana, o melhor é subir à colina de Nebet Tepe, onde os trácios fundaram a primeira cidade. Os arqueólogos asseguram que já viviam pessoas neste alto há 6.000 anos. Restam apenas quatro ruínas, mas a vista panorâmica é inigualável.

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3. BACHKOVO, UM MOSTEIRO NO CAMINHO

A meia hora de carro de Plovdiv, encontramos o mosteiro de Bachkovo, o segundo mais importante do país. Está tão rodeado por lojas de recordações, bares e restaurantes – sinal da sua popularidade – que o imponente ossário de monges que se encontra junto à entrada poderia passar despercebido. É imperativo visitá-lo, desde que não se aflija com as centenas de caveiras empilhadas como tomates numa mercearia. Segue-se um pátio recatado, onde se situa a pequena e bela igreja de Sveta Bogoroditsa e, no lado sul, o espectacular refeitório dos monges – coberto por uma abóboda de berço decorada até à exaustão com frescos de santos e cenas que contam a história do mosteiro.

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4. KAZANLAK, A CIDADE DAS ROSAS

Kazanlak está fixada praticamente no centro geográfico de Bulgária, como um pionés num mapa. Os viajantes mais excêntricos poderiam visitá-la apenas devido à sua sonoridade, essa combinação perfeita de As com dois Ks e um Z, mas existem melhores razões para fazê-lo: é o centro de um universo perfumado. Neste vale fabrica-se 60 por cento da produção mundial de óleo de rosas.

Um urbanista diria que Kazanlak se articula em torno da alegre praça Sevtopolis. Para qualquer outra pessoa, o seu centro são as pétalas de rosa damascena, trazida há apenas 300 anos da capital da Síria para se transformar na raison d’être da vila e do vale em seu redor. Nos últimos meses da Primavera, toda esta terra é envolvida por uma nuvem fragrante.

Os terrenos agrícolas planos estão literalmente cobertos de roseirais. Grupos de especialistas ciganos – muito apreciados pelo seu profissionalismo e delicadeza na colheita – apanham os botões floridos, os quais, através de um processo industrial bastante simples, são posteriormente transformados em óleo essencial, perfume, água de rosas, aroma para velas, sabonetes, champô, gel, creme hidratante… enfiar uma colher de doce de pétalas de rosa na boca faz uma pessoa sentir-se imediatamente um paxá. Provar um pedaço de lokum – a versão búlgara da delícia turca, feita dessa mesma flor – é como dar uma dentada numa nuvem aromática.

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5. O TÚMULO TRÁCIO MAIS IMPORTANTE DO PAÍS

Kazanlak conta com um parque dedicado a diferentes variedades de rosas, autênticos confetis vivos. Colado a ele, existe um modesto, mas didáctico, museu sobre o tema que dá a conhecer a riqueza sobre qual a cidade foi edificada. Nos arredores, as fábricas mais antigas podem ser visitadas, mas ocultam dos olhares estranhos os seus mais valiosos segredos de como destilar a flor na perfeição. Terminado o mês de Junho, quando os roseirais ficam sem flores, inicia-se o cultivo da lavanda, que decora os campos em tons de roxo e os envolve num novo aroma. O túmulo trácio decorado mais importante do país encontra-se em Kazanlak, mas até ele é eclipsado pelo perfume das flores.

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6. VELIKO TARNOVO ENTRE MONTANHAS

Na Bulgária, não há transições entre a planície e as montanhas. De repente, começam encostas inimagináveis que conduzem a matas frondosas e nos recordam, caso nos tenhamos esquecido, que nos encontramos em plenos Balcãs. Veliko Tarnovo foi a capital dos antigos czares. Situa-se nas Montanhas Centrais. Os búlgaros adoram-na porque os transporta para o ponto alto da sua cultura e porque ali se proclamou a independência do país em 1908.

Os estrangeiros também se apaixonam por ela, pois a arquitectura tradicional atingiu aqui o sublime e ainda existem bairros intactos de casas de madeira acompanhando o curso sinuoso do rio Yantra, que atravessa um desfiladeiro que poucos se atreveram a povoar. Aqui, porém, fizeram-no com muita alegria e constância, ignorando as dificuldades de atravessar constantemente o rio, subir ladeiras e superar desníveis que nada têm a ver com pragmatismo. A melhor forma de visitar a cidade é andando para trás e para a frente, em filas ordenadas, como um tractor que lavra um terreno.

A fortaleza de Tsaverets situa-se no ponto mais alto e a sua silhueta domina toda a cidade de Veliko Tarnovo. Esta enorme maravilha derrama as suas muralhas pelas vertentes e acaba por se fechar, deixando como único acesso uma porta que é encerrada todas as noites. No interior das suas paredes, existem nove igrejas e a torre de Balduíno, da qual é possível observar todo o vale de Yantra.

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7. OS SABORES DA BULGÁRIA

Há que fazer um aparte para falar na comida búlgara. Talvez seja uma das melhores da Europa. Bem, esqueçam o talvez: é mesmo. Mistura sabiamente a frescura dos legumes e dos ovos com a carne e o peixe proveniente do Mar Negro. As pitadas de ervas aromáticas são perfeitas. Os pratos são cozinhados lentamente em recipientes de barro. E o queijo, um lacticínio que aparece em todos os pratos, desde a salada inicial à sobremesa, passando pelo guisado de cordeiro, o mishmash de tomate e pimento, a sopa tarator de pepino ou o kyopolou de beringela. O queijo mais popular chama-se sirene e é parecido com o feta grego.

O iogurte também está sempre presente, como um gato que se enrola nas nossas pernas: tem a consistência de um gelado e o sabor dos prados onde pastam as cabras, as ovelhas e as vacas. Os pães – muitos deles recheados com queijo (parlenka) – convidam à gulodice farinácea. Acompanhe tudo com Ayran (um batido de iogurte, sal e água) e coroe a sobremesa com uma baklava, uma inevitável reminiscência otomana.

Os búlgaros têm um fraquinho pelas tabernas (mehana), que parecem restaurantes rurais, cheios de quadros e ferramentas pendurados nas paredes. Existem em todo o lado, excepto na capital, Sófia, e são a melhor aposta gastronómica e verdadeiramente sublimes em Veliko Tarnovo. Entrar numa mehana e sair duas horas depois, a rebolar de fartura, é um desafio diário altamente satisfatório.

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8. URSOS BÚLGAROS

Quando se passeia numa das centenas de trilhos bem assinalados da Bulgária, encontram-se avisos que recomendar caminhar de forma ruidosa para manter os ursos à distância. É reconfortante saber que existem lugares na Velha Europa onde a natureza ainda manda e que os seres humanos devem ter cuidado para que os reis da floresta não os comam.

Os avisos deste tipo multiplicam-se nas montanhas do sudoeste, a zona mais visitada da Bulgária. O turismo é essencialmente nacional e é uma raridade encontrar aqui um estrangeiro. Bansko é a cidade ideal para se estabelecer.

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9. AS MONTANHAS DE PIRIN E RILA

Situam-se na entrada do Parque Nacional Pirin e a uma curta distância de carro do Parque Natural das Montanhas de Rila. Os trilhos são frequentados por búlgaros que visitam lagos, cascatas e cumes milenares, vestindo os seus trajes de domingo: eles com calças de pregas e elas com saltos altos e malas penduradas no braço. A elegância é fundamental, mesmo quando é preciso subir a 2.000 metros de altitude para desfrutar da visão de uma beleza alpina na qual a neve e o gelo nunca desaparecem, nem no pino do Verão.

Bansko é bonita e cómoda. Quartel-general de esquiadores no Inverno, o Verão é a sua época baixa, altura na qual se pode desfrutar dos belíssimos hotéis e restaurantes a preços reduzidos. Possui um centro urbano apreciável, uma igreja paroquial cujo campanário é habitado por elegantes cegonhas e um museu de ícones religiosos onde pode passar a tarde.

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10. RILA, UM MOSTEIRO QUE É UMA AUTÊNTICA PÉROLA

A uma hora e meia de carro rumo a norte, contornando Blagoevgrad, chega-se ao mosteiro de Rila, um dos locais de visita imprescindível numa viagem à Bulgária. É o cenóbio mais importante do país, Património da Humanidade e um conjunto de edifícios venerado e repetidamente visitado pelos búlgaros. Trata-se de um recinto amuralhado cujas paredes interiores alojam vários pisos porticados, onde se encontram as celas dos monges.

No centro de um pátio empedrado, encontra-se a igreja, coberta até ao último recanto com frescos que contam a história de santos, martírios, juízos finais, milagres e cenas bíblicas. No seu interior, encontra-se o habitual guarda-jóias cristão ortodoxo, com imagens obscurecidas pelo fumo das velas e pelo passar dos séculos, misteriosas iconóstases cobertas por cortinados pesados e antecâmaras onde os visitantes não podem entrar. O melhor é subir ao campanário e contemplar o conjunto, bem como as montanhas que rodeiam o mosteiro e convidam a uma caminhada ao encontro do desejado e temido urso-pardo.

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11. O RITMO DE SÓFIA

É boa ideia terminar a viagem na capital búlgara, Sófia. O epíteto de Paris do Oriente não é exactamente adequado, mas é uma cidade bonita, com a sua própria estrada de tijolos amarelos. Uma parte do centro foi assim pavimentada em 1906, não para conduzir a Oz, mas aos edifícios mais importantes do Poder: o parlamento, a casa do governo e os museus. Sófia também alberga catedrais e igrejas sensacionais, como Sveta Nedelya, Svet Nikolai, Alejandro Nevski, e a mesquita de Banya Bashi, desenhada pelo próprio Sinan, o grande arquitecto otomano dos séculos XV e XVI.

As autoridades búlgaras desterraram todas as estátuas do período socialista para o museu quase oculto pelos arbustos junto à paragem de metro de Dimitrov. Vale a pena procurá-lo para encontrar Che Guevara e Lenin petrificados em todas as aparências reproduzíveis. E há belezas comoventes, como o quadro Aula de alfabetização, de Stoyan Venev.

O pulso da cidade sente-se com força no Mercado das Mulheres, animado desde as primeiras horas da manhã até ao anoitecer. Fruta, legumes, carne, peixe, queijo, iogurte, tapetes, móveis, sementes… e muita interacção com os vendedores simpáticos e astutos.

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12. UM PONTO FINAL ENTRE FRESCOS

A grande jóia de Sófia encontra-se, contudo, num bosque nos seus arredores. Trata-se da igreja de Boyana (século XIII), que possui os melhores murais medievais do país. A visita ao pequeno templo é organizada em grupos de seis pessoas e um vigilante carrancudo usa um temporizador de cozinha para marcar os dez minutos durante os quais podem contemplar as pinturas. O tique-taque ressoa no espaço frio e vazio. Deve ser o único sítio do país onde as normas são cumpridas com rigor.

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