Poucas cidades italianas se comparam com Nápoles. Não admira que a sua vizinha Pozzuoli seja, desde há muito, ofuscada pela sua irmã mais velha, bombástica e cheia de cultura para oferecer.

Contudo, esta cidade portuária – a uns curtos 30 minutos de comboio para Oeste de Nápoles – é uma das povoações mais antigas de Itália. A Pozzuoli contemporânea – onde Sophia Loren cresceu – confunde-se com a antiga Puteoli romana ao virar de cada esquina. A estrada de acesso à sociedade contorna o anfiteatro, o bairro Rione Terra ainda tem ruas romanas no alto da falésia e uma antiga necrópole é habitada por gatos vadios.

Agora, Pozzuoli lançou uma iniciativa turística inovadora: uma colaboração entre a igreja católica local e as prisões municipais, que reabriu um dos locais mais fascinantes do sul da região da Campania — graças aos presos, que estão a dar corpo a um programa turístico.

Os turistas podem agora visitar o recentemente reaberto “Tempio-Duomo”, ou “templo catedral” de Pozzuoli, construído pelos romanos no alto da falésia – e, mais tarde, transformado numa igreja. Este espaço sagrado com mais de 2.000 anos sempre esteve na vanguarda. No século XVII, a pintora renascentista Artemisia Gentileschicriou três retábulos para o espaço – a primeira mulher a quem foi encomendada uma peça de arte para uma igreja cristã.

Depois de um incêndio destruir grande parte do edifício em 1964 e de alguns eventos sísmicos fazerem com que fosse completamente abandonado seis anos mais tarde, a catedral foi, finalmente, reconstruída em 2014. Agora funde religiões novas e antigas num espaço de culto moderno e arrebatadoramente sincrético.

Como um sítio antigo ajuda as mulheres dos tempos modernos

A iniciativa Puteoli Sacra começou em 2021 como uma forma de juntar arte, história e inclusão social. As prisioneiras da cadeia feminina de Pozzuoli e de uma casa de correcção para jovens localizada ali perto trabalham no complexo, por vezes guiando excursões pela igreja. A nave ainda é um templo romano, dando lugar a uma abside barroca repleta de obras de arte de artistas napolitanos como Massimo Stanzione, Giovanni Lanfranco e, evidentemente, Gentileschi.

As três obras desta artista estão actualmente em exposição no museu adjacente (na igreja pode encontrar reproduções em tamanho real), onde pode apreciar as suas pinceladas de perto e aprender mais sobre o passado e o presente sempre vanguardista deste espaço de culto.

A fase inicial do projecto – cuja conclusão está agendada para 2024 – previa dez recrutas ao longo de três anos, dando formação a muitos outros para ganharem competências que levarão consigo para outros empregos quando saírem da prisão. “Escolhemos pessoas que queiram recomeçar, que queiram uma segunda oportunidade”, diz Danilo Venditto, coordenador do centro educativo Puteoli Sacra.

Estas pessoas incluem Sara (sem apelido, para garantir a sua privacidade), uma jovem de 25 anos que é agora uma guia turística multilíngue. No seu tempo livre, Sara está a estudar arqueologia, história da arte e ciências do património na Universidade de Nápoles Ferdinando II – e pinta.

“Sempre detestei arte”, diz. “Mas, quando fui para a prisão, sentia-me aborrecida e enclausurada e comecei a pintar. Apercebi-me de que gosto de história, por isso mudei os meus estudos – e quando Gennaro Pagano [director da fundação Centro Educativo Diocesano Regina Pacis, a organização de caridade de diocese que gere o programa] nos falou sobre o projecto, quis imediatamente participar”.

Hoje, se fizer uma visita guiada com Sara, aprenderá muito mais do que a história do local – conseguirá vê-lo da sua perspectiva. “Como era uma mulher, não era considerada uma artista inicialmente”, diz Sara, apontando para as três pinturas de Artemisia.

“Foi tratada como se fosse insignificante e não lhe deram trabalho – tal como acontece aos presos quando saem”. Sara diz que o seu trabalho como guia e Artemisia lhe deram “uma visão do futuro” para quando, um dia, sair da prisão.

Pozzuoli
FOTOGRAFIA DE ROBERTO SALOMONE, GUARDIAN / EYEVINE / REDUX

Uma vista aérea de Pozzuoli mostra o vulcão Solfatara na Baía de Nápoles.

A cidade reconstrói-se

Pozzuoli encontra-se em Campi Flegrei, numa zona construída sobre um “super-vulcão” activo. O bairro que se encontra sobre a falésia, Rione Terra, foi abandonado em 1970 e sofreu ainda mais danos devido a um grande terramoto ocorrido em 1980.

Em 2003, a região da Campania anunciou um concurso para reconstruir a catedral. O projecto vencedor, do arquitecto milanês Marco Dezzi Bardeschi, ergueu paredes de vidro em redor das colunas romanas e reproduziu o tecto abobadado original, inclinando ligeiramente o chão para baixo em direcção ao que restava da igreja barroca – criando um passeio meditativo ao longo do tempo e da religião.

Em 2014, a cidade começou a organizar excursões a Rione Terra, cujas ruas romanas ainda visíveis transformam o local num museu ao ar livre.

A zona de Campi Flegrei contém uma série de sítios antigos. Cumae, quase cinco quilómetros a oeste de Pozzuoli, foi a primeira povoação grega na Península Itálica, fundada no século VIII a.C. Baiae, situada entre ambas, era um espaço de lazer para os romanos – ainda hoje é possível visitar amplos complexos termais e fazer passeios de barco sobre vilas que agora se encontram submersas. Os romanos acreditavam que o lago Avernus, numa cratera vulcânica, era um portal para o submundo

“É um berço de civilizações antigas e da sua mitologia”, diz Anna Grossi, guia em Tempio-Duomo e mentora de jovens como Sara. “E tem de tudo: beleza, arte, história, boa comida e um acolhimento caloroso. Não é um mero complemento de Nápoles.”

OUTRAS EXCURSÕES GUIADAS POR EX-PRESIDIÁRIOS 

Pozuolli não é o único sítio que emprega presos e ex-presidiários em projectos de turismo e vendas. Conheça alguns outros:

Miravalle, Colômbia

No sudeste deste país, a Caguán Expeditions emprega pessoas locais, incluindo antigos guerrilheiros das FARC, nas suas ofertas de actividades de turismo de aventura, desde rafting a trekking.

Cidade do Cabo, África do Sul

Ex-presidiários da prisão da Ilha Robben, onde Nelson Mandela esteve encarcerado, partilham as suas experiências com os turistas ao longo de visitas guiadas a esta ilha, situada ao largo da Cidade do Cabo.

Veneza, Itália

Os presos das cadeias de Veneza são pessoas ocupadas, dedicando-se ao fabrico da prestigiada gama de cuidados dermatológicos Rio Terà dei Pensieri, vendida em muitas lojas da cidade, e também de acessórios desenvolvidos em colaboração com o artista Mark Bradford. Uma loja inovadora chamada Banco Lotto No. 10, vende roupa de senhora feita por prisioneiras da prisão feminina, que transformam restos de tecidos de marca em novas peças de roupa.

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.