A metrópole floresce entre o Atlântico e a cordilheira que forma a omnipresente Table Mountain. Num país lustrado por uma democracia jovem, a Cidade do Cabo (Cape Town em inglês, Kaapstad em afrikaans e iKapa em xhosa) honra as suas cicatrizes ao apresentar de forma criativa o seu passado – entre paisagens cénicas, alguns dos vinhedos mais antigos do hemisfério Sul, bairros históricos e praias de areia branca.

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Raquel Cintra Pryzant

A praia de Muizenberg é conhecida pelas suas casinhas coloridas, boutiques e galerias de arte, bem como pela areia branca e qualidade das ondas para a prática de surf

Table Mountain: uma janela para a Cidade do Cabo

A Table Mountain é o ponto de partida para explorar a cidade. Com mais de 1.000 metros de altura, o cume da montanha oferece vistas que se estendem desde o Cape Town Stadium, obra marcante do Mundial de 2010, até aos barcos atracados no pontão de V&A Waterfront.

Os visitantes podem optar por uma caminhada de duas horas, que atravessa a vegetação local, ou pelo teleférico que leva ao topo da montanha em apenas cinco minutos.

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Raquel Cintra Pryzant

A Mountain Table soma cerca de 8.200 espécies de plantas, sendo fynbos ("arbusto fino" em afrikaans) a mais abundante.

Cultura viva pelo bairro de V&A Waterfront

Pelas ruas deste bairro-pontão, músicos, grupos corais e de dança locais exibem o orgulho de representar o seu país. Os turistas são, a certa altura, convidados a entrar na festa e a testar alguns dos instrumentos, assim como a dançar com os bailarinos.

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Raquel Cintra Pryzant

O bairro de Waterfront é um dos mais enigmáticos da cidade, quer pelo património histórico aqui edificado, quer pelo espírito vibrante de rua que exala. As siglas V&A aludem ao príncipe Alfred, que ordenou a construção do porto em 1860, e à sua mãe, a rainha Vitória. 

Nesta zona, não se surpreenda se vir a poucos metros uns dos outros despreocupados leões-marinhos, lojas de souvenirs e o ferry de saída para a Robben Island, onde Nelson Mandela ficou preso 18 anos. 

Também à beira-mar, o museu de arte contemporânea Zeitz MOCAA tem no menu ousadas propostas audiovisuais e as últimas novidades da arte escultural africana.

Cicatrizes do Apartheid: Bo-Kaap e Robben Island

Bo-Kaap, com as suas casas coloridas, é testemunho da busca por liberdade por parte de muçulmanos e descendentes de escravizados – a escravidão em território sul-africano arrancou com o colonialismo neerlandês no século XVII e terminou oficialmente sob o domínio colonial inglês no século XIX.

O Bo-Kaap Museum não esquece a luta pelos direitos humanos no país, assim como a Desmond & Leah Tutu Legacy Foundation, que revela a trajectória de luta e inconformismo do arcebispo emérito e da sua companheira Leah.

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Raquel Cintra Pryzant

Situado na zona histórica da Cidade do Cabo, o Museu Iziko Bo-Kaap foi lar de muçulmanos e escravos libertados após a abolição da escravatura. Construída em meados do século XVIII, esta casa foi declarada Monumento Nacional em 1965 e restaurada na década de 1970. 

Uma curta viagem de ferry leva-nos à Robben Island, ilha outrora usada para isolar presos políticos. Transformada em museu, expõe como a segregação racial se manifestava até mesmo nas roupas e na comida dos detidos.

Hoje, antigos prisoneiros conduzem os tours, partilhando relatos pessoais. É o caso do dissidente Niozeuwe Talakumeni (na fotografia abaixo), a quem chamaram um dia de terrorista. 

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Raquel Cintra Pryzant

Talakumeni passou 1.400 dias nesta prisão entre 1986 e 1990, ano em que Nelson Mandela também foi libertado.

Praias, montanhas e pinguins

A Cidade do Cabo encanta à primeira vista pelas suas montanhas, mas também pela sua costa. Desde as aulas de surf não muito longe das icónicas casinhas de praia coloridas de Muizenberg até ao postal que é Camps Bay Beach, com as suas areias brancas abraçadas pela cordilheira dos Doze Apóstolos.

Boulders Beach, no Sul da Cidade do Cabo, é o lar de uma colónia de pinguins-africanos que chegaram nos anos 1980 e, desde então, criaram raízes e se acostumaram com a presença humana.

Para uma viagem ainda mais austral, existem excursões ao Cabo da Boa Esperança e ao farol branco de Cape Point que completam a jornada pela Cidade-Mãe. Com as suas águas tempestuosas, as vistas a partir dos fiordes sul-africanos relembram o passado, enquanto abrem espaço para um novo capítulo.

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Raquel Cintra Pryzant

Os pinguins-africanos são monogâmicos, vivem em colónias e alimentam-se de sardinhas, carapaus e lulas, entre outras espécies marinhas.

Culinária sul-africana de vanguarda

Enquanto restaurantes internacionais oferecem perfumados currys e avocado toasts, uma nova geração de chefs dá uma nova oportunidade aos sabores locais. O Salsify at the Roundhouse apresenta um menu de oito passos que destaca produtos de proximidade, como o chá de Rooibos e frutos-do-mar do Atlântico.

Também não faltam motivos – ou bares – para celebrar na Cidade do Cabo. O Fable Bar apresenta, em cada cocktail, uma fábula diferente do imaginário sul-africano. Enquanto o Art of Duplicity, ou AOD, conta com uma localização secreta, divulgada apenas algumas horas antes da visita, o Speakeasy desafia os sentidos ao oferecer apenas receitas de cozinha de autor num ambiente descontraído e levemente decadente com jazz como banda sonora. 

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Raquel Cintra Pryzant

Este prato vegetariano servido no Salsify at the Roundhouse inclui tomate, beringela e batata doce.