Uma centena de barcos navega no Grande Canal guiados pela Pantegana, uma embarcação com a forma de um rato gigante, rodeados por venezianos e turistas que aguardam, mais um ano, o início da festa do Carnaval. Dias mais tarde, o canal de Cannaregio é enfeitado com luzes e São Marcos acolhe um dos momentos mais mágicos do ano: o voo do anjo, no qual uma acrobata se atira do Campanário e sobrevoa a famosa praça.

CELEBRADO DESDE o século XIII

É necessário recuar até 1296 para encontrar o primeiro documento escrito que menciona oficialmente o Carnaval de Veneza como festa pública: um édito do Senado da Sereníssima. Desde então, a celebração evoluiu até se transformar numa das mais importantes da lagoa, sobretudo durante o século XVIII, quando o Carnaval de Veneza se popularizou por toda a Europa.

A MÁSCARA: Um SÍMBOLO e VáRIAS VERSões

O fascínio pelas máscaras conquistou Veneza no ano 1200, quando começaram a ver-se os primeiros disfarces nas ruas da cidade, devido à chegada das mulheres de Constantinopla, que costumavam passear com o rosto coberto, suscitando o interesse dos venezianos. Em 1271 já existiam ateliês de máscaras e manuais sobre técnicas de fabrico. Desde então, foi um objecto tão querido como amado, proibido e festejado, uma vez que garantia o anonimato e conseguia nivelar as classes sociais, permitindo troçar anonimamente das autoridades e da aristocracia.

Barcos em Veneza
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O seu papel adquiriu tal relevância no século XV que o ofício dos mascareri foi reconhecido pela Sereníssima. Estes artesãos, especializados no fabrico de máscaras de papel machê, começaram a criar diferentes tipos de máscaras, de entre as quais se destacam a Bauta, um tricórnio negro sobre um rosto branco utilizado exclusivamente em Veneza, ou a do médico da peste, que inicialmente era utilizada para evitar os contágios.

Ainda hoje é possível vê-las nas ruas de Veneza, onde o disfarce se transforma numa ferramenta indispensável para criar o ambiente típico desta época do ano, dedicado à transgressão e à diversão.

UmA FESTA PROIBIDA

A possibilidade de ocultar a identidade sob as máscaras também favoreceu roubos, assédios e delitos, o que levou a Sereníssima a limitar o seu uso. No século XIV, por exemplo, foi decretada a proibição de circular por Veneza com máscaras e disfarces de Carnaval durante a noite. Após a queda da Sereníssima em 1797, Napoleão proibiu os disfarces de Carnaval, excepto em festas privadas nos palácios venezianos e no Ballo della Cavalchina, em Fenice.

Só em 1967 é que começaram a organizar-se publicamente as primeiras festas com desfiles de máscaras e disfarces, revivendo a sua história e tradições, embora continuasse a haver festas privadas. Em 1979, foi criado o primeiro programa para envolver os venezianos nas celebrações e recuperar as origens do Carnaval de Veneza.

O CARNAVAL NA ACTUALIDADE

Desde então, todos os dias depois da Epifania, as ruas transformam-se num grande cenário onde se desenrolam acontecimentos como o Taglio della testa del toro na quinta-feira gorda ou il Volo del Angelo, que se celebrará a 19 de Fevereiro. Este ano, o Carnaval começou a 27 de Janeiro, com a Festa das Marias, e termina a 13 de Fevereiro, a terça-feira de Carnaval, com desfiles, foliões, festas, workshops e ruas cheias de residentes e turistas. Entre estas datas, as pastelarias enchem-se de frittelle, um bolo pode ser recheado com creme de pasteleiro chocolate passas ou zabaione.