Na pequena esplanada, uma dúzia de indivíduos aponta os olhos à mansidão da preia-mar. É vê-los absortos, já absorvido o deslumbramento da chegada: este, na mesa ao lado, com a família, dá-se ares de finório, despachou a bica e avança para um cálice de Porto; já aquele, tão sozinho, tão sumário no vestir e de calções, vai falando, talvez há horas, com as canecas de cerveja. Bem à frente de todos, barcos de múltiplas cores e feitios, em maioria veleiros, como que bailam no palco de águas lisas deste Grande Rio do Sul, o Guadiana.

alcoutim

Artes e sabores tradicionais persistem em Alcoutim num amoroso desafio à modernidade.

A magia do lugar resulta do enquadramento. A Beira-Rio é uma esplanada modesta, mas funciona como centro nevrálgico de Alcoutim. O histórico da terra descobre-se logo ali. Resvés ao rio, um conjunto de esculturas dispersas representa contrabandistas, tão numerosos na região até meados do século passado. E, encostado à vedação, um guarda-fiscal em estátua, façanhudo quanto baste, como que prepara a malvadez da multa, a quem apenas foi ao outro lado comprar em pesetas e transportar a nado o sustento dos seus. Todos os anos, na última semana de Março, a Câmara presta-lhes tributo, no Festival do Contrabando, montando a ligação pedonal a Sanlúcar, num insuflado assente em barcaças e atravessado por milhares de visitantes. Dois casais de jovens, tão eufóricos a subir do cais, dizem-nos que completaram o mais excitante dos passeios em pauta, por aqui. Andaram a fingir de marinheiros, subindo o Guadiana de barco, até ao Pomarão. Para embarcar nesta aventura, basta ir à Fun River, a agência que trata de tudo, até dos coletes salva-vidas, exigidos pelas normas de circulação no rio. A 22,50€ por cabeça, dá para duas horas de lazer. Há viagens mais rápidas e baratas (2,50€ ida e volta) ao outro lado do rio, para comprar os caramelos da praxe.

O comparsa das canecas de cerveja, esse, já lá vai a caminho dos areais do Sotavento. Talvez vá de janela da esquerda aberta, para sentir melhor o rumorejar do Guadiana, filtrado pelos canaviais da margem.

jogos em alcoutim

Dois velhos tabuleiros de jogo do Núcleo Museológico de Alcoutim.

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Entretanto, na mesa do senhor finório, já se desistiu da ida à praia fluvial do Pego Fundo, na foz da ribeira de Cadavais. A praia é magnífica e ladeada por um jardim, à sombra de árvores. O patriarca persuadiu a família para subir ao Castelo, talvez para lhes contar que, durante a Guerra da Restauração, os engenheiros militares instalaram lá uma bateria de sete canhões, que pôs o Castelo de São Marcos na mira. Não é certo, porém, que projéctil algum tenha cruzado a fronteira, sobrevoando o rio, em acto de guerra. A fortificação desactivada já foi açougue e alberga hoje um museu de arqueologia ea impagável exposição de tabuleiros de jogos islâmicos. É fácil chegar lá de carro, ou atravessando a pé a Praça da República e uma viela ou outra, sempre a subir.

mapa alcoutim

 

A vila é pequena e nem mil almas alberga (921, no censo de 2011). Um só castelo sobrava para tão exígua população. Mas Alcoutim ainda se orgulha do Castelo Velho, de ocupação islâmica. Localiza-se no Cerro de Santa Bárbara, mais elevado em relação à vila. Hoje é um relevante sítio arqueológico, onde se investigam os usos das gentes, que ali viveram até serem expulsos pelos reis cristãos.