Olhando o mapa, a Galiza são quatro províncias, sete cidades, uma geografia variada que vai da Sierra dos Ancares às Rías Baixas, passando pelas Fragas do Eume ou as Ilas Cíes. Há de tudo para todos os gostos e, no espírito de experimentar para ver, elaborei um percurso salpicado.

Esta comunidade autónoma que me espera deve dizer-se espanhola – no entanto, com cultura, identidade e língua muito próprias. Algo muito recorrente, aliás, neste quinteto de dias foi o facto de usar a língua castelhana um redondo total de zero vezes. Sempre que um galego se viu confrontado com o idioma português, um brilho nos olhos rebentava de súbito e era como se de repente encontrasse um velho amigo. Várias vezes me disseram que não só podia falar português como devia e que era tudo mais ou menos igual: “Somos irmãos”, piscou-me o olho o funcionário de uma bomba de gasolina de Ourense. Como não ter vontade de partir por aí, numa terra onde ninguém me conhece, mas todos se acham meus familiares próximos?

A Galiza é composta por quatro províncias, sete cidades e uma geografia variada.

DIA 1: PORTUGAL-OURENSE

Entro na Galiza via Valença, após uma hora e picos a percorrer uma auto-estrada portuguesa. Uma grande parte das minhas viagens de carro é passada a ouvir podcasts, numa tradição que me recolhe à infância, mistura de paisagens sonoras e visuais. Esta não é excepção. 

Em Espanha, nunca andarei por auto-estradas durante muito tempo. Atravessarei estradas nacionais e municipais, que é a maneira de encontrar o caminho até à minha primeira paragem, o trilho das Pozas de Melón. Isto é, um conjunto de cascatas e piscinas naturais que se formam ao longo do rio Cerves, no Sudoeste da província de Ourense, nas cercanias da Serra do Faro de Avión.

O Cerves é um pequeno afluente do Minho, com 16 quilómetros, mas nesse breve percurso ultrapassa um desnível de altitude que chega quase aos mil metros – e é assim que se formam estas Pozas. Há um parque de estacionamento improvisado, onde almoço uma latinha de atum e uma barra de cereais. 

Cascata de Mélon.
Bruno Fernandes

O Cerves é um pequeno afluente do Minho, com 16 quilómetros, mas nesse breve percurso ultrapassa um desnível de altitude que chega quase aos mil metros – e é assim que se formam estas Pozas.

Mochila arrumada com água, alguma comida e protector solar, máquina ao ombro e vamos por aí fora. Visitar "fervenzas" (cascatas em galego) no Verão pode ser deprimente, se procurarmos a imponência que lhes conhecemos em alturas mais chuvosas. Por outro lado, esta estação permite-me caminhar quase livremente pelo leito do rio. As famosas piscinas naturais continuam convidativas e alguns declives rochosos são impressionantes. Pelo caminho, encontro muita gente, famílias e solitários que – mais ou menos despidos – se estendem nas rochas, banhando-se de Sol.

O percurso sobe gradualmente sempre junto ao rio, permitindo observar perfeitamente os locais mais apelativos. Pode ser feito quase na íntegra por qualquer pessoa com mais de seis anos. A excepção é uma ladeira mais exigente que acede à cascata mais alta, a de Tourón

Na base, encontro um lagoacho de água límpida, calma, com alguma profundidade. Uma maravilha para um banho após os extenuantes três quilometros e meio que me conduziram até aqui. Sabe-me a melón. No regresso, tenho tempo de ajudar a salvar um cão que quase desliza mortalmente por uma cascata.

O trilho das Pozas de Melón pode ser percorrido quase na íntegra por qualquer pessoa com mais de seis anos. Há uma excepção.

Escolho Ourense para pernoitar. Deixo as coisas no hotel e procuro um sítio para jantar. A maioria dos restaurantes da cidade ficam no Casco Vello, a zona histórica, onde às nove e meia da noite já não me consigo ouvir, mesmo com o falatório de tanta gente que anda na rua, se senta nas esplanadas, come e bebe. As principais iguarias consumidas vêm do mar, principalmente polvo. Eu opto por um raxo, um prato parecido com a nossa carne de porco à alentejana. No final, saio numa pequena voltinha a pé. Não planeei demorar-me muito tempo a ver a cidade e, como tal, é à noite que, pelo menos, estudo locais como a Catedral de Ourense ou o Claustro de San Francisco.

DIA 2: Ourense-MONFORTE DE LEMOS-Ourense

Saio de manhã com a ideia de percorrer a Ribeira Sacra por estrada. É uma zona que abarca três rios – o Cabe, o Sil e o Minho – e inclui paisagens naturais e património histórico centrado em Monforte de Lemos.

Esta cidade, onde almoço, destaca-se pela sua zona muralhada, pequena, junto ao Monasterio de San Vicente de Pino. Chove pela primeira vez na viagem. Após uma lata de atum em Monforte, saio em turismo sobre rodas rumo ao centro da Ribeira Sacra. Há muitos mosteiros para ver, mas sendo o tempo escasso, falho este. Afinal, "Ribeira Sacra” é um termo que encontramos pela primeira vez num documento outorgado por uma figura importante na história portuguesa. Em 1124, numa altura em que o Condado Portucalense existia e ainda abarcava parcialmente esta região, Teresa de Leão – mãe de Afonso Henriques – permitiu a fundação do Monasterio de Santa Maria de Montederramo.

Castelo de Monforte de Lemos
Bruno Fernandes

Um ícone da Galiza, o Castelo de Monforte de Lemos, no Monte de San Vicente, pode ser visitado em Monforte de Lemos.

Há quem ponha em causa que a palavra arcaica no documento não se deva traduzir por “Ribeira” e aponte mais a “Carvalho”. O primeiro, porém, assenta bem numa das atracções principais desta zona: o Cañón del Sil, uma garganta brutal, anafada, enchida pela água do rio Sil numa visão muito semelhante ao Vale do Douro no interior português. Nem faltam os vinhedos. São mais de 35 quilómetros, entre paredes rochosas que rondam os quinhentos metros de altura, cujas vistas podem fincar-se a partir de vários miradouros em ambas as margens do Sil.

O Cañón del Sil é uma garganta brutal, anafada, enchida pela água do rio Sil numa visão muito semelhante ao Vale do Douro no interior português. Nem faltam os vinhedos.

É na busca destes miradouros ("miradoiros" por estas bandas) que se centrará o meu dia. As estradas convidam a visitar adegas nesta zona vinícola por excelência, do vinho de Amandi, e tramos há, com castanheiros, plátanos e carvalhos, que sendo bonitos no Verão... imagino como serão no Outono. A lista de pontos de vista privilegiados anotados é percorrida e não desilude. Destaco três: o Miradoiro das Penas de Matacás, onde um assento de rocha nos permite ser reis e rainhas durante alguns minutos de esplendor; o Miradoiro de Vilouxe, que depois de cinco minutos de ruas estreitas aldeãs nos leva à mais impressionante visão que tive deste rio-serpente; e o Miradoiro de Cabezoás, local de paragem de autocarros turísticos por ser mesmo colado à estrada, mas com uma perspectiva linear e vasta do leito do rio.

Recomendação: nas viagens entre miradouros, velocidade baixa, música de deambulação ou um podcast com voz suave. É meio caminho andado para diminuir a tensão diária, especialmente se deixar o ar lavado desta Ribeira Sacra circular, se se fixar no vigor do seu verde, na pura força bruta das paisagens que esmagam. Quando regresso a Ourense, quase finjo que ainda esvoaço sobre o Sil.

DiA 3: OURENSE-LUGO

Dia de total improviso. No caderninho, uma lista de lugares entre estas duas cidades galegas. Começo pelo mais próximo. De Ourense, fica a dez quilómetros, a maior parte deles feitos por uma estrada bem estreita, o Mosteiro de San Pedro de Rocas, fascinante monumento religioso milenar, bruto, quase todo escavado na rocha. Aparte um edifício que serve de museu, todo o complexo foi construído dentro dos grandes blocos de granito nesta floresta antiga. O estilo monacal era de eremitas e os primeiros convertidos isolaram-se aqui primeiramente em 573. A igreja é um dos templos cristãos mais antigos que se conhece e se pode visitar, e a sua fama deriva também de um fresco numa das paredes, representando um mapa mundi à data do século VI, que já não pode ser visto. Nas imediações deste local de grande interesse antropológico, almoço acompanhado de um gato, com quem partilho o atum em lata. Sigo daqui para Portomarín, uma pequena vila cujas origens remontam ao século VIII. Vale sobretudo pela igreja românica quase-nave-espacial.

Mosteiro de San Pedro de Rocas
Bruno Fernandes

Mosteiro de San Pedro de Rocas.  

O Castelo de Pambre é um exemplar quase inalterado de arquitectura bélica da Idade Média galega.

Na senda do Caminho de Santiago francês, há peregrinos em todo o lado, pelo que percebo, em direcção a Palas de Rei, para onde me dirigo. Ao contrário deles, vou de carro, mas tendo já feito El Camiño há duas décadas, entranho a ideia de voltar a esse desígnio. Procuro a igreja do antigo mosteiro de San Salvador de Vilar de Donas. Ao estacionar, sou brindado com o ensaio de uma banda de folk rock celta. O templo tem uma estrutura visivelmente românica, com pormenores góticos no interior, principalmente uma pintura mural na abóbada do altar. Uma senhora, nos seus cinquenta anos, saúda-me e atalha logo para as curiosidades históricas sobre a igreja.

Antes de rumar a Lugo, páro no Castelo de Pambre, um exemplar quase inalterado de arquitectura bélica da Idade Média galega. Sou o único turista. A entrada, como nos mosteiros anteriores, é grátis, mas temos de registar o nosso nome num caderno à entrada. Conta-me o funcionário único que recebe os visitantes que a finalidade deste ritual é controlar quem entra e quem sai, não vá ele fechar o castelo e deixar alguém lá dentro. “Aconteceu-me na semana passada duas vezes”, resmunga.

 

DIA 4: LUGO-RIBAdeo

Dedico a manhã a visitar Lugo, cidade com o centro histórico em pantanas devido a obras, tal como Ourense. Há variadíssimas igrejas e pitorescas praças apertadas para conhecer, mas se por acaso tiver apenas uma manhã para "queimar" na mais antiga cidade da Galiza, recomendo que o faça percorrendo as suas muralhas, Património Mundial da UNESCO.  Pode começar por qualquer uma das dez portas existentes, perfazendo a elipse completa.

O Império Romano construiu aqui esta imponente estrutura bélica quando Lugo era ainda Lucus Augusti. Datada do século III, é a mais bem preservada muralha de defesa romana no Ocidente. Rodeia todo o centro histórico da cidade e caminhá-la é uma óptima maneira de conhecê-lo de forma célere. É, também porque está imediatamente colado ou próximo de casas e apartamentos, um excelente exercício de voyeurismo e um exemplo feliz de arquitectura urbana enquadrada num património histórico. Aqui todas as habitações têm de cumprir regras estéticas de forma a não estragar o enquadramento da muralha na malha urbana de Lugo.

Júlio César, pintado pelo street artist Diego As em Lugo
Bruno Fernandes

Júlio César, pintado pelo street artist Diego As em Lugo, escolhido como o melhor mural urbano do mundo na plataforma Street Art Cities em 2021. 

 

Depois de almoçar num parque florestal junto ao Minho, rumo a Ribadeo, junto à costa, com o verde dos montes galegos e o azul-turquesa das águas cantábricas a inebriarem-me.

A muralha romana de Lugo é Património Mundial da UNESCO

Numa praia, faço um tratamento de sal e água que o corpo agradeceu. Em Ribadeo, como um prato de peixe que não faz jus à fama da culinária galega. Tudo fica compensado quando, sem esperar, acabo a ver o pôr-do-sol junto ao farol de Ribadeo, sentado num banco, a escutar um podcast sobre a história de amor entre Humphrey Bogart e Lauren Bacall e a sentir a brisa marítima como se fosse um alentejano numa canção dos Rio Grande.

Farol de Ribadeo
Bruno Fernandes

O cronista é surpreendido por um pôr-do-sol mágico bem perto do farol de Ribadeo, enquanto escuta um podcast. 

DIA 5: RIBADEO-PORTo

Único ponto de paragem previsto para o último dia de viagem: "Praia das Catedrais" (sim, em galego, como em português). Este é o nome turístico para a Praia de Aguas Santas, na afamada zona costeira galega. Pôr os pés neste areal exige reserva prévia online, ainda que gratuita. O nome deve-se a um conjunto de estruturas rochosas que se podem encontrar nas falésias ao longo da praia – uma espécie de catedral gótica, sem pináculos, obra de mãos naturais.

"Praia das Catedrais"
Bruno Fernandes

"Praia das Catedrais" é o nome turístico para a Praia de Aguas Santas, na afamada zona costeira galega. Para visitá-la é necessária uma reserva prévia online, ainda que gratuita. 

Cúpulas de rochas expostas, arcobotantes salgados pela erosão de centenas de milhões de anos e a aura especial de estar apenas disponível durante algumas horas devido aos humores da maré. Não está ainda muita gente e, após vinte minutos, já deixei todos para trás, fotografando os famosos arcos da praia. O silêncio que faz tremer de prazer é algo tão sagrado, tão religioso quanto a santidade das águas ou os templos medievais que duplamente baptizam este lugar.

A Praia das Catedrais é uma espécie de catedral gótica, sem pináculos, obra de mãos naturais.

Durante uns minutos estendo-me de delícia, sentindo as ondas a acariciar-me a planta dos pés. O sol joga às escondidas com as nuvens. Alongo uma toalha nas areias finas da praia, deixo a mochila e mergulho várias vezes nas vagas, até sentir o latejar dos músculos, aquela ligeira dor nos ouvidos, o cabelo crespo de sal e areia. Agora o mundo existe aqui, neste recanto da Galiza. 

Praia das Catedrais
Bruno Fernandes