Com centenas de anos de mitos infundados, não admira que até seis por cento das pessoas tenham fobia de aracnídeos. Os boatos de que um popular creme para o corpo contém alegadamente feromonas que atraem as aranhas-lobo é apenas o mais recente.

As aranhas são animais surpreendentemente diversificados: criaturas engenhosas com muitas características dignas de admiração. Nenhuma delas, porém, envolve a capacidade de rastejar para dentro da nossa boca enquanto dormimos, pôr ovos dentro da nossa carne e alimentos ou entrar nas nossas casas pelos ralos.

Muito do que se costuma dizer sobre estes esguios invertebrados de oito patas são equívocos, segundo Robert Crawford, especialista em aranhas e curador de aracnologia do The Burke Museum. “Tudo o que pensa saber sobre aranhas está errado”, diz Crawford.

Mito 1: SÃO INSECTOS

Para começar, não são insectos. As aranhas pertencem a uma classe completamente diferente denominada “Arachnida”. Os aracnídeos e os insectos diferem tanto como as aves e os peixes, explica Crawford.

Apesar da sua má reputação (perpetuada, sobretudo, por mitos), as aranhas são engenheiros de ecossistemas fenomenais e são responsáveis por manter centenas de milhares de insectos e pragas agrícolas sob controlo. Estudos demonstram que mais de 40 por cento de toda a biomassa dos insectos passa pelas aranhas em alguns ecossistemas, o que significa que são a principal controladora das populações de insectos.

“Imagine que um feiticeiro com aracnofobia tinha uma varinha mágica e fazia todas as aranhas desaparecerem”, diz Crawford. “Seria a maior catástrofe ecológica que jamais aconteceu”. Reconhecer-lhes o devido mérito começa por corrigir os boatos desfavoráveis que as rodeiam.

Pisaurina mira
FOTOGRAFIA DE ISABELLE BETANCOURT

A aranha Pisaurina mira, na imagem, é frequentemente confundida com as aranhas-lobo. Ultimamente, surgiram rumores de que esta última espécie se sente atraída por um determinado creme para o corpo. Este é o mais recente de centenas de mitos sobre as aranhas.

Mito 2: As aranhas querem morder-nos

A maioria das pessoas nunca será mordida por uma aranha na sua vida. Isso deve-se ao simples facto de as aranhas não estarem interessadas em interagir com os seres humanos. Das mais de 50.000 espécies que deambulam pelo planeta, pouquíssimas entram em contacto connosco. Ao contrário dos mosquitos, das carraças ou dos percevejos, as aranhas não sugam sangue – por isso não nos procuram.

Embora seja comum acordar com pequenas babas na pele e culpar uma aranha, quase nunca existem razões para crer que uma aranha seja responsável pela picada, afirma Dimitar Stefanov Dimitrov, especialista em evolução de aranhas do University Museum of Bergen, na Noruega. Os dois pequenos dentes que a maioria das aranhas usa para morder não deixaria uma marca suficientemente grande para ser visível. “A maioria das picadas que as pessoas pensam ser de aranhas não são, provavelmente, picadas de aranha”, diz Dimitrov.

Dysdera crocata
FOTOGRAFIA DE ISABELLE BETANCOURT

Esta aranha Dysdera crocata (cujo alimento preferido são bichinhos-de-conta) está aninhada com as patas em volta da cabeça.

Mito 3: Todos os anos engolimos aranhas enquanto dormimos

Ao longo dos anos, vários fóruns e publicações online afirmaram que engolimos até oito aranhas por ano enquanto dormimos. No entanto, não existe um único estudo confirmado, fotografia, espécimen recolhido, registo médico ou observação comprovada de uma aranha rastejar – ou sequer tentar rastejar – para dentro da boca de uma pessoa, diz Crawford.

As aranhas não querem nada com as nossas bocas húmidas, malcheirosas, que arfam entreabertas e ressonam enquanto dormimos. “Uma aranha não se sente minimamente atraída por isso”, diz Crawford. “A corrente de ar vai perturbar os pequenos pêlos sensoriais que cobrem todo o seu corpo.”

Salticidae
FOTOGRAFIAS DE ISABELLE BETANCOURT

As aranhas saltadoras (da família Salticidae) costumam deslocar-se de uma forma previsível, embora possam saltar quando caçam ou enfrentam ameaças.

Mito 4: as aranhas põem ovos nas pontas das bananas e noutros frutos

Não é raro encontrarem-se aranhas em armazéns de processamento de bananas e em cargas de bananas, rastejando para fora das caixas nas quais a fruta viajou. Tal deve-se ao facto de as bananas, uvas ou outros frutos acondicionados serem um bom esconderijo para um saco de ovos minúsculos, aninhado entre as frutas, abrigado em segurança das intempéries e dos predadores.

Estes ovos são visíveis e encontram-se fora da fruta, não no seu interior. Nenhuma aranha vai fazer um buraco numa peça de fruta para depositar ovos lá dentro, diz Dimitrov. Também é improvável que as aranhas façam um buraco num cacto para lhe introduzir um saco de ovos – como sugere outro mito urbano – muito menos deixá-lo crescer, tremer e explodir em milhares de aranhas quando os ovos eclodirem.

Embora existam aranhas que fazem tocas – que escavam casas na terra, por exemplo – elas não conseguem penetrar em algo tão duro como frutos ou plantas.

Cheiracanthium inclusum
FOTOGRAFIA DE ISABELLE BETANCOURT

Uma Cheiracanthium inclusum, uma aranha doméstica comum, em cima de uma laranja sanguínea.

Mito 5: As aranhas podem pôr ovos em baixo da sua pele e noutras fendas do seu corpo

A história começa assim: uma mulher regressa de umas férias num local quente e exótico e encontra um alto na bochecha, que pulsa e cresce cada vez mais. Preocupada, consulta um médico e, quando o especialista perfura o inchaço, centenas de pequenas aranhas rastejam para o exterior.

Isto nunca aconteceu. É provavelmente um dos mitos urbanos mais disseminados, segundo Crawford, e é possível que tenha sido originado por um conto da década de 1840, no qual um furúnculo na bochecha de uma mulher rebenta e está cheio de aranhas… porque ela fez um pacto com o Diabo.

A maioria das aranhas não teria meios, nem interesse, em cavar a densa carne humana e depositar ali os seus ovos, diz Crawford, e na raridade de uma aranha morder um ser humano,ejectar-lhe-ia veneno com as suas presas minúsculas – não poria ovos.

Mito 6: Quando a temperatura arrefece, as aranhas entram na nossa casa pelos ralos e esgotos

Algumas aranhas evoluíram para viver no exterior e outras evoluíram para viver no interior. Na maioria dos casos, estas espécies diferentes nunca se encontram. Embora possam entrar em espaços fechados acidentalmente, as aranhas de exterior que vivem em climas frios não têm qualquer interesse em encontrar refúgio nas nossas casas acolhedoras.

“Cerca de 95 por cento das aranhas que vemos dentro de casa estão sempre dentro de casa: foi aí que eclodiram e foi aí que cresceram”, diz Crawford. “Pertencem a um pequeno número de espécies que vive perto de edifícios construídos por humanos desde que existem edifícios construídos por humanos.” É por isso que encontrar uma aranha dentro de casa e tentar libertá-la na natureza é contraproducente.

 aranhas-lobo
FOTOGRAFIA DE ISABELLE BETANCOURT

As aranhas-lobo não tecem teias e costumam caçar sozinhas, aguardando em emboscadas fazendo perseguições de curta distância.

Também é por isso que as aranhas não vão subir por canos e ralos para entrarem nas nossas casas. Se encontrar uma aranha na sua banheira ou junto ao seu lava-louça é, provavelmente, uma aranha doméstica em busca de água, diz Crawford, uma vez que as fontes de água dentro de casa são poucas e distantes entre si. A aranha já vivia na sua casa e estava a rastejar em direcção ao ralo. Além disso, a maioria dos canos têm uma secção que retém sedimentos que se encontra constantemente cheia de água e através da qual a maioria das aranhas não consegue passar.

Na próxima vez que vir uma aranha em sua casa, lembre-se que ela é mais parecida com uma companheira do que com uma intrusa. Além disso, é, provavelmente, uma presença útil no seu ecossistema doméstico.

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.

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