Os progenitores humanos privados de sono conhecem a importância de uma sesta rápida, mas ninguém supera os pinguins-de-barbicha.

Segundo um novo estudo, estas aves antárcticas dormem “micro-sonos” de 4 segundos durante o período de nidificação, uma estratégia que permite aos progenitores vigiarem constantemente os ovos e os pintos vulneráveis, conseguindo, simultaneamente, acumular um total de 11 horas de sono por dia.

“Parecem estar sempre em estado de micro-sono”, afirma o co-líder do estudo Paul-Antoine Libourel, biólogo e investigador do Centro de Investigação de Neurociência, na cidade francesa de Lyon.

Os resultados, publicados recentemente na revista Science são os mais recentes de uma série de novas conclusões que demonstram a grande diversidade de estratégias de sono dos animais. Em Abril de 2023, investigadores descobriram que os elefantes marinhos dormem sestas curtas enquanto mergulham sob as ondas. Os golfinhos-roazes dormem com metade do cérebro de cada vez, deixando o outro hemisfério desperto e alerta. As fragatas fazem o mesmo. E, durante a época de acasalamento, os pilritos-de-colete preferem fazer sexo a dormir.

“Não sabemos por que razão alguns animais conseguem, aparentemente, dormir duas horas por dia, como o elefante, e outras precisam de 20 horas de sono”, diz Libourel.

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FOTOGRAFIA DE JOEL SARTORE, NATIONAL GEOGRAPHIC PHOTO ARK

Os pinguins-de-barbicha (na imagem, animais do Aquário Newport, no Kentucky) costumam pôr dois ovos de cada vez.

O sono dos pinguins

É difícil dormir numa colónia de pinguins-de-barbicha em período de nidificação. O Verão antárctico fornece 24 horas de sol por dia, iluminando a algazarra de milhares de aves barulhentas. Além disso, há o cheiro lacrimejante da amónia, misturado com peixe podre e guano de pinguim. “Deu-me tonturas”, diz Won Young Lee, co-líder do estudo e investigador do Instituto de Investigação Polar da Coreia.

À semelhança de outros pinguins, os progenitores de pinguins-de-barbicha protegem o ninho por turnos. Enquanto uma ave protege os pintos – geralmente dois – o seu companheiro procura alimento no mar. Em seguida, trocam de lugar. Ao longo de dois meses, entre a postura dos ovos e a muda da pena, as exigências sucedem-se sem parar.

“Os pinguins conseguem nadar 120 quilómetros por dia enquanto procuram alimento. Nem o Michael Phelps consegue fazer isso. E dormir em piloto automático no regresso é mesmo fantástico”, diz P. Dee Boersma, especialista em pinguins da Universidade de Washington e Explorador da National Geographic.

Para estudar a forma como os pinguins conseguem fazer tudo isto e garantir o sono necessário, Lee e a sua equipa começaram por colocar biologgers, pequenos dispositivos alimentados por baterias, no dorso de 14 progenitores de ambos os sexos. Este dispositivo funciona como um smartwatch, medindo a actividade física, a pulsação e a profundidade a que as aves mergulham enquanto procuram alimento.

Em seguida, a equipa capturou humanamente cada um dos pinguins, anestesiando-os para fixar os dispositivos e implantar temporariamente eléctrodos no seu crânio a fim de medir a sua actividade cerebral. Quando um animal está acordado, o seu cérebro zumbe constantemente com actividade. Durante o sono, porém, as ondas cerebrais abrandam e a aplanam-se.

Quando começou a examinar os dados, Lee ficou surpreendido por descobrir que as aves – que foram libertadas após o estudo – dormiam períodos de 4 segundos ao longo do dia e da noite enquanto cuidavam do seu ovo ou pinto.

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FOTOGRAFIA DE MARIA STENZEL, NAT GEO IMAGE COLLECTION

Os progenitores revezam-se enquanto cuidam dos ovos. Cada um passa vários dias no ninho antes de mudarem de turno. Cerca de 37 dias depois, os pintos eclodem.

Uma estratégia de curto prazo para pais cansados?

Qualquer pessoa que tenha adormecido por instantes no metro ou a ver televisão teve uma experiência de micro-sono, diz Chiara Cirelli, neurocientista da Universidade do Wisconsin, que não participou no estudo.

Tanto nos seres humanos como nos pinguins, os micro-sonos ocorrem em épocas de fadiga e exaustão, mas os pinguins-de-barbicha com crias parecem depender quase exclusivamente dos micro-sonos, diz Cirelli. Estudar o sono em ambientes naturais é difícil, por isso, o simples facto de eles terem conseguido recolher dados nestas condições é impressionante”.

Embora os dados sejam convincentes, Cirelli salienta que os investigadores só estudaram os pinguins durante o período de nidificação, fazendo com que seja impossível afirmar se as aves também dormem micro-sonos quando não têm crias para cuidar.

O outro desafio é perceber o impacto do micro-sono no cérebro e no organismo dos pinguins. Nos seres humanos, a privação de sono causa uma série de problemas de saúde e ainda não se sabe se os pinguins também padecem deste mal.

Uma vez que os pinguins-de-barbicha dormem períodos ligeiramente mais longos enquanto mergulham em busca de alimento e depois de regressarem a Terra, Libourel diz que o micro-sono poderá ser apenas uma estratégia de curto prazo de progenitores cansados.

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.