Há apenas duas décadas parecia que teríamos de escrever um elogio fúnebre ao antílope saiga. Dizimado pela caça ilegal generalizada e por vagas de doença, restavam apenas seis por cento destes ungulados de focinho mole nas terras do Cazaquistão, Mongólia, Rússia e Uzbequistão.

Agora, porém, os cientistas estão a comemorar a improvável recuperação do saiga. Segundo as mais recentes estimativas, divulgadas recentemente, existem actualmente 1,9 milhões de saigas na Eurásia – tantos que a União Internacional para a Conservação da Natureza actualizou o seu estatuto na Lista Vermelha de espécie "em vias de extinção" para "rara".

“Existem muitas tragédias na conservação e não se presta grande atenção aos sucessos”, diz E.J. Milner-Gulland, cientista especializado em conservação da Universidade de Oxford e co-fundador da organização britânica Saiga Conservation Alliance. “É um excelente resultado dos 20 anos de trabalho árduo realizado por muitas pessoas.”

Para ter uma ideia do caminho percorrido por esta espécie, em 2015, mais de metade da população mundial de saigas desaparecera devido a uma misteriosa doença hematológica. “São notícias fenomenais”, escreveu Joel Berger, ecologista da Colorado State University e cientista sénior da Wildlife Conservation Society, num email. “Numa altura em que tantas espécies e populações estão em queda livre, testemunhar a recuperação do saiga — uma espécie que merece mais reconhecimento – é algo que todos devemos celebrar”, afirmou.

A descida em espiral dos saigas

Quem presta atenção aos saigas, sabe que a sua história tem sido conturbada. “Há 20 anos, teve a mais rápida queda de estatuto de qualquer mamífero”, afirma Milner-Gulland. “A sua população diminuiu mais de 90 por cento ao longo de um período de poucos anos e foi imediatamente considerada em vias de extinção.”

Quanto esta dizimação aconteceu, Milner-Gulland explica que o declínio dos saigas pode ser atribuído a diversos factores. Para começar, o corno do saiga é altamente valorizado na China, em Singapura, no Vietname e na Malásia como ingrediente para remédios tradicionais. Associada à queda da União Soviética, esta procura conduziu a um aumento dramático na caça do animal.

Machos de saiga lutam no Parque Nacional da Terra Negra
VALERIY MALEEV/NATURE PICTURE LIBRARY

Machos de saiga lutam no Parque Nacional da Terra Negra. Os machos e os seus cornos são especificamente procurados pelos caçadores furtivos.

Uma via para a recuperação

As ameaças enfrentadas pelos saiga são multifacetadas e o mesmo se deveria aplicar aos esforços para proteger a espécie, que, sendo um animal de pasto, desempenha um papel importante enquanto dispersor de sementes, contribuindo para a biodiversidade vegetal.

Por exemplo, uma colaboração internacional entre os países por onde os saigas deambulam, países que consomem produtos de saiga e outras nações interessadas, incluindo os EUA, conduziu a um acordo celebrado em 2006 para conservar e restaurar o seu habitat e restringir a caça a um nível sustentável.

O governo do Cazaquistão focou-se na criação de medidas mais fortes contra a caça furtiva, incluindo a designação de forças policiais para prevenir a caça de saigas. A Saiga Conservation Alliance disponibilizou verbas para comprar gasolina, uniformes, motos e abrigos para os vigilantes da natureza, que vivem em condições árduas nas pradarias varridas pelo vento. Os agentes alfandegários também melhoraram a detecção de produtos de saiga que saiam do país ilicitamente. Por fim, o país criou várias zonas protegidas, totalizando quase 5 milhões de hectares de habitat de antílope saiga.

Agora que as condições económicas estabilizaram e os povos locais não têm de escolher entre a sua própria sobrevivência e salvar os saigas, houve uma mudança dramática no apoio da espécie. “As pessoas daqui adoram os saigas”, diz Milner-Gulland. “É um símbolo da estepe selvagem, de independência e liberdade.”

O saiga a beber água
VALERIY MALEEV/NATURE PICTURE LIBRARY

O saiga (nesta imagem bebendo água na estepe de Astracã, no sul da Rússia) pode migrar quase mil quilómetros no Verão e no Inverno.