Reportagem: Para onde foram as renas?

Há milénios que enormes manadas de renas atravessam a América do Norte nas suas migrações, mas o seu número está a diminuir e ninguém sabe porquê.

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Renas, ou tutu em inupiat
KATIE ORLINSKY

Renas, ou tutu em inupiat, atravessam a cordilheira Brooks, no Alasca. Na Primavera, as renas da região árctica da América do Norte iniciam migrações em direcção aos territórios de reprodução.

Clyde Morry segue a manada a toda a velocidade. Acelera a fundo, cuspindo uma cortina fina de cristais brancos. Imito-o, mas não consigo acompanhá-lo. Ligo o meu próprio veículo, debatendo-me sobre o mesmo solo congelado, mas não sou tão eficiente, nem me sinto tão sedento como Clyde pela matança, pelos quilogramas de carne saborosa ou pelo calor que lhe escorrerá pelas mãos quando desmanchar a enorme rena. Por alguma razão, apesar de estarem quase -4ºC e, apesar de o vento de Abril que sopra por esta passagem montanhosa tornar o ar ainda mais frio, Clyde não parece gostar de luvas. “Tornam-me mais lento”, explicará mais tarde.

Tudo em Clyde é rápido: o seu temperamento, a forma como joga basquetebol, a maneira como manuseia uma faca de esfolar. E esta não é uma perseguição elegante. É uma caçada feroz. Clyde dá mais algumas curvas e derrapa até parar. Saca depois da espingarda e aponta. O tiro soa como um balão rebentado, pequeno e oco contra as enormes montanhas. A algumas centenas de metros de distância, uma fêmea cai. O resto da manada, 10 ou 15 progenitoras e as suas crias, continua a correr, mas não vai muito longe. Talvez adivinhe que o pior já passou.

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Clyde Morry  prepara-se para transportar um animal abatido para casa. Os avós foram dos últimos nunamiut que seguiram as renas até cerca de 1950, período em que se fixaram nesta região.

Eu e Clyde deslocamo-nos até à fêmea e o caçador constata que o tiro foi limpo. Tira uma faca do seu macacão preto, debruça-se sobre o corpo e começa a trabalhar. Primeiro, corta-lhe a cabeça. O seu povo, os nunamiut do povoado Anaktuvuk Pass, no Alasca, acredita que este passo e o que se segue são os mais importantes. Afasta-se um pouco, transportando a cabeça como se trouxesse ao colo o seu gato preferido, e pousa-a de forma igualmente delicada sobre a neve, virada ao contrário. Agora, a inua da fêmea, a sua alma, pode voar até ao mundo dos espíritos. Ali, um espírito guardião confortará a alma da rena e, em seguida, enviá-la-á de novo para a Terra, num novo corpo.

Este é o ciclo do respeito, do retorno e da renovação. Clyde Morry tem 37 anos e é isto que sabe, aquilo que lhe foi ensinado e aquilo que ensina aos filhos. Após a deposição da cabeça, começa a desmanchar o animal com golpes rápidos e certeiros. As mãos ficam vermelhas e escorregadias. Quando os dedos ficam frios, abana-os, sopra-lhes e encosta-os ao corpo para absorver algum calor desvanecente. Quando a carne está por fim empilhada num trenó, ele conduz de volta a Anaktuvuk Pass, a uma velocidade muito mais segura. Isto não significa que ele conduza devagar. Na verdade, sente-se preocupado por não querer que a carne congele. Mas desta vez consigo acompanhá-lo. A certa altura, até o ultrapasso. Ao fazê-lo, vejo que está a sorrir. Clyde não tem outro trabalho além deste, nem quer outro trabalho além deste. É a caçar que sustenta a sua família alargada. Esta noite haverá muita comida e muitas pessoas em sua casa.

O pai de Clyde pergunta-me: “Viu-o virar a cabeça ao contrário? “Sim”, respondo. O ancião acena com a cabeça. “Não se esqueça.”

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Daniel Morry, sobrinho de Clyde, segura o coração ainda quente de uma rena abatida junto de sua casa. Seguindo a tradição, Daniel distribuirá a carne pela comunidade, começando pelos mais velhos.

A fêmea de rena que Clyde Morry matou pertencia à manada Western Arctic, por vezes simplesmente designada por Western. Nessa época, em princípios de 2021, era um dos maiores grupos de renas do Alasca. Na década de 1990, quando Clyde Morry andava a aprender a caçar, a Western estava prestes a atingir o seu número máximo – quase 500.000 animais vagueando num território aproximadamente do tamanho da Califórnia. Muitos passavam junto da casa de Clyde duas vezes por ano, nas suas migrações de Primavera e Outono, proporcionando à sua comunidade uma fonte estável de alimento e bem-estar espiritual numa região sem estradas e extremamente isolada do Norte do Alasca.

Em 2021, porém, os números da manada caíram para menos de metade. Em alguns anos, explicaram-me os caçadores locais, poucas renas apareciam em Anaktuvuk Pass. Noutros anos, chegavam atrasadas por várias semanas ou nem sequer chegavam. Nada disto era necessariamente invulgar, pois o tamanho das manadas de renas costuma flutuar ao longo do tempo e são seres selvagens, seguindo os seus próprios instintos, horários e motivações. Enquadrado num contexto maior, porém, o declínio é inquietante porque o caso da Western não é único.

As renas da tundra podem ser conhecidas por vários nomes, mas vivem em habitats setentrionais extremos, situados entre a linha de árvores e as terras remotas da tundra árctica, e empreendem longas migrações bianuais. Independentemente das coordenadas geográficas e dos nomes que lhes atribuirmos, há décadas que estão a desaparecer diante dos nossos olhos.

Entre o fim da década de 1990 e 2018, estes animais sofreram um declínio de cerca de 56%: de cerca de cinco milhões para dois milhões. Após 2018, tornou-se mais difícil obter dados sobre as renas russas (bem como a colaboração dos cientistas russos), mas o decréscimo continuou na América do Norte. 

Das cerca de 13 grandes manadas existentes no Canadá e no Alasca, a maioria sofreu perdas constantes e pelo menos uma, a Bathurst, desintegrou-se a ponto de poder desaparecer por completo dentro de poucos anos.

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A manada Western Arctic reúne-se em encostas ventosas durante o Verão para evitar os mosquitos. Tal como a maioria das outras, a Western sofreu um declínio misterioso nos últimos anos.

Não há uma explicação consensual para este colapso. Não foi identificada qualquer doença e não há um culpado individual. Nenhumas medidas políticas ou sociais parecem travá-lo ou sequer abrandá-lo. Para qualquer pessoa que viva abaixo do círculo polar árctico, o problema pode parecer abstracto – mais uma nota distante de tristeza numa era cheia de extinções. Mas não é assim que se encara a vida no extremo norte.

Povoados como Anaktuvuk Pass, com frequência isolados e ocupados por comunidades indígenas, onde os alimentos e o combustível importados podem ser astronomicamente caros, a caça de renas é a maneira mais barata, mais rápida e, certamente, mais satisfatória de sustentar uma família. Agora, este declínio é uma ameaça temida. Um ancião inupiat de uma aldeia costeira disse-me que era como sentir os primeiros sintomas de uma constipação. A constipação chega e persiste. Não passa. Depois piora, até ficarmos magros e com mau aspecto e ficamos com medo de que não seja uma constipação, mas sim algo mais profundo. Algo que foi injectado em todo o nosso sistema.

É assim que muitos povos setentrionais se sentem em relação ao problema das renas, incluindo os nunamiut. O seu nome significa “povo da terra”, mas qualquer membro da comunidade dirá que são, acima de tudo, um povo das renas. Por vezes, chamam-lhes os últimos nómadas da América, pois só por volta de 1950 é que os nunamiut abdicaram da vida em movimento, acompanhando e caçando renas. Decidiram tornar-se sedentários e fixar-se em Anaktuvuk Pass, precisamente porque a manada fluía por ali como um rio. O nome Anaktuvuk significa “o sítio com muitos excrementos de rena.”

Certa noite, depois de eu ter caçado com Clyde Morry, ouvi o seu pai, Mark, comentar a escolha que o seu povo fizera. Mark Morry era um veterano da Guerra do Vietname. Com cabelo grisalho e espesso, óculos velhos e grossos, sentado numa poltrona reclinada junto da janela da casa que construíra, vendo a família comer a rena que Clyde trouxera, disse: “Foi um grande risco para nós fixarmo-nos daquela maneira”, disse Mark sobre a geração que abdicou do nomadismo. “Pensaram que as renas estariam sempre por cá.”

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Raymond Paneak, um ancião nunamiut (sentado à esquerda), ensina os alunos a desmanchar uma rena de 180 quilogramas e a processar a sua pele na escola de Anaktuvuk Pass. A aula integra-se num esforço comunitário para transmitir as técnicas tradicionais às gerações mais novas. Raymond morreu meses mais tarde, com 81 anos

Quando a bióloga Heather Johnson chegou ao Alasca há vários anos, ficou surpreendida por descobrir os mistérios das renas. À semelhança de outras criaturas setentrionais, como os ursos-polares ou os narvais, as renas levam uma vida obscura. Podem ser difíceis de encontrar. O seu estudo pode ser dispendioso. Assustam-se com facilidade. Até os alimentos que consomem têm, por vezes, sido difíceis de identificar. Esta é uma das principais razões pelas quais o seu declínio é tão intrigante.

“Nunca achei que houvesse um mamífero terrestre de grande porte na América do Norte sobre o qual não soubéssemos muito”, disse esta investigadora que trabalha para os Serviços Geológicos dos EUA. “Como é possível sabermos tão pouco sobre eles? Um colega mais velho disse-me: ‘Heather, tens de ver o problema ao contrário. Deverias ficar impressionada por sabermos tanto’.”

Os investigadores só recentemente confirmaram que as renas são das últimas criaturas errantes do planeta. Utilizando dados recolhidos por coleiras com localização de satélite, uma equipa liderada por Kyle Joly, um biólogo do Serviço Nacional de Parques, demonstrou em 2019 que os animais podem viajar 1.350 quilómetros, em linha recta, de uma ponta à outra do seu circuito migratório todos os anos. É uma distância superior à percorrida por qualquer outro mamífero terrestre. Durante estas viagens épicas, as renas podem atravessar florestas de abetos-negros e tundras descoloradas pelo Sol, encostas montanhosas desoladoras e planícies costeiras fustigadas pelo vento. Até se sabe que caminham mar adentro. Também enfrentam ameaças naturais, como lobos, ursos, rios gelados, enxames galácticos de mosquitos e moscas parasíticas que lhes sugam a vida, além de um número cada vez maior de obstáculos criados pelo ser humano: campos de petróleo, estradas e minas.

As alterações climáticas também estão a transformar o seu habitat. O aumento das temperaturas no Árctico perturba de forma rotineira os padrões climáticos habituais. No passado, os nevões eram o estado típico do tempo durante o Inverno árctico, mas agora as chuvas geladas estão a tornar-se mais comuns, enclausurando o pasto das renas sob cápsulas impenetráveis de gelo. O Verão também está a tornar-se mais longo, o que não é necessariamente bom: o aumento das temperaturas traz à tundra novas plantas e animais, mais parasitas e até incêndios florestais.

Todas estas forças afectam as renas de formas que só agora começamos a desvendar. Isto significa que um cientista, um caçador, um especialista em conservação ou qualquer indivíduo em busca de uma razão exclusiva para o desaparecimento, deparará subitamente com um problema tão vasto como a própria paisagem.

"Acho que se fosse só um factor, já saberíamos qual era por esta altura”, disse Jan Adamczewski, um biólogo canadiano. “Mas quando fazemos uma lista com todas as ameaças potenciais, a lista pode tornar-se muito grande. E quando fazemos uma lista com aquilo que podemos fazer em relação a isso, ficamos com uma lista muito pequena.”

Jan trabalha para o governo dos Territórios do Noroeste. Durante parte do ano, esta região acolhe sete manadas de renas migratórias da tundra, incluindo a Bathurst – a tal que se tornou representativa do pior cenário possível. Em 1986, a manada tinha 472.000 animais. Desde então, iniciou-se um declínio gradual que quase conduziu ao colapso. Em 2021, a manada diminuíra 99%.

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Renas caminham na tundra encharcada em Junho enquanto se dirigem para os pastos de Verão. São nadadoras natas graças a folículos capilares flutuantes e cascos semelhantes a remos, que as ajudam a atravessar rios, ribeiros e lagos ao longo das migrações.

O colapso foi extraordinário e, quando perguntei a Jan qual poderia ser a causa, ele suspirou. Explicou-me que muitos interlocutores pensam que as alterações climáticas estão, de certa forma, relacionadas com o declínio da manada. No entanto, o termo é vago e os efeitos difíceis de interpretar. 

Era muito mais fácil, disse Jan Adamczewski, focarmo-nos em suspeitos mais pequenos e discretos. Os lobos são um vilão popular. Outras pessoas defendem que os caçadores estão a matar demasiados animais. E entre as comunidades indígenas, que representam quase metade da população do território e são as mais afectadas pelo desaparecimento das renas, a extracção mineira é com frequência considerada a maior ameaça para as manadas, disse o meu interlocutor.

No tempo em que a Bathurst aparentava estar na sua fase mais saudável, foram abertas algumas minas nos Territórios do Noroeste, incluindo Colomac, uma mina de ouro, e Diavik e Ekati, ambas de diamantes. Todas se encontravam no domínio da Bathurst e Lupin, uma mina de ouro mais antiga, situava-se a sul do seu território de reprodução, em Nunavut.

“Aqui, todos sabem que a Bathurst estava no seu apogeu [naquela altura]. Depois, apareceram as minas, foram construídas estradas e as renas começaram a diminuir.” Para muitas pessoas, isto não era coincidência, disse Jan Adamczewski. Vários estudos demonstraram que o desenvolvimento industrial afecta o comportamento das renas. Os animais consideram as estradas e os oleodutos, em particular, como obstáculos que bloqueiam as suas rotas migratórias e padrões de alimentação. Também tendem a evitar as minas e os campos petrolíferos, que podem libertar odores e resíduos químicos, fazer tremer a terra com os equipamentos de perfuração e o movimento dos camiões e encher o ar com a algazarra dos helicópteros e aviões.

Jan Adamczewski acredita que este território e o de diversas Primeiras Nações testaram outras abordagens para travar a hemorragia da Bathurst. Em 2015, disse, o território decretou uma polémica interdição de caça, que foi apoiada pelas comunidades indígenas locais. Também se tentou reduzir o número de lobos, abatendo-os com meios aéreos, entre outras medidas. Mesmo assim, a manada continuou a encolher.

"Uma das consequências mais perturbadoras do declínio da própria Bathurst parece ser uma crescente perda de identidade. Na biologia das renas, o termo “manada” costuma referir-se a um grupo de animais que regressam ao mesmo local para parir – o mesmo território de reprodução. As progenitoras ensinam as crias, mostrando-lhes diferentes locais de alimentação pelo caminho. Também partilham rotas alternativas, desvios que podem ser úteis dependendo do estado do tempo ou daquilo que os lobos ou os caçadores humanos estiverem a fazer.

As renas vivem vidas obscuras e são difíceis de encontrar. A monitorização é cara. Assustam-se com facilidade.

Durante muito tempo, pensei que estas migrações se assemelhavam a peregrinações e que a educação dos animais mais jovens (uma tarefa que recai, sobretudo, sobre as fêmeas mais velhas) estava ligada àquilo que os cientistas chamam com frequência memória colectiva da manada: a sua forma única e duradoura de conhecer a paisagem. Algumas pessoas começaram a chamar cultura a tais práticas. Estas culturas são suficientemente coesas para os animais tenderem a manter-se junto dos seus e permanecerem leais aos seus territórios de reprodução.

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Renas procuram líquenes na região Centro-Sul da Colúmbia Britânica. Um consórcio de Primeiras Nações captura e coloca coleiras em fêmeas grávidas para contribuir para a recuperação desta subpopulação em perigo.

No entanto, segundo Jan, nos últimos Invernos, a Bathurst misturou-se com outra manada, muito maior, chamada Beverly. Talvez procurasse segurança nos números da Beverly. Talvez se juntasse à manada maior. Ainda era possível que recuperasse. Outras manadas estiveram prestes a desaparecer e conseguiram fazê-lo. Mas a cultura singular da Bathurst – a sua maneira de ser, como me disse um amigo indígena – estava à beira de se perder. “Se perdermos uma destas manadas, perderemos muito em termos de memória comportamental”, disse o biólogo. “As renas parecem viver menos quando não visitam os seus territórios de reprodução tradicionais.”

Analisado em conjunto com outras alterações ocorridas no extremo setentrional (a tundra cada vez mais verde, a fusão do gelo marinho e as florestas em chamas), o desfecho da Bathurst assemelha-se a um sintoma de demência, com a paisagem a perder mais uma peça da sua identidade. Poderia a doença da Bathurst disseminar-se? Seria irreversível? Haveria uma cura? Ninguém sabia.

Jan Adamczewski disse ter encontrado esperança em pequenos pormenores: sinais de crescimento numa manada, por exemplo, ou um abrandamento no ritmo do declínio de outra. Talvez uma percepção mais alargada do tempo ajude.

As manadas de renas parecem seguir ciclos, fases de expansão e contracção durante as quais atingem o auge e depois encolhem. Tanto no Alasca como no Canadá, muitas manadas, incluindo a Western, atingiram valores mínimos na década de 1970 e começaram a melhorar na década de 1990 e no início da década de 2000. As histórias orais indígenas preservam registos ainda mais antigos de épocas de abundância e escassez.

A existirem tais ciclos, as suas causas são desconhecidas e parecem funcionar com base em intervalos de décadas. A ideia é atraente, pois sugere que as manadas de renas recuperam naturalmente. Mas também pode ser enganadora, avisaram-me muitos investigadores, porque, num mundo em rápida mudança e cada vez mais quente, até as criaturas mais perenes podem não ter tempo suficiente para recuperar. “Há alturas em que perdemos manadas na paisagem e outras em que se formam novas manadas”, disse-me Jan. “As manadas não são imortais. Não estão eternamente fixas no tempo e no espaço.”

Num dia enevoado de Agosto de 2021, encontrava-me numa planície verde na tundra, num canto isolado de Nunavut, observando dezenas de rastos de rena. Eram fundos e estreitos e atravessavam a terra em todas as direcções, como filas de milho ou raios de luz num desenho do Sol feito por uma criança. Podíamos escolher qualquer um e acompanhá-lo até ao horizonte. Talvez até à cidade de Yellowknife, 400 quilómetros a sul.

Escolhi um trilho e segui-o, desastradamente, arrastando uma bota à frente da outra. Atrás de mim, um homem robusto e atlético chamado Roy Judas fazia o mesmo. Trazíamos vestida roupa camuflada que nos confundia com a floresta, embora a árvore mais próxima ficasse a mais de um dia de caminhada.

Roy tinha uma espingarda Winchester antiga para o caso de aparecerem ursos, ou “homens grandes”, como o seu povo, os tlicho, por vezes lhes chamam. Nesse dia, não havia homens grandes. Deviam ter ido caçar ou estavam a comer bagas noutro sítio qualquer.

Para onde quer que nos virássemos, a tundra parecia vazia. Estávamos perto dos territórios de reprodução da Bathurst: os trilhos antigos deveriam ser seus. Mas também não havia renas. Enquanto caminhava, tentei imaginar a quantidade de animais necessária para moldar a paisagem desta maneira. Dezenas de milhares de renas. Décadas de migrações. A terra pulsando sob os seus cascos semelhantes a pás. “Costumava ser uma auto-estrada para elas”, disse Roy. “Agora desapareceram.”

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Joe Zoe (à direita), Janet Rabesca (à esquerda) e Tyanna Steinwand, membros da Nação Tlicho, observam a manada Bathurst num canto isolado dos Territórios do Noroeste, no Canadá. Os tlicho dependem das renas da Bathurst há várias gerações, mas a caça foi proibida em 2015 devido ao seu declínio acentuado.

Roy crescera a caçar renas nas florestas junto de sua casa, em Wekweètì. Os seus mapas mentais da paisagem, bem como a língua e a cultura do seu povo, estavam salpicados por marcos na paisagem, histórias e vocabulário relacionados com as renas. As peles das renas da Bathurst tinham sido outrora o seu recurso mais valioso. Sob a forma de tendas, equipamento e roupa, tinham tornado a vida humana possível junto da fronteira fria onde as grandes florestas do Norte se desvaneciam na tundra aberta do Árctico. Alguns tlicho disseram-me que até conseguiam sentir a diferença de sabor entre as renas da Bathurst e animais de outras manadas.

Roy já não podia caçar a Bathurst: os tlicho, uma Primeira Nação, respeitavam a proibição de caça no território. No entanto, esta decisão não fora fácil de tomar. Naquela altura, os tlicho já tinham sofrido com décadas de práticas coloniais, incluindo perdas culturais e do seu idioma. O colapso da Bathurst só aumentara a sensação de crise existencial. Se os tlicho não pudessem caçar a Bathurst, se não pudessem manter as tradições e os seus laços antigos com os animais, quem seriam eles?

Os tlicho ainda discutiam essa questão quando me juntei a Roy e a muitos outros cidadãos tlicho na margem do Kokètì, também conhecido como lago Contwoyto. Uma das respostas da comunidade fora criar um programa chamado Ekwo Nàxoèhdee K’è, que significa “por onde as renas viajam”.

Durante parte do ano, Roy trabalha para o programa, liderando grupos de cidadãos tlicho até Kokètì, onde passam semanas a acampar, a caminhar e a procurar vestígios da manada. “Quando os encontramos, tomamos notas”, disse. “Vemo-los, seguimo-los. Tentamos aproximar-nos e perceber o que estão a fazer.”

Os observadores contam as renas e registam outros pormenores, incluindo o seu aspecto, por onde andaram, o que comeram e quem as comeu. No final de cada Verão, os resultados são apresentados ao governo tlicho, que os utiliza para orientar decisões de gestão relacionadas com a Bathurst.

“A principal razão para criar este programa foi transformar o nosso próprio povo, os tlicho, nos olhos e ouvidos daquilo que está a passar-se com as renas”, disse Tammy Steinwand Deschambeault, directora do Departamento de Cultura e Protecção de Terras do governo tlicho. “Os anciãos não querem depender do governo territorial ou de qualquer outra pessoa para traçar o diagnóstico. Os anciãos disseram que teríamos de averiguar por nós próprios. Por isso, vamos até lá.”

Tammy disse-me que o programa Boots também tem objectivos secundários: expor os tlicho mais novos ao idioma e às técnicas de caça (ou à própria caça) e manter o contacto com a Bathurst. “Se não estivermos na terra, as renas pensam que não são necessárias”, disse ela. Talvez os animais decidam partir. “Por isso, precisamos de voltar a passar mais tempo na terra, cuidar deste tipo de relações, está a ver? Temos de fazer a nossa parte.”

Durante o tempo que passei com Roy e com a sua equipa, vimos muitos animais. Ursos enormes, trutas do comprimento das minhas pernas, águias, garças, bois-almiscarados e uma jovem loba branca que andava pelo nosso acampamento como se fosse a proprietária do espaço. Também atravessámos camadas de presença humana profunda. Acampamentos com séculos, esconderijos de caça feitos com pedras empilhadas do tempo das setas e das lanças. Com frequência, parávamos para descansar e víamos os nossos pés rodeados de “dispersão lítica”, fragmentos de pedra deixados por caçadores que há muito tinham estado naqueles mesmos locais, fabricando ferramentas de sílex ou quartzo.

Mas havia poucas renas da Bathurst. Na altura, pensava-se que restavam apenas cerca de seis mil animais. Inicialmente, esse número parecia grande. Com algum esforço, pensei, teríamos de encontrar a manada. Roy corrigiu-me com delicadeza. Seria fácil tão poucos animais serem engolidos pela tundra. À medida que os dias se arrastavam sem muitos avistamentos, comecei a aperceber-me da escala do problema.

Vivo na cidade de Nova Iorque. As renas migratórias da tundra vagueiam a cerca de 1.600 quilómetros de distância, em Ontário. Até para mim, depois dos anos que passei a trabalhar nesta reportagem, entrevistando dezenas de pessoas e acampando muitas noites no território das renas, os animais costumam estar longe da vista, longe do coração. Não são tanto um animal próximo, como uma ideia distante, uma sombra que paira sobre o mapa. Multipliquemos esta distância conceptual pela maior parte das nossas vidas e veremos por que razão o seu destino não suscita alarme nas capitais de Otava ou Washington.

Para Roy Judas, a resposta era clara e pessoal. No Verão, ele conta renas na tundra. No Inverno, quando a Bathurst migra de novo para as árvores junto da sua terra natal, trabalha para o governo territorial, ajudando a aplicar a proibição de caça. É a sua forma de respeitar os animais e de cuidar da relação antiga. E durante algum tempo isso tornou-o impopular.

Em 2015, quando a proibição entrou em vigor, nem todos a apoiaram. Alguns tlicho ressentiram-se do facto de alguns forasteiros controlarem a sua manada. Queriam continuar a caçar, como sempre tinham feito, e, de vez em quando, o trabalho de Roy obrigou-o a entrar em conflito com os vizinhos. Uma vez, até apanhou um velho amigo a caçar. Um dia, enquanto seguíamos trilhos de rena, disse-me que as pessoas pareciam finalmente aceitar a sua maneira de ver o problema. “Qual é a sua maneira?”, perguntei. “Quero que existam renas no futuro”, disse.

Se rumarmos a poente na terra da Bathurst, atravessando os Territórios do Noroeste e entrando no Yukon, encontraremos as anomalias desta história. Aqui, na costa do mar de Beaufort e já penetrando nas terras dos inupiat e dos gwich’in, fica o domínio da manada Porcupine.

Quando iniciei este projecto, quase todos os investigadores apontaram nesta direcção. A Porcupine, diziam, parecia estar a contrariar a tendência continental. Os seus números estavam a crescer.

Entre 2013 e 2017, enquanto a Bathurst encolhia gradualmente e a Western estava prestes a seguir pelo mesmo caminho, a Porcupine aumentara, ganhando cerca de 21.000 animais, alcançando 218.000… apesar das alterações climáticas, apesar dos lobos, apesar de tudo.

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Um esqueleto limpo por predadores assinala o trilho da manada Western Arctic através da cordilheira Brooks em Anaktuvuk Pass, que em inupiat “significa “o sítio com muitos excrementos de rena”.

Para muitos cientistas e caçadores, este era um sinal de esperança. Não se sabia, ao certo, por que motivo a Porcupine prosperava enquanto outras manadas sofriam declínios. Tal como em todos os problemas relacionados com as renas, a resposta deveria estar escondida na complexa trama do clima, da biologia e da paisagem. Durante algum tempo, pareceu que a Porcupine talvez escondesse um segredo, alguma pista que pudesse ajudar a esclarecer ou talvez abrandar o desaparecimento.

Contudo, se tentarmos compreender uma anomalia, ela começa a mudar. Heather Johnson avisara-me para não levar demasiado a sério os números da Porcupine. A manada não era contada com exactidão há seis anos, disse-me, e, entretanto, os caçadores tinham observado tendências preocupantes na sua condição física: as renas estavam cada vez em pior forma, com menos reservas da gordura essencial que as ajuda a sobreviver aos brutais invernos árcticos. “A ideia de que não estão em declínio está um pouco desactualizada”, disse. “A verdade é que não sabemos.”

Por volta da data de publicação desta reportagem, no Outono de 2023, alguns interlocutores aguardavam que fossem divulgados os novos censos das renas, o que costuma acontecer durante o Verão. A Western e a Porcupine estavam prestes a ser contadas de novo e um crescimento de ambas poderia melhorar o moral e até afectar os regulamentos de caça. Por outro lado, se os números fossem maus, a tristeza iria aumentar.

Não se sabe por que motivo a Porcupine prospera enquanto outras manadas estão em declínio.

Kyle Joly, o biólogo do Serviço Nacional de Parques, disse-me que o ano já fora complicado para a Western. Ele passara parte de Julho no Norte do Alasca recuperando coleiras de monitorização por satélite de renas mortas durante um Inverno. Em Setembro, notícias animadoras chegaram à Vertente Norte, uma região rica em petróleo onde se cancelaram todas as licenças de exploração de petróleo no enorme Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Árctico, coincidente com os territórios de reprodução da Porcupine.

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Aspirando o ar, um macho avança contra o vento na tundra. As renas, membros da família dos veados, vaguearam outrora por todo o continente. Hoje, concentram-se apenas nos locais mais setentrionais.

A notícia foi celebrada pelos gwich’in, para os quais a área em redor desses territórios é sagrada, “o lugar santo onde a vida começa”. No entanto, o apetite humano pelo petróleo ainda paira sobre o futuro da Porcupine. Embora não existam prospecções neste momento, também não há garantias de que um novo equilíbrio de forças político não avance nesse sentido. Políticos locais e nacionais já tentaram e fracassaram dezenas de vezes.

“Acho que tem sido difícil quantificar as mudanças para as renas”, disse-me Heather Johnson. Mas “se há algo de que elas não gostam é do desenvolvimento industrial. Isso já foi demonstrado em diversas ocasiões.” Num mistério do tamanho de um continente, disse ela, esta é capaz de ser a melhor pista que temos.

As renas são criaturas de hábitos e os seus hábitos parecem encontrar-se sincronizados com um mundo mais antigo e mais frio que já não existe. A questão do nosso tempo não é quão depressa poderão, ou não, adaptar-se. Certo dia, num final de Outubro, eu estava sozinho junto da margem do rio Kobuk, na região ocidental do Alasca, observando um animal jovem enquanto este nadava nas águas negras. O macho sentia algumas dificuldades.

Grandes jangadas de gelo rolavam rio abaixo, batendo-lhe e empurrando-o para baixo. Um grupo de companheiros menos ousados permanecia na margem. O local era Onion Portage. Há dez mil anos que as renas vêm aqui para atravessar o rio no fim da sua migração outonal. Os artefactos encontrados mostram que os seres humanos vieram ao seu encontro para os caçar, processar a sua carne, pele e ossos pelo menos desde essa altura. Era um encontro marcado, mantido ao longo de milénios. E embora os caçadores locais ainda comparecessem, as renas apresentam-se agora atrasadas ou nem sequer aparecem.

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Renas na sua travessia primaveril do vale do rio Kobuk, junto de Ambler, no Alasca. Durante mais de uma década, existiram planos para construir uma estrada mineira com 340 quilómetros.  A estrada cortaria a rota migratória da manada Western Arctic que, nas últimas duas décadas, diminuiu de quase meio milhão de animais para 164.000.

As mudanças na migração tiveram consequências para os humanos e para os animais. No caso das renas, um atraso implica encontrar um rio fluido – não exactamente líquido, mas não completamente congelado. A travessia é perigosa, como o macho estava a descobrir. Mas também é perigoso esperar que as águas congelem: lobos e ursos patrulham a floresta.

Na verdade, as renas não têm escolha. Durante dias, centenas caminham junto do rio, a metros da minha tenda, enchendo o ar com o seu aroma almiscarado e o peculiar som das suas passadas, um som que se pensa ser causado pelos tendões a estalar contra os ossos das patas. Mostram-se inquietas e só querem continuar viagem.

Da minha perspectiva, parece impossível que o mundo volte a ser como era quando esta rota foi incutida na mente dos seus antepassados. Onion Portage já estava a ser transformada por novas árvores e arbustos que cresceram tão alto como o clima permitiu. Mas muitos indígenas já me tinham dito que as renas se adaptam. São curiosas e resilientes. No Árctico, têm mesmo de sê-lo.

Olhei de novo para o rio: um pedaço de gelo, um golpe na cabeça, outro mergulho. O macho emergiu, cuspindo água. Decidiu voltar para trás. Na margem, sacudiu-se e juntou-se aos outros. A manada virou-se para olhar para mim: corpos cinzentos, hastes grandes, olhos abertos. Depois, subiu o barranco e desapareceu entre as árvores.

Artigo publicado originalmente na edição de Dezembro de 2023 da revista National Geographic.