Na mitologia nórdica, Jörmundgander era uma serpente gigante monstruosa que habitava Midgard, o mundo dos humanos. Nada melhor para nomear a nova espécie de mosassauro que foi descrita por investigadores do Museu Americano de História Natural (AMNH) e baptizada de Jormungandr walhallaensis, em referência à serpente Jörmundgander e a Valhalla, o paraíso dos guerreiros vikings.

UMA ESPÉCIE DE TRANSIÇÃO

O Jormungandr walhallaensis era um réptil marinho que viveu há cerca de 80 milhões de anos nos mares do Cretácico. Tinha cerca de sete metros de comprimento e era dotado de barbatanas poderosas e de uma "cauda atarracada como a de um tubarão", bem como de cristas ósseas sobre os olhos que lhe davam a aparência de ter "sobrancelhas zangadas", como descrevem os investigadores do AMNH.

Esta criatura possui várias apomorfias, ou seja, novos traços biológicos que não estavam presentes em espécies anteriores e que representam uma novidade evolutiva. Tem características dos clados basais, ou seja, o grupo comum a partir do qual um tipo de criatura se diversifica, neste caso os mosassauros; mas também características de géneros evolutivamente mais avançados.

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SMIRNOVA NATALIA ART

Clidastes, um género de mosassauros basais que viveu há cerca de 85-80 milhões de anos.

Assim, esta nova espécie é uma forma de transição entre os mosassauros primitivos, que apareceram há cerca de 100 milhões de anos, e as espécies totalmente desenvolvidas do final do Cretácico, como as do género Mosasaurus, que dá o nome a este tipo de réptil.

Por esta razão, é de grande interesse conhecer a história evolutiva destes répteis marinhos e compreender como se tornaram predadores de topo num mundo marinho dominado pelos plesiossauros, as criaturas de pescoço comprido que se mantiveram no topo dos ecossistemas marinhos desde o Jurássico.

O QUE ERAM OS MOSASSAUROS

Os mosassauros não eram dinossauros, uma confusão que por vezes ainda persiste. Eram uma família de escamados (Squamata), um grupo de répteis que inclui lagartos, cobras, iguanas e camaleões. De facto, nem sequer são parentes próximos de outros répteis marinhos pré-históricos, como os ictiossauros ou os plesiossauros.

Embora se tenham tornado ícones da cultura popular graças à sua aparição em filmes como Mundo Jurássico (2015), a verdade é que os mosassauros apareceram relativamente tarde em cena: foi durante o Cretácico Superior, há cerca de 100 milhões de anos. Os seus antepassados eram provavelmente um grupo de répteis aquáticos costeiros semelhantes aos lagartos-monitores, que eram anfíbios e ainda tinham pernas e caudas em vez de barbatanas.

Estes antepassados evoluíram em duas famílias: por um lado, os aigialossauros, que conservaram a cauda e as patas; e, por outro, os mosassauros, que desenvolveram características anatómicas semelhantes às dos tubarões ou cetáceos, como um corpo atarracado mas hidrodinâmico e poderosas barbatanas caudais que lhes permitiam mover-se com grande agilidade na água. Possuíam mandíbulas longas e poderosas, com dentes preparados para quebrar as conchas de moluscos como as amonites, embora os peixes fossem a base da sua alimentação.

Esqueleto de Mosasaurus hoffmannii

Esqueleto de Mosasaurus hoffmannii, a maior espécie conhecida de mosassauro, no Museu de História Natural de Maastricht, nos Países Baixos.

Apesar de serem considerados os últimos predadores marinhos de topo do Mesozoico, existiam em muitos tamanhos diferentes. No final do Cretácico, algumas espécies ascenderam ao topo da pirâmide alimentar, como o Mosasaurus hoffmannii, que podia ultrapassar os 17 metros de comprimento e é a maior espécie de mosassauro conhecida. Este facto deveu-se, em grande parte, à sua velocidade, agilidade e força, que fizeram deles os tubarões do seu tempo.

Tal como os plesiossauros, os mosassauros desapareceram durante a extinção em massa do Cretácico-Paleogénico. As alterações da temperatura e da composição química dos oceanos tiveram um impacto directo na disponibilidade de alimentos e estes grandes répteis não conseguiram sobreviver. Em contrapartida, outros grupos, como as tartarugas, sobreviveram a este teste com grande resiliência (cerca de 80% das espécies sobreviveram ao evento de extinção), enquanto outros, como os tubarões, foram dizimados, mas algumas espécies conseguiram sobreviver.