Nesta cidade do centro do Vietname, habitada por 1,2 milhões de pessoas, quase todos os centímetros de terra foram ocupados pela construção. Hotéis altíssimos alinham-se junto a uma praia de areias brancas com quilómetros de comprimento. No entanto, existe um pedaço de terra valioso que permanece praticamente intocado: a extremidade montanhosa e florestada da península da cidade. É uma reserva natural com 2.600 hectares chamada Son Tra, igualmente conhecida como “Monkey Mountain”.

A reserva, que é também o local de uma base militar, é o último refúgio do langur de douc, uma espécie de langur em vias de extinção, da qual existem apenas cerca de 2.000 animais em Son Tra. Numa visita recente, o conservacionista Hoang Van Chuong avistou rapidamente vários macacos coloridos e de cauda comprida no topo das árvores. “É difícil esconderem-se, com aquele aspecto”, gracejou Chuong, director de desenvolvimento da organização local sem fins lucrativos GreenViet.

Ocupados a petiscar folhas ao fim da tarde, os animais não pareceram muito incomodados como a nossa presença. No entanto, os doucs têm boas razões para temer os seres humanos. Caçados desde há muito pela sua carne e para fabricar remédios tradicionais, perderam grande parte do seu habitat nativo na floresta, que outrora ocupou toda a região. Empurrados para minúsculos enclaves de floresta, encontram-se hoje apenas em algumas bolsas do Laos e duas populações isoladas no Vietname, a maior das quais se encontra aqui, em Son Tra.

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FOTOGRAFIA DE QUANG NGUYEN VINH, ALAMY STOCK PHOTO

Uma vista panorâmica da cidade de Da Nang a partir do alto da península de Son Tra, em 2019.

Os doucs são uma de muitas espécies que sofreram grandes declínios devido à fragmentação do seu habitat. Estudos demonstram que essa é a principal causa da perda de biodiversidade a nível mundial, sobretudo no Sudeste Asiático. As populações urbanas deverão ganhar mais 2.500 milhões de pessoas em todo o mundo ao longo dos próximos 30 anos, triplicando a pegada global das cidades. Os especialistas avisam que os animais incapazes de se adaptarem a ambientes urbanos podem ser empurrados para locais cada vez mais pequenos e isolados.

“As espécies que precisam de áreas relativamente grandes e intactas de habitat selvagem”, como os langures de douc, “irão perder-se, [enquanto] as espécies nativas e introduzidas que prosperam nas cidades poderão ocupar o seu lugar”, diz Rohan Simkin, ecologista da Universidade de Yale, que estuda o impacto da expansão urbana sobre a vida selvagem.

Ele e outros investigadores dizem que devem existir muitas outras espécies que evitavam os espaços urbanos – espécies incapazes de se adaptarem a estes ambientes – do que espécies adaptáveis aos espaços urbanos”, embora não existam estudos significativos que o confirmem.

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FOTOGRAFIA DE PHAN DUY HAO, GETTY IMAGES

Os langures de douc raramente se aventuram no solo, passando todo o seu tempo no enorme dossel florestal. 

A nossa península, os nossos macacos

Douc é um antigo nome vietnamita que significa macaco. Além do langur de douc, existem duas outras espécies de douc em vias de extinção no Sudeste Asiático: Pygathrix nigripes e Pygathrix cinerea. Parte da desflorestação remonta à guerra do Vietname, quando as florestas foram pulverizadas com um desfolhante tóxico conhecido como Agente Laranja. Uma vez que o governo vietnamita se preocupou directamente com melhorar a sua economia nos anos após a guerra, a protecção da vida selvagem mereceu pouca atenção.

Há apenas uma década, poucos habitantes de Da Nang sabiam da existência de doucs em Son Tra, diz Larry Ulibarri, um antropólogo da Universidade do Oregon, em Eugene, que escreveu a sua tese de doutoramento sobre a espécie. Quando Ulibarri mostrou fotografias dos animais aos funcionários públicos locais, disseram-lhe: “Esses primatas estão em África, não aqui”.

No entanto, o reconhecimento dos doucs começou a aumentar quando a GreenViet, fundada em 2014, e outros grupos de conservação começaram a organizar exposições fotográficas, visitas de estudo e outros programas de divulgação.

“As pessoas aperceberam-se: esta é a nossa península e estes são os nossos macacos… e interrogaram-se sobre o que poderiam fazer para protegê-los”, diz Chuong. Os hotéis locais começaram a pedir fotografias dos langures para pendurarem nas suas salas de recepção.

Planos desvendados pelos promotores imobiliários em 2016 para construir várias estâncias à beira-mar, incluindo na reserva, despertaram a indignação pública. As campanhas conseguiram recolher 10.000 assinaturas contra o projecto, numa invulgar demonstração de oposição pública no Vietname. Quando os líderes nacionais se juntaram ao apelo, o projecto foi abandonado.

“Son Tra não foi urbanizada porque os macacos estão lá”, diz Ulrike Streicher, uma veterinária alemã que liderou os primeiros esforços.

Embora as forças militares instaladas em Son Tra já tenham interceptado caçadores furtivos, a caça já não é considerada uma grande ameaça na reserva.

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FOTOGRAFIA DE RICHARD MCMANUS, GETTY IMAGES

O langur de douc vive nas árvores e é conhecido pelas coloridas “meias” bordeaux que lhe cobrem as canelas.

Adaptar ou não adaptar

Cerca de metade de todas as florestas primevas desapareceram a nível global e as perdas sentem-se de forma mais aguda nas florestas tropicais, que são o lar de pelo menos metade das espécies do mundo. Além do crescimento urbano, a expansão agrícola e o abate madeireiro são grandes factores do desaparecimento da floresta no Sudeste Asiático e noutros locais. Por vezes, esse desaparecimento ocorre depressa, mas mais frequentemente é gradual, sobretudo nas zonas protegidas.

As espécies que conseguem adaptar-se ou até prosperar em paisagens perturbadas ou em ambientes urbanos tendem a ter dietas mais abrangentes e uma capacidade para resolver rapidamente problemas, como encontrar um sítio onde dormir numa cidade movimentada. Muitos animais são de pequeno porte, como ratos e ratazanas, mas também podem ser veados e predadores de médio porte, como os coiotes da América do Norte.

No entanto, poderá haver muitos mais animais incapazes dessas adaptações. Um deles é a pantera da Flórida, um animal em perigo que também está altamente ameaçado pela urbanização, existindo apenas cerca de 200 indivíduos em estado selvagem. Este grande felino precisa de territórios vastos para sobreviver e encontrar indivíduos para acasalar.

O langur de douc tem necessidades semelhantes. Segundo Chuong, uma família de doucs, normalmente com quatro a 15 indivíduos, costuma precisar de um mínimo de 12 hectares de habitat florestal. Se o espaço for demasiado limitado para acasalarem, poderá haver consanguinidade, resultando em linhagens menos robustas e geneticamente viáveis.

Uma coisa positiva: os langures de douc têm uma dieta relativamente flexível, alimentando-se sobretudo de botões de flor e folhas jovens, mas também comem flores, frutos, sementes e cascas de árvores.

Disfarce colorido

O ecoturismo começou a aproximar as pessoas da vida selvagem nativa de Son Tra. A GreenViet, por exemplo, organiza excursões diárias para observação de macacos. Como os doucs não são animais naturalmente curiosos e costumam permanecer no topo das árvores, consumindo os seus próprios alimentos, o risco de se habituarem aos seres humanos é considerado pequeno.

A sua aparência extravagante, porém, que lhes deu a alcunha errónea de “macaco mascarado”, faz com que sejam uma alegria para os olhos. “Muitas pessoas dizem-nos que ver os doucs é uma experiência única na vida”, conta Võ Hồ Quế Anh, que lidera as excursões da GreenViet. A organização diz que já alcançou cerca de 30.000 pessoas com os seus programas de divulgação didácticos.

Estes esforços parecem estar a compensar. O censo da população de doucs em Son Tra realizado pela Greenviet em 2017 registou cerca de 1.300 indivíduos. Um novo estudo, ainda por publicar, sugere que o número aumentou para mais de 2.000. “Isso mostra que é possível proteger” os doucs, diz Chuong, “se mantivermos Son Tra intacta.”

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.