A classificação das espécies nidificantes e/ou invernantes em Portugal, tendo em conta o seu risco de extinção, é uma ferramenta importante na gestão das nossas populações de aves. Uma "task force" envolvendo mais de 400 ornitólogos, a mais recente Lista Vermelha das Aves – que não era actualizada desde 2005 – segue as Classificações da União Internacional para a Conservação da Natureza e contemplou um total de 285 espécies.

Destas, 60% não se encontram ameaçadas. Isto significa que foram classificadas numa categoria de não-ameaça ("Abundante" ou "Rara"). Já 33% das espécies foram encaixadas em categorias de ameaça ("Vulnerável", "Ameaçada" ou "Em vias de extinção"). Os dados obtidos sobre as restantes espécies foram considerados insuficientes para uma classificação rigorosa. 

Lembramos que, no caso de algumas espécies, foram avaliadas separadamente as populações nidificantes e invernantes, e a cada uma foi atribuída uma classificação independente.

Conheça, mais detalhadamente, as novidades sobre o estado de conservação das nossas populações autóctones de aves que esta revisão nos traz:

As boas notícias

As populações de algumas espécies mostraram uma melhoria considerável no que toca ao seu risco de extinção. É o caso das duas espécies de noitibós, que deixam de ter estatuto "Vulnerável" para passarem à categoria de "Abundante", a de menor ameaça. Também o cuco-rabilongo sobe de "Vulnerável" para "Raro", e o ibís-preto passa directamente de "Regionalmente Extinto" para "Abundante".

Igualmente, as grandes rapinas apresentam, no geral, francas melhorias: o grifo, a águia-perdigueira, o abutre-negro, a águia-calçada, a águia-sapeira, o peneireiro-cinzento e o bútio-vespeiro apresentam todos melhorias no seu estatuto de conservação, tal como as populações invernantes de milhafre-real e da águia-pesqueira. É de assinalar que esta última voltou a existir como reprodutora em Portugal entre as duas últimas actualizações da Lista Vermelha.

Outras espécies que viram a sua situação melhorar foram o colhereiro, o caimão, a calandrinha-das-marismas (que deixa de estar "Em vias de extinção"), o flamingo-comum, o corvo, a gralha-de-bico-vermelho, a coruja-do-nabal, o maçarico-galego, o papa-ratos e a garça-vermelha. Várias espécies de patos, incluindo as populações invernantes de negrola e de frisada e as reprodutoras de pato-de-bico-vermelho e de pato-trombeteiro, também se encontram do lado positivo da balança. 

AS MÁS NOTÍCIAS

Já o outro lado da balança apresenta-nos alguns grupos que demonstram claramente tendências negativas nas suas populações. É o caso das aves estepárias, que dependem de grandes zonas abertas e de produção cerealífera, e que têm visto as suas áreas de distribuição a serem consideravelmente estreitadas, em grande medida devido ao avanço do regadio. Neste lote, incluem-se espécies como a abetarda (mesmo mantendo o estatuto de conservação de "Ameaçada"), o francelho, o rolieiro ou o picanço-barreteiro. As outras duas espécies de picanços, infelizmente, também vêem o seu risco subir, sendo agora ambas consideradas "Vulneráveis". 

Caso mais alarmante será o do sisão, que passa directamente de "Vulnerável" a "Em vias de extinção", depois de uma diminuição de cerca de 30-40% da sua população e de uma contração muito significativa da sua área de ocorrência.

Também os falcões parecem estar em apuros: além do já referido francelho, também o esmerilhão e o peneireiro-comum viram o seu estatuto de ameaça aumentar. Aliás, neste momento, todas as espécies de falcão do nosso país se encontram classificadas com algum estatuto de ameaça.

Nas grandes rapinas, só o tartaranhão-cinzento sobe de estatuto de ameaça, embora os resultados do recente censo direccionado às populações nidificantes do seu parente próximo, a águia-caçadeira, também indiquem um cenário alarmante.

Um padrão preocupante é também visível entre as limícolas, com espécies como as tarambolas cinzentas, os ostraceiros, várias espécies do género Calidris ou os perna-vermelha-bastardos a aumentarem de grau de ameaça, com destaque particular para as populações de rola-do-mar, borrelho-de-coleira-interrompida e de maçarico-real, que de "Abundantes" passam directamente a "Vulneráveis". Algumas espécies marinhas como a galheta, a cagarra ou a gaivota-tridáctila seguem o mesmo caminho. 

Adicionalmente, nota-se também um agravar da situação das populações de algumas outras espécies, como é o caso do melro-de-água, da rola-brava, da gralha-de-nuca-cinzenta, do solitário, do cartaxo-nortenho, da ferreirinha-alpina ou da escrevedeira-amarela e da sua congénere escrevedeira-dos-caniços. Também a cegonha-negra vê o seu estatuto de ameaça subir. 

shutterstock
SHUTTERSTOCK

Uma ave limícola, o borrelho-de-coleira-interrompida (Charadrius alexandrinus) passou de espécie "abundante" a "vulnerável". 

AS ÚLTIMAS ENTRADAS na lista

Em relação à última lista, convém assinalar que há um conjunto de espécies que obtém pela primeira vez um estatuto oficial de conservação – quer porque não existiam dados em quantidade ou qualidade suficiente na avaliação anterior, quer por se terem estabelecido neste período. É o caso do torcicolo, um membro da família dos pica-paus que passa de uma situação de informação insuficiente em 2005 para "Abundante" agora, mas também do mocho-de-orelhas (que passa a "Vulnerável"), do bufo-pequeno (que segue o mesmo padrão) ou das populações reprodutoras de seixa ou dos melros-de-colar invernantes.

Quanto às espécies não consideradas na lista anterior – por não terem populações estáveis/relevantes – incluem-se o andorinhão-cafre e o andorinhão-da-serra.

Um caso que merece particular destaque é o da garça-branca-grande, que passa de invernante irregular a invernante "rara" e uma nidificante ocasional (o primeiro registo confirmado é de 2016).

Mais Sobre...
Aves