Por mais que se pareçam, não existem dois indivíduos iguais: é um facto confirmado pela ciência. O processo genético que forma os seres vivos é complexo e envolve uma grande quantidade de genes, herdados ou não, que criam combinações com uma infinitude de resultados.

Tanto é que os geneticistas moleculares, que pensavam inicialmente que os gémeos provenientes de um mesmo zigoto eram também geneticamente idênticos, demonstraram que, por muito que se pareçam fisicamente, na verdade não são totalmente iguais.

Esta afirmação aplica-se tanto a pessoas como animais, apesar de o olho humano só distinguir entre indivíduos de uma mesma espécie ou subespécie. No entanto, de vez em quando, a genética surpreende-nos, criando um exemplar de características evidentemente distintas.

Por mais curioso que pareça, não se trata de um caso isolado de girafa atípica. Este animal, que já de si possui alguns atributos distintivos, como a sua grande altura ou um pescoço extremamente comprido, é uma das espécies nas quais se observaram mais mutações genéticas.

DIFERENçAS ESTÉTICAS evidentes

Todas as girafas são parecidas, mas, na verdade, os estudos genéticos demonstram que existem quatro espécies diferentes. As suas diferenças baseiam-se principalmente na morfologia geral do animal, para além da forma e cor das suas manchas.

  • Girafa do Sul (Giraffa giraffa), com manchas castanhas-claras que formam um padrão irregular que se mantém em todo o corpo sobre uma base amarelada.
  • Girafa masai (Giraffa tippelskirchi), a mais alta e maior. O seu padrão caracteriza-se por manchas irregulares castanhas-escuras sobre um fundo em tons creme ou alaranjados.
  • Girafa reticulada (Giraffa reticulata), com manchas muito definidas, castanhas-avermelhadas. O seu padrão esbate-se dos joelhos para baixo, restando apenas o bege da base.
  • Girafa do Norte (Giraffa camelopardalis), com um padrão irregular de manchas castanhas-claras, menos acentuadas e mais separadas entre si. A cor base é bege claro.
  • Embora nem todas as mudanças espontâneas na genética sejam igualmente impressionantes ou vistosas, algumas chamam particularmente a atenção por ter dado origem a indivíduos com um aspecto único, que só ocorre na natureza.

Uma FAMíLIA DE gIRAFAS COm LEUCISMO

A pelagem branca e sem manchas destas girafas deve-se a uma particularidade genética chamada leucismo, uma condição que se confunde frequentemente com o albinismo, mas que, na verdade, tem características diferentes.

Trata-se de uma alteração genética pouco habitual, apesar de estas duas girafas, uma progenitora e a sua cria, não terem sido as únicas a nascer desta cor. Os seus olhos e outros tecidos mantêm o seu tom castanho habitual, embora o pêlo seja branco, o que permite distingui-las de uma girafa albina à vista desarmada.

girafas
ISHAQBINI HIROLA CONSERVACY

Esta pequena família de girafas brancas vivia num santuário natural no Quénia, onde foram vítimas de caça furtiva em 2017. O único exemplar com vida que se conhece actualmente vive na Tanzânia.

gIRAFAS anãs no UGANDA e na NAMíBIA

A descoberta destas girafas de pequeno porte, quando comparadas com o rasto dos exemplares da sua espécie, causou grande interesse entre a comunidade científica.

Após vários estudos realizados por especialistas da Fundação para a Conservação das Girafas, concluiu-se que os animais sofriam de displasia esquelética, um transtorno já detectado em seres humanos, mas pouco comum no reino animal e ainda desconhecido em girafas adultas.

girafa
© EMMA WELLS, GFC

Em comparação com um indivíduo adulto, podem observar-se melhor as malformações de que padece desta girafa com displasia esquelética.

Esta doença genética faz com que, não só a sua estatura seja diferente, como a sua morfologia seja alterada por um desenvolvimento irregular dos ossos.

As gIRAFAs Sem MANCHAS Do TENNESSEE, EUA, e da namíbia

Em Agosto, o nascimento de uma girafa sem manchas num jardim zoológico do Tennessee (EUA) fez manchetes: o corpo do animal era de uma cor sólida castanho-avermelhada, sem o padrão que caracteriza a espécie. Mas agora a natureza deu-nos uma sequela deste acontecimento. No Mount Etjo Safari Lodge, uma reserva de caça privada na Namíbia, foi avistado pela primeira vez um exemplar deste género na natureza.

Estando nós habituados a ver a girafa como um animal com um padrão inconfundível, o nascimento de um exemplar com uma só tonalidade é uma enorme surpresa. A sua peculiar coloração tem uma explicação genética: a mutação de um ou mais genes, embora, por enquanto, não se tenha identificado o processo exacto que a causou.

Antes destes nascimentos recentes, uma girafa com coloração totalmente castanha foi vista pela última vez num jardim zoológico de Tóquio em 1972.

namibia girafa
ECKART DEMASIUS / GCF

Há apenas duas semanas, uma girafa sem manchas nasceu no Tennessee (EUA). Agora, outra girafa com estas características foi avistada em estado selvagem na Namíbia.

VITiLIGO em gIRAFAS: Um CASO PECULIAR

Os investigadores detectaram uma girafa que muda de cor, residente na reserva natural do Quénia.

Após uma observação realizada ao longo do tempo, foi possível comprovar que este exemplar ia perdendo pigmento de forma progressiva, levando ao aparecimento de umas manchas esbranquiçadas que iam aumentando, fazendo com que o seu padrão desaparecesse.

Esta descoloração está relacionada com uma doença de pele muito conhecida nos seres humanos, mas que nunca fora observada em animais: o vitiligo, que faz com que as células produtoras do pigmento morram, deixando, por isso, de gerar melamina em determinadas zonas.

Na maioria destes e muitos outros casos que desconhecemos, os cientistas conseguiram identificar o motivo das suas características peculiares, mas ainda estão a investigar as causas exactas, uma vez que o estudo da genética é uma investigação constantemente em curso.