Procurar mel silvestre é complicado. Os ninhos das abelhas são difíceis de encontrar e os seus habitantes formam enxames e picam para se defenderem. No entanto, numa rara colaboração milenar em África, os apanhadores de mel recebem a ajuda de uma pequena ave castanha chamada indicador-médio para encontrar ninhos de abelhas. O indicador-médio conduz o apanhador até um ninho, tipicamente escondido nos ramos ou reentrâncias de uma árvore e o apanhador de mel usa fumo ou ferramentas para subjugar as abelhas e remover o mel. Como recompensa, o seu guia com penas obtém cera de abelha – um ingrediente fundamental da sua dieta.

Colaborações como estas entre seres humanos e animais selvagens são extremamente raras, existindo poucos exemplos documentados em todo o mundo. E aquelas que conhecemos estão a desaparecer rapidamente. Outrora uma prática disseminada em todo o continente africano, a apanha de mel com a ajuda do indicador-médio está actualmente limitada a alguns grupos étnicos da África Oriental, sobretudo nas regiões rurais de Moçambique, da Tanzânia e do Quénia.

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fotografia de THOMAS PESCHAK

O indicador-médio ajuda os apanhadores de mel a encontrarem ninhos de abelhas e, como recompensa, obtém cera de abelha – um ingrediente fundamental da sua dieta.

Há muito que os cientistas se sentem fascinados pela invulgar relação entre os humanos e o indicador-médio. Agora, um estudo recentemente publicado na revista Science mostra que a parceria é ainda mais estreita do que se pensava: a ave podeaprender e reagir a sinais vocais específicosutilizados por diferentes comunidades de apanhadores de mel. “Sabemos que existe um processo de aprendizagem do lado humano. Sabemos que as pessoas aprendem sinais diferentes para comunicar com as aves por terem crescido numa certa comunidade, que o faz de certa forma”, afirma Brian Wood, co-autor do estudo, professor associado da Universidade da Califórnia, Los Angeles, e Explorador da National Geographic. “Queríamos saber se também existe um processo de aprendizagem do lado das aves”.

Andando no meio da natureza com indicadores-médios, os investigadores reproduziram chamamentos previamente gravados utilizados por duas comunidades diferentes da África Oriental, juntamente com um som de controlo, e observaram a frequência com que um indicador-médio se aproximava.

“Existe uma probabilidade duas a três vezes maior de as aves responderem ao sinal de um apanhador de mel local”, diz Wood, que trabalhou no estudo com a autora principal, Claire Spottiswoode, investigadora da Universidade da Cidade do Cabo e da Universidade de Cambridge e líder do Human Honeyguide Project.

Esta investigação apurou conhecimento essencial sobre a comunicação complexa envolvida nas parcerias entre humanos e animais, diz o especialista em mutualismo Mauricio Cantor, da Oregon State University, que não participou no estudo.

“Se perguntar às pessoas, elas diriam que as aves estão a responder-lhes: é essa a sua percepção. Mas não sabemos se as aves estão ou não a responder a chamamentos específicos”, diz Cantor. “Este estudo é muito elegante na forma como averigua se as aves reconhecem e reagem a sinais precisos de uma forma muito simples e clara.”

Cantor estuda a cooperação entre pescadores artesanais no sul do Brasil e o boto-de-Lahille, que assinala a presença de cardumes migrantes de tainhas mergulhando ou batendo com a cauda ou a cabeça na água, encurralando os peixes em direcção à costa onde as redes dos pescadores os aguardam. Cantor descobriu que os pescadores que se aliavam aos botos capturam quatro vezes mais tainhas e que os botos se alimentavam melhor e viviam mais tempo “Os humanos são óptimos a usar ferramentas como redes para capturar a maior quantidade de peixes possível, mas não são muito bons a detectá-los em águas turvas”, diz Cantor, recentemente nomeado Explorador da National Geographic, no âmbito do projecto Wildlife Intelligence Project da National Geographic Society. “Os golfinhos usam ecolocalização para detectar os peixes debaixo de água e são mestres em conduzi-los na direcção dos humanos”. No Myanmar, os golfinhos do Irrawaddy, uma espécie de água doce, tem uma parceria semelhante com os humanos, os que chamam frequentemente em seu auxílio batendo com paus no casco dos barcos.

Mas se estes casos de cooperação beneficiam todos os envolvidos, porque são tão raros? “Para os humanos e os animais juntarem forças desta forma, tem de haver alguns elementos em jogo”, diz Cantor, incluindo um recurso suficientemente abundante para que seres humanos e animais não compitam entre si e técnicas de caça complementares. Geralmente o ingrediente em falta é uma comunicação eficaz. “Teremos o mesmo objectivo? E como vamos coordenar-nos de modo a fazermos isto juntos? E quando é a altura certa para fazê-lo?”, pergunta. “Evoluir em conjunto num sistema deste género pode implicar muitas tentativas e erros, tanto para os seres humanos como para os animais.”

Historicamente, o mutualismo pode ter sido mais generalizado quando as pessoas precisavam de forragear, caçar e pescar o seu alimento. Existem registos de orcas que ajudavam pescadores de baleias-jubarte aborígenes e imigrantes escoceses no século XIX a capturar baleias de bossa e outras espécies no sudeste da Austrália, sendo posteriormente recompensadas com uma porção da carne. Na América do Norte, os povos indígenas caçavam em cooperação com os lobos, segundo uma investigação realizada pelo biólogo evolutivo Raymond Pierotti, da Universidade do Kansas. Esta relação interdependente, que possivelmente remontava ao Paleolítico, poderá ter contribuído para a domesticação dos cães quando os caçadores escolheram selectivamente associar-se a lobos mais sociáveis e menos agressivos.

Dado o nosso afastamento das práticas de caça e forrageamento, salvaguardar as colaborações ainda existentes entre seres humanos e animais selvagens torna-se cada vez mais importante, segundo um ensaio publicado em 2022 por Spottiswoode, Cantor, Pierotti, Wood e outros colegas.

Os lobos foram praticamente eliminados dos estados contíguos dos EUA através da caça, conduzindo ao desaparecimento da relação de caça conjunta entre lobos e humanose o massacre das baleias – incluindo a matança intencional de várias orcas cooperantes por colonos europeus – contribuiu para pôr fim à cooperação entre orcas e humanos na Austrália.

Existem actualmente menos de 80 golfinhos de Irrawaddy, o que ameaça as relações de pesca entre golfinhos e humanos no Myanmar. E o aumento da pesca industrial, do tráfego naval e da poluição das vias aquáticas no Brasil fez com que restem apenas duas aldeias que pescam tainhas em cooperação com os botos-de-Lahille. Além disso, os métodos de caça e pesca contemporâneos, como as armas e os barcos a motor, reduziram a necessidade de as pessoas cooperarem com os animais e o aumento do risco de ferimentos conduziu ao afastamento de potenciais parceiros animais.

No que diz respeito ao indicador-médio e aos apanhadores de mel, a economia, as alterações no uso da terra, o crescimento demográfico e outros factores também são aspectos a considerar. A ascensão da apicultura e a disponibilidade de adoçantes alternativos, baratos e facilmente acessíveis levaram à diminuição da procura de mel silvestre, diz Wood. “As zonas selvagens capazes de suportar colónias de abelhas estão cada vez mais afastadas das comunidades locais, por isso as pessoas estão a ser impedidas de aceder aos seus locais tradicionais de forrageamento, diz.

Por fim, o conhecimento essencial para a caça, pesca e forrageamento cooperativos está a desaparecer à medida que as novas gerações fogem das práticas de trabalho intensivo – e frequentemente da vida rural em geral. Segundo os investigadores, a perda destas tradições tem repercussões muito para além das comunidades locais que as praticam. “Há qualquer coisa quase mítica em ser conduzido pela floresta por um animal selvagem, por uma ave”, diz Wood. “Dá-nos um vislumbre de um tipo de relação completamente diferente entre o ser humano e as outras espécies e faz-nos reconhecer que existem muitas outras formas de os seres humanos existirem neste mundo.” 

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.