Reconhecer-se-ão os ratos ao espelho? Este estudo indicia que sim.

Ratos em laboratório apresentaram, pela primeira vez, sinais de conseguirem reconhecer a sua própria imagem ao espelho. Este comportamento ocorreu no âmbito de um estudo recentemente publicado na revista científica Neuron.

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SHUTTERSTOCK / Szasz-Fabian Jozsef

A investigação, levada a cabo por cientistas da Universidade do Texas, consistiu na introdução de ratos em caixas com uma dada secção munida de um espelho. Após um período de habituação de 13 dias, os investigadores marcaram as cabeças dos animais (a branco, em ratos de cor preta) e avaliaram o seu comportamento.

Com alguma surpresa, os dados – avaliados com a ajuda de ferramentas de deep learning – revelaram que os ratos, quando se encontravam em frente ao espelho, redobravam os esforços de limpeza na região da mancha, o que indicia que reconheciam a sua imagem. Mais, ratos com uma mancha da cor do pêlo não apresentavam este comportamento, e também não o faziam ratos que tivessem sido criados entre ratos da cor oposta ou sem interacções sociais de todo – adicionalmente, este comportamento também não foi registado quando o tamanho da mancha foi reduzido. O auto-reconhecimento parece estar, assim, dependente não só de estímulos visuais, mas também da socialização.

Em seguida, a equipa de investigadores tentou identificar no cérebro que regiões estavam associadas a este comportamento, tendo conseguido localizar níveis particularmente elevados de actividade neuronal numa área do hipocampo que se sabe ter ligações aos processos de memória e às emoções. Esta actividade também ocorria quando os ratos avistavam um outro rato de cor semelhante à sua, mas não quando estes eram de cor distinta.

Assim, estes resultados apontam para que a socialização tenha um papel determinante na obtenção desta capacidade em ratos, em linha com o acontece com as restantes espécies que tiveram resultados semelhantes previamente e que são tendencialmente sociais.

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CC

O teste do espelho – um babuíno a olhar para o seu próprio reflexo. Fotografia de Moshe Blank

O que é o teste do espelho?

Desenvolvido na sua forma inicial em 1970 pelo psicólogo George Gallup, é um teste que avalia a capacidade de um animal de se reconhecer a si mesmo visualmente. Na sua forma mais simples, consiste em introduzir um espelho no habitat (natural ou laboratorial) do animal, dar-lhe tempo para se habituar à sua presença e, mais tarde, colocar algum tipo de sinal no seu corpo que não lhe seja possível visualizar sem a ajuda do espelho. Se, ao ver o seu reflexo no espelho, o animal tocar a área afectada no seu próprio corpo, considera-se que entende que o reflexo no espelho não é de um animal diferente, mas a sua própria imagem.

Pensado originalmente para testar esta capacidade nos grandes símios, com resultados positivos (menos conclusivos nos gorilas, o que poderá dever-se à relutância dos mesmos, por motivos comportamentais, de olhar o seu reflexo nos olhos, considerado um sinal de agressão), ao longo dos anos outras espécies passaram este teste. Entre elas, encontram-se espécies de inteligência inegável como o elefante-asiático, os golfinhos-roazes, as orcas ou as pegas-rabudas, mas também espécies menos óbvias como o pombo-das-rochas, certas espécies de formigas e até mesmo uma espécie de peixe, o bodião-limpador. Cães, polvos, papagaios e até mesmo os humanos com menos de dois anos geralmente não são capazes de se reconhecer, tendendo a interpretar o reflexo como outro membro da sua espécie ou simplesmente a ignorá-lo.

Os ratos vêm assim juntar-se, na sua capacidade de auto-reconhecimento (e implícita auto-cognição) a um grupo bastante restrito, embora em crescimento à medida que vamos aumentando o nosso conhecimento à cerca das espécies com que convivemos.

Um potencial candidato a demonstrar esta capacidade é a jamanta, peixe com a maior capacidade cerebral relativa existente, que já demonstrou em cativeiro indícios de que talvez se reconheça no seu próprio reflexo. No entanto, à data não existem ainda estudos que o comprovem. 

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