Normalmente, a designação de uma determinada espécie remete-nos para uma característica do animal descoberto (Vespa velutina), para a sua origem (Castor canadensis) ou até para o nome de um importante cientista (como é o caso da espécie piscícola Pachycara saldanhai, que homenageia o biólogo marinho Luiz Saldanha). No entanto, o espaço para a criatividade na nomenclatura binominal, como veremos nos dez exemplos abaixo, é generoso: 

1. As rãs do género Mini

O género Mini corresponde a um grupo de muito pequenas rãs (na verdade, as mais pequenas rãs do mundo) que habitam no solo coberto de folhas das florestas de Madagáscar. As três espécies descritas para este género por Mark Scherz e o resto da sua equipa, chamam-se, respectivamente Mini mum, Mini scule e Mini ature. Curiosamente, este estudo apresenta também uma ligação a Portugal, tendo sido co-financiado pela FCT, Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

Mini mum
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Um macho de Mini mum, na Reserva Especial de Manombo, no Sul de Madagáscar. Fonte: PLOS One

 

2. Inúmeros animais com nomes baseados na bibliografia de J.R.R. Tolkien

O escritor da trilogia O Senhor dos Anéis é um dos autores cuja obra está mais representada na nomenclatura científica. As homenagens variam entre referências directas ao seu nome, como no caso da aranha Drassodela tolkieni, referências (inclusive duplas) a personagens da sua obra literária como o dipluro cavernícola Gollumjapyx smeagol, e a palavras inventadas por Tolkien que deixaram a sua marca nas borboletas do género Vanima (“beleza”, em élfico). 

3. "BERNIE", "ZECA" E JOSÉ MÁRIO 

Quando José Cerca, um biólogo português a tirar o doutoramento na Noruega, obteve os resultados da análise genómica de amostras de poliquetas do género Stygocapitella recolhidas em vários pontos do globo, deparou-se com uma série de novas espécies crípticas. Isto é, espécies sem a possibilidade de identificação a nível específico com base em critérios morfológicos observáveis.

Assim, algumas espécies receberam o nome da zona onde foram recolhidas (S. pacifica), de um cientista da área (S. westheidei, em honra de Wilfried Westheide), mas outras receberam nomes de personalidades caras ao cientista. É o caso de S. zecai e S. josemariobrancoi, em homenagem aos cantautores José Afonso e José Mário Branco, cuja música acompanhou o biólogo durante os trabalhos de campo.

Já a nomeação da S. bernei, uma espécie norte-americana dedicada a Bernie Sanders, vai além do apreço pessoal pelo político Democrata. A escolha foi inspirada por uma interacção com o dono de um dos terrenos onde foram captadas amostras, que pôs como condição da recolha o apoio a um progressista, como era o caso do senador do Vermont.

Qual a motivação para estes nomes? À National Geographic Portugal, José Cerca responde: “Sem liberdade não há ciência

4. Look at This! (“Olha para Isto!”)

Às vezes, um nome estranho pode ser só uma coincidência curiosa: é o caso deste género australiano de moscas-do-kelp, cuja designação alude à palavra "mar" em grego antigo, visto que estes animais são encontrados em zonas litorais.

No entanto, a grafia é idêntica à da palavra inglesa para “isto” (“this”), o que originou, para além de algumas piadas, um poster que o cientista que a descreveu exibe com orgulho no seu gabinete, com uma imagem da espécie e a frase em inglês “Look at This!” (Olha para This/Isto!)

5. Trimeresurus salazar

Esta espécie de víbora descrita na Índia em 2020 deve, em última análise, o seu nome ao fundador do Estado Novo, mas não directamente. É, isso sim, uma referência a Salazar Slytherin, uma personagem do universo da saga Harry Potter, o fundador de uma das casas de Hogwarts que tinha a habilidade de falar com cobras. No entanto, JK Rowling, a autora dos livros, que viveu vários anos em Portugal, já admitiu ter-se inspirado no ditador para nomear esta personagem.  

6. Furia infernalis

O interessante sobre o verme descrito pelo cientista sueco Carl Lineu com o nome Furia infernalis é que este nunca terá existido. Ao ser picado por um animal não identificado (alegadamente um moscardo) que lhe causou fortes dores, Lineu ter-se-á convencido que o animal era seguramente um pequeno verme que se enfiava pela carne adentro, causando dores excruciantes e sendo impossível de retirar. Assim, incluiu-o no seu Systema Naturae e deu-lhe um nome referenciado a “fúria dos infernos”. Mais tarde, admitiria que este provavelmente nunca teria existido, relegando assim este nome para os anais da criptozoologia.

7. Scrotum humanum

primeiro fóssil de um dinossauro alguma vez descrito recebeu um nome curioso. Um fóssil parcial da cabeça de um fémur acabou por ser chamado de Scrotum humanum por Richard Brookes em 1763 pela sua semelhança com um escroto humano. Muito mais tarde, já no século XX, este espécime seria reclassificado de acordo com a nomenclatura entretanto atribuída a outros fósseis da mesma espécie, o género fóssil Megalosaurus.

escrotum
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Capa de Natural History of Oxfordshire, de Robert Plot, 1677 (à direita), e ilustração de uma extremidade inferior fossilizada de um presumível fémur de Megalosaurus (à esquerda) retirada da placa VIII, fig. 4 desse livro. O osso foi novamente descrito por Richard Brookes em 1763 e intitulado Scrotum humanum.

8. Notamacropus

Ao rever a taxonomia de espécies de wallabies australianos, Lyndall Dawson e o cientista e escritor Tim Flannery criaram um subgénero (mais tarde elevado a género) englobando algumas espécies antes classificadas no género Macropus, chamando-lhe oficialmente Notamacropus – da aglutinação do latim nota (listra) e macropus (canguru). No entanto, os próprios autores confessam que esta escolha não foi inocente, uma vez que o nome escolhido pode ser igualmente lido como “not a macropus” (“não é um macropus”).

9. Ninjemys oweni

Esta tartaruga fóssil, que viveu na Austrália do Pleistocénico, começou por ser descrita como outra espécie, o varano gigante Megalania (Varanus priscus). No entanto, quando se percebeu que se estava perante um animal totalmente distinto, foi rapidamente reclassificada no género Meioania, sendo o restritivo específico que lhe foi atribuído, oweni, uma homenagem a Richard Owen, importantíssimo paleontólogo.

Em 1992, uma reclassificação levada a cabo por Eugene Gaffey levou a que fosse criado um novo género para a incluir. É possível que Gaffey estivesse a ver demasiados desenhos animados na altura, porque o nome que escolheu foi… Ninjemys, juntando a palavra Ninja ao termo latino para tartaruga, “emys”, ou seja, “tartaruga ninja”.

Ninjemys oweni
CC-BY-SA-4.0

Modelo 3D de Ninjemys oweni. Autor: Petr Menšikov

10. Isbergia planifrons VS Warburgia crassa

Nos anos 20 do século XX, dois paleontólogos suecos usaram a nomenclatura científica para se atacarem mutuamente.

Elsa Warburg, ao descrever uma nova espécie de trilobite, criou o género Isbergia para atacar o seu colega Orvar Isberg, acrescentando-lhe o restritivo específico planifrons, ou seja, “cabeça lisa”, uma expressão sueca que significa “estúpido”. Em resposta, Isberg mais tarde classificaria uma nova espécie fóssil de mexilhão como Warburgia crassa (“a gorda da Warburg”).