É um mistério como este animal consegue sobreviver. O sono surpreendentemente curto do elefante-marinho-do-norte debaixo de água pode ser uma forma de evitar predadores – uma descoberta intrigante do primeiro estudo de sono realizado com mamíferos marinhos em estado selvagem.

O elefante-africano detém o recorde do mamífero que menos dorme – cerca de duas horas por dia – mas agora o elefante-marinho está a disputar-lhe o título.

Experiências recentes mediram ondas cerebrais de elefantes-marinhos-do-norte na baía de Monterey, na Califórnia, revelando que os animais dormiam apenas uma média de duas horas por dia ao longo dos sete meses que passavam no mar. É um feito impressionante, tendo em conta que os gorilas dormem 12 horas por dia, os cães dormem mais de dez e os leões até 20 horas.

Jessie Kendall-Bar, exploradora National Geographic e investigadora da Universidade da Califórnia (UC), em Santa Cruz, descobriu esta capacidade dos elefantes-marinhos enquanto investigava a forma como estes grandes animais, cujos machos possuem um focinho em forma de tromba, dormiam centenas de metros abaixo da superfície do oceano.

No primeiro estudo de sono realizado com mamíferos marinhos em estado selvagem, ela descobriu que, em mar aberto, os elefantes-marinhos dormem menos de duas horas por dia – dormindo mais de dez horas por dia em terra.

“Eles conseguem ter estes estilos de vida duplos”, diz Kendall-Bar, Exploradora da National Geographic que liderou um estudo sobre o fenómeno publicado em Abril na revista “Science”. “Um mamífero que demonstra este nível de flexibilidade é algo sem precedentes.”

Testando o novo equipamento

Observações prévias tinham demonstrado que, em mar aberto, os elefantes-marinhos vêm à superfície durante poucos minutos de cada vez, entre mergulhos de dez a 30 minutos. Por isso, os cientistas sabiam que eles deveriam dormir debaixo de água. Apesar disso, “sabemos muito pouco”, diz Daniel Costa, co-autor do estudo, investigador da UC Santa Cruz e também Explorador da National Geographic. Roxanne Beltran, igualmente Exploradora da National Geographic Explorer na UC Santa Cruz, foi uma das autoras do artigo.

animal que dorme menos

Elefantes-marinhos-do-norte e leões-marinhos da Califórnia descansam no Refúgio Nacional de Vida Selvagem das Ilhas Farallon, na Califórnia. Os machos de elefante-marinho podem pesar mais de 2.000 quilogramas. Fotografia de Frans Lanting, Nat Geo Image Collection.

Para descobrir mais, Kendall-Bar desenvolveu uma touca com o mesmo tipo de sensores utilizados para fazer estudos de sono em seres humanos. O dispositivo é à prova de água, capaz de suportar pressões elevadas e suficientemente sensível para detectar ondas cerebrais através da camada espessa de gordura existente na cabeça do animal.

Em 2019, no Marine Mammal Center, um hospital veterinário em Sausalito, Kendall-Bar teve a oportunidade de testar a touca num elefante-marinho adormecido chamado Libélula, que viera até ao centro para receber cuidados médicos. O dispositivo funcionou: “a nossa primeira confirmação de que seríamos capazes de detectar algo através de centímetros de gordura”, diz. Próxima paragem: mar aberto.

Kendall-Bar testou três jovens fêmeas selvagens de elefante-marinho. Utilizando um adesivo, colocou a touca numa delas enquanto estava deitada na praia. Ela mergulhou na água e regressou dois dias mais tarde, deixando-a remover a touca. As outras duas foram equipadas e deslocadas do Parque Estadual de Año Nuevo para a vizinha praia de Asilomar, em Monterey, e os instrumentos foram recuperados dias mais tarde.

Espiral de sono

As toucas recolheram dados sobre as ondas cerebrais, o ritmo cardíaco, a profundidade de mergulho e o movimento dos animais para determinar se estavam a dormir. Kendall-Bar utilizou os dados para extrapolar padrões de sono ao longo do tempo em animais adultos.

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Uma jovem fêmea de elefante-marinho, com a alcunha de Snoozy Suzy the Superweaner, forneceu os primeiros registos de sono em estado selvagem no ambiente natural dos elefantes-marinhos. Suzy, na imagem fotografada no Parque Estadual de Año Nuevo, recebeu a sua alcunha (super mamadora) porque foi amamentada por duas fêmeas e pesava 180 quilogramas com dois meses de vida. Fotografia de Jessica Kendall-Bar.

Descobriu que os elefantes-marinhos não dormem duas horas seguidas, fazendo antes uma série de “sestas rápidas”, com menos de 20 minutos cada. Partindo da superfície, os elefantes-marinhos adultos dão mergulhos de dez minutos a grande profundidade, normalmente entre 90 e 300 metros.

Nesta altura, o animal entra na primeira fase do sono, o sono de ondas lentas. Depois vagueia até ao sono REM, ficando paralisado. O seu corpo vira-se ao contrário: Kendall-Bar chama-lhe “espiral de sono”.

O sono REM pode parecer perigoso a grandes profundidades, sobretudo devido à incapacidade de fugir dos predadores. “Um animal fazer isto debaixo de água e ficar naquele estado paralítico é algo que simplesmente me arrepia”, diz Terrie Williams, co-autora do estudo e investigadora da UC Santa Cruz.

Evitando predadores

No entanto, o mais provável é que os elefantes-marinhos durmam a profundidades raramente frequentadas pelos seus principais predadores – os tubarões e as orcas.

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Os elefantes-marinhos migram em busca de alimento, passando meses no mar e mergulhando frequentemente a grande profundidade. Regressam às suas colónias no Inverno para acasalar e parir. Fotografia de Bates Littlehales.

“O elefante-marinho está basicamente a usar a sua capacidade de mergulhar a grande profundidade como mecanismo de protecção, diz Kendall-Bar, actualmente investigadora de pós-doutoramento na Scripps Institution of Oceanography. “Não tem de manter um olho aberto ou de ficar acordado. Tem o cérebro todo a dormir.”

Ela especula que os elefantes-marinhos tenham desenvolvido este comportamento de sono devido à sua necessidade de procurar alimento em mar aberto durante longos períodos para sustentar o seu elevado peso, que pode alcançar cerca de 2.000 quilogramas. “Foram concebidos para estar muito tempo no mar.”

“Aquilo que é realmente interessante neste estudo é ser o primeiro a examinar a actividade das ondas cerebrais e outros indicadores de sono num mamífero marinho com um domínio livre que mergulha a grande profundidade”, diz Jane Khudyakov, professora associada do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade do Pacífico, em Stockton, na Califórnia, que não participou na investigação.

“A maioria dos estudos de sono prévios com mamíferos marinhos foram realizados em cativeiro [submersos em piscinas] ou em terra.”

Khudyakov também adverte que comparar as duas horas de sono de um elefante-marinho com as nossas sete horas, por exemplo, não é assim tão linear. Para começar, a necessidade de sono REM e não-REM varia bastante entre mamíferos, mesmo que sejam parentes próximos.

“Talvez nos pareça pouco porque não compreendemos plenamente a diversidade das adaptações do sono e a função do sono em animais diferentes”, escreveu num e-mail.

“Um grande privilégio”

O facto de os elefantes-marinhos conseguirem sobreviver em mar aberto dormindo tão pouco permanece um mistério.

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Os elefantes-marinhos-do-norte (fotografados no Parque Estadual de Año Nuevo) dormem até dez horas por dia durante os meses que passam em terra, num acentuado contraste com os seus hábitos oceânicos. Fotografia De Frans Lanting, Nat Geo Image Collection.

Costa diz que os animais de grande porte, como os elefantes-africanos, têm metabolismos mais lentos, o que significa que podem dormir menos. É possível que se passe o mesmo com os elefantes-marinhos. Williams especula que os elefantes-marinhos adiem os “processos de reparação” que ocorrem durante o sono até chegarem à praia e poderem descansar a sério.

Quanto a Kendall-Bar, em vez de chamar ao seu estudo uma descoberta, ela considera-o um grande privilégio. “Os animais fazem isto há tanto tempo e sinto que é uma honra poder observá-los e conhecer melhor o seu segredo.”

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com

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