As serpentes fêmea possuem dois clítoris perfeitamente distintos, equiparáveis aos dois hemipénis dos machos, que podem também desempenhar uma função sexual. É isto que se depreende do primeiro trabalho científico dedicado ao estudo dos órgãos sexuais destes animais, publicado na revista Proceedings of the Royal Society B.

Os investigadores chegaram a esta conclusão depois de dissecarem os genitais das fêmeas de nove espécies de quatro famílias de serpentes. Identificaram clítoris com entre um e sete milímetros e uma estrutura perfeitamente diferenciada, dividida em duas partes, em todos os animais. Estudos anteriores já haviam localizado estas estruturas, mas ainda não se comprovara o que eram. Em alguns casos, tinham sido confundidos com hemipénis (o órgão sexual dos machos), ou glândulas não desenvolvidas. Contudo, os investigadores descartaram esta possibilidade ao descobrirem que estas estruturas não possuíam os espigões característicos dos hemipénis dos machos.

Estudo anatómico
Luke Allen, Proceedings of Royal Society B.

Estudo anatómico de duas fêmeas adultas da víbora Acanthopis antacticus mostrando os hemiclítoris.

Um órgão ignorado pela ciência

O facto de os investigadores terem confundido este órgão e descartado completamente que desempenhasse algum tipo de função transmite uma ideia do pouco conhecimento científico que, segundo os autores do estudo se tem sobre genitais femininos em comparação com os masculinos.

O clítoris exerce uma função chave na reprodução

“Nos animais amniotas, o número de estudos sobre os genitais femininos é ultrapassado pela abundante atenção prestada aos genitais masculinos, apesar de haver algumas provas de que os genitais femininos, sobretudo o clítoris, desempenham um papel essencial na reprodução”, refere o texto do estudo, no qual se especifica que as variações de morfologia do clítoris podem estar relacionadas com uma maior aptidão reprodutiva. Pensa-se que este órgão sexual incentiva as fêmeas a copular e formar vínculos sociais, mas também poderá desempenhar outras funções como lubrificação vaginal, relaxamento do orifício vaginal ou preparação do aparelho reprodutor para receber o esperma do macho.

Um órgão muito parecido com o dos MAMÍFEROS

Neste sentido, os cientistas ficaram surpreendidos com a semelhança entre o hemiclítoris e o clítoris dos mamíferos. Tal como este último, o órgão sexual das serpentes é composto por um tecido erecto, que poderá estar relacionado com os comportamentos de cortejamento e acasalamento e ingurgitar-se com sangue. Poderá também ser sensível ao tacto, como o dos mamíferos, entre os quais nos encontramos e, segundo o estudo, promover um acasalamento mais longo e, por conseguinte, uma fecundação mais bem-sucedida.

POSsível PrAzER SEXUAL?

Na natureza, qualquer órgão anexo ao aparelho reprodutor de ambos os sexos está associado a um único objectivo: perpetuar a espécie, seja através do reconhecimento do estado sexual de outro indivíduo (cio), a identificação do sexo oposto ou a demarcação de território e pensava-se que o hemiclítoris poderia ter esse papel: excitar as serpentes fêmea a fim de assegurar o sucesso reprodutivo.

No entanto, o estudo das terminações nervosas das serpentes poderá responder a uma pergunta inevitável: será possível que o hemiclítoris sirva para proporcionar prazer? “Agora que sabemos que existe, como é, e que possui um tecido eréctil, é inevitável que façamos essa pergunta, afirma Crowe-Riddel, investigadora principal do estudo. As novas investigações poderão trazer algumas surpresas.