Orcas: Uma caçada meticulosa num canal da Antárctida

“Este comportamento [o varrimento com ondas] não é inato. Foi aprendido e aperfeiçoado ao longo de décadas”, lembra o realizador e Explorador da National Geographic Bertie Gregory, que observou de perto uma caçada que passa pela utilização da água como arma.

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Orcas
Bertie Gregory

Observámos de perto um comportamento das orcas raramente visto: a utilização da água como arma. Acelerando em direcção à foca, as orcas viram-se de lado em sintonia. O impulso cria uma grande onda.

Até há pouco, estava a descansar numa plataforma de gelo no interior de um canal antárctico. De súbito, surgiram à superfície as cabeças de três orcas, oscilando para cima e para baixo. Não havia dúvidas: preparavam-se para caçar.

Nesta plataforma de gelo marinho, a foca com quase 500 quilogramas seria inalcançável para a maioria dos predadores marinhos, mas estas orcas – uma matriarca com a filha e a neta – são três de cerca de cem animais conhecidos que aperfeiçoaram uma técnica de caça conhecida como varrimento com ondas. Em conjunto, transformam a água numa arma.

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Gelo flutua num canal da Antárctida enquanto uma orca procura focas para caçar. No passado, esta região tinha uma cobertura de gelo muito maior. Em Fevereiro de 2023, o gelo marinho da Antárctida atingiu um mínimo histórico.

Tendo identificado o seu alvo, as orcas formam uma linha de combate e começam a atacar a plataforma. Mesmo antes de lá chegarem, viram-se de lado num único movimento sincronizado e mergulham debaixo de água. O impulso gera uma onda tão forte que cobre a plataforma, rachando a sua superfície e abanando a foca cambaleante. Lenta e metodicamente, repetem o ataque. O gelo volta a fracturar-se. Ao terceiro ataque, a onda projecta a foca, fazendo-a cair no mar. Ela esforça-se para subir para um pedaço de gelo e desaparece de vista. Foi agarrada por uma baleia vinda de baixo.

“É uma cena sinistra”, diz o realizador Bertie Gregory, que monitoriza uma população conhecida como B1 há uma década. “Elas resolvem problemas recorrendo a um trabalho de equipa complexo. Usam a água como uma ferramenta.” Por vezes, basta uma onda e cinco minutos para atirar a foca ao mar. Noutras, um bando pode gerar 30 ondas, demorando cerca de duas a três horas até obter a sua presa. Os cientistas raramente presenciam caçadas infrutíferas. “Este comportamento não é inato. Foi aprendido e aperfeiçoado ao longo de décadas”, diz Bertie.

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Uma orca morde uma foca-caranguejeira. Ao contrário das dóceis focas de Weddell, as caranguejeiras são agressivas e podem ser difíceis de atirar à água. À medida que o degelo mantém um número cada vez maior de focas em terra, estas baleias são forçadas a caçar tudo o que conseguirem encontrar.

No entanto, à medida que a Antárctida aquece e o gelo desaparece, as focas de Weddell passam cada vez mais tempo em terra, fora do alcance das orcas. Para testemunharem a forma como as orcas da população B1 lidam com um habitat em aquecimento, os cientistas identificaram individualmente cerca de cem indivíduos. Descobriram que o grupo está a perder anualmente cerca de 5% da sua população. “Não sabemos se este grupo se extinguirá ou simplesmente se adaptará o seu comportamento”, diz o realizador. No entanto, uma vez que as orcas começam a dispor de um número cada vez menor de oportunidades para produzirem ondas, “assistiremos à extinção de uma cultura”.

Artigo publicado originalmente na edição de Novembro de 2023 da revista National Geographic.