Desde que a vida é vida que assistimos, por vezes sem nos apercebemos, à maior corrida às armas que alguma vez se passará diante de nós. Pode ser uma visão relativamente especial da biologia, mas na natureza nada acontece por acaso. 

Seja para onde for que olhemos, podemos encontrar inúmeros exemplos disso: alguns tão evidentes como o veneno libertado por diversas espécies de plantas e animais ou a coloração críptica e capacidade de camuflagem de outras. Os sistemas sofisticados de comunicação e as estratégias de caça especializadas até à perfeição são apenas diferentes formas que a vida desenvolveu para se adaptar a um mundo em constante pé de guerra. Um mundo onde a máxima é matar ou morrer, sobreviver ou perecer, comer ou ser comido e no qual tudo vale, desde a força mais bruta até à mais subtil sedução.

Como vemos, os exemplos são intermináveis. Noutras ocasiões, porém, como se fôssemos incapazes de entender uma tecnologia desenvolvida em segredo nos bunkers subterrâneos onde a evolução planeia o seu próprio golpe, estes sofisticados mecanismos destinados à sobrevivência podem passar despercebidos aos nossos olhos ou, como no caso abaixo, aos nossos ouvidos.

Numa tentativa de ilustrar estas palavras, vamos falar em pirilampos. Os pirilampos são conhecidos pelo seu brilho único e a luz que emitem graças a uma reacção química provocada por uma enzima chamada luciferase. A luz dos pirilampos desempenha um papel essencial na vida destes insectos, uma vez que podem utilizá-la para diferentes fins, como acasalar ou atrair presas. E uma vez que os seus corpos contêm veneno, outros investigadores também propuseram a possibilidade de estes lampejos de luz serem também um sinal apossemático, ou seja, um aviso para potenciais predadores.

A luz dos pirilampos pode ser utilizada para diferentes fins, como acasalar ou atrair presas.

Com efeito, os predadores mais habituais dos pirilampos incluem os morcegos, animais sobejamente conhecidos pela sua magnífica audição, mas também por uma visão deficiente, o que faz com que o sinal luminoso intermitente dos pirilampos seja ineficaz para dissuadir os morcegos de devorá-los. Foi precisamente isso que fez com que uma equipa de investigadores da Universidade de Tel Aviv se interrogasse se, para além da luz, os pirilampos poderiam dispor de outros mecanismos de defesa contra os morcegos.

CONTRAMEDIDAS SONORAS PARA um INSECTO EMISSOR DE LUZ

“A ideia para este trabalho surgiu acidentalmente durante um estudo sobre a ecolocalização dos morcegos”, diz Yossi Yovel, director da Escola de Neurociência de Sagol, membro das Escolas de Engenharia Mecânica e de Zoologia da Faculdade de Ciências da Vida George S. Wise e autor principal de um estudo publicado na revista iScience. “Estávamos a deambular numa floresta tropical com microfones capazes de gravar as altas frequências dos morcegos, quando, de repente, detectámos uns sons desconhecidos em frequências semelhantes, provenientes de pirilampos”, recorda.

“Um olhar mais profundo utilizando vídeo de alta velocidade revelou que os pirilampos produziam estes sons através do movimento das suas asas”, explicou Ksenia Krivoruchko, a doutoranda que co-dirigiu o estudo. Um ultra-som que nem os seres humanos, nem os próprios pirilampos conseguem ouvir, relata o trabalho intitulado Fireflies produce ultrasonic clicks during flight as a potential aposematic anti-bat signal. Isto levou os investigadores a propor a hipótese de estes sons se destinarem aos ouvidos dos morcegos, mais especificamente para os manterem afastados dos pirilampos venenosos, sendo, por conseguinte, uma espécie de “armadura musical”. “Os pirilampos não conseguiam detectar os seus próprios sons, o que nos levou a descartar a possibilidade deste mecanismo se destinar à comunicação interna da espécie”, esclarece Krivoruchku.

Após esta descoberta acidental, a equipa do laboratório do professor Yovel examinou três géneros diferentes de pirilampos comuns no Vietname (Curtos, Luciola e Sclerotia), e uma espécie israelita do género Lampyroidea, constatando que todas produzem este tipo de ultra-sons únicos, mas nenhuma consegue escutá-los. Pode, então, concluir-se que os pirilampos desenvolveram um mecanismo de defesa especial especificamente contra os morcegos, perguntam os investigadores.

Os investigadores propõem a hipótese de estes sons se destinarem aos ouvidos dos morcegos, mais especificamente para os manter afastados dos pirilampos.

Yovel sublinha que esta afirmação não foi provada no estudo, mas várias características apontam para esta conclusão. Em primeiro lugar, o facto de os pirilampos não conseguirem ouvir o som, mas os morcegos sim, e de estes o utilizarem para encontrar os pirilampos, faz os investigadores pensar que é altamente provável que estas alterações sejam uma espécie de sinal de aviso, ou medida dissuasora, emitido pelos insectos.

Krivoruochku acrescenta que a descoberta de ultra-sons nos pirilampos é, por si, só um contributo importante para o estudo das relações entre predador e presa: “a ideia de haver sinais de aviso que o próprio emissor não consegue detectar é conhecida no mundo das plantas, mas bastante rara entre os animais”, diz a investigadora. “Encontrar esta ‘batalha musical’ entre pirilampos e morcegos pode abrir caminho para futuras investigações e possivelmente dar lugar à descoberta de toda uma gama de mecanismos de defesa baseados no som e desenvolvidos por animais contra possíveis predadores”, acrescenta, sobre uma descoberta que poderá assemelhar-se à descoberta da pólvora. Estudar os limites deste novo tipo de escalada tecnológica, que escapava aos nossos sentidos, promete vir a ser apaixonante.