Zonas Húmidas: Do Pantanal à Ria Formosa

A Convenção sobre Zonas Húmidas de Importância Internacional, de 1971, marcou um antes e um depois na protecção e no reconhecimento destas áreas. Em todo o mundo, há mais de 2.400 zonas húmidas classificadas.

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Um sistema lagunar muito raro em ilhas vulcânicas, a Fajã da Caldeira de Santo Cristo está classificada como Sítio Ramsar. Pode ser apreciado em São Jorge, nos Açores. 

As zonas húmidas protegidas a que chamamos hoje Sítios Ramsar são um dos legados mais notáveis da histórica “Convenção sobre Zonas Húmidas de Importância Internacional, especialmente como Habitat de Aves Aquáticas”, que decorreu na cidade de Ramsar, no Irão, em 1971.

Este contrato multilateral que reconhece, por exemplo, que “as aves aquáticas nas suas migrações periódicas podem atravessar fronteiras e portanto devem ser consideradas como um recurso internacional” tem como signatários mais de 170 países, incluindo Portugal que o subscreveu em 1980

Nesta convenção foram consideradas zonas húmidas “áreas de pântano, charco, turfa ou água, natural ou artificial, permanente ou temporária, com água estagnada ou corrente, doce, salobra ou salgada, incluindo áreas de água marítima com menos de seis metros de profundidade na maré baixa”. Ficou também escrito na pedra que as aves aquáticas são “ecologicamente dependentes” destas. 

Neste artigo, destacamos dez Sítios Ramsar que merecem ser conhecidos – quatro deles ficam em Portugal.

Parque Nacional das Everglades

Imortalizado em diversos filmes, este enorme parque natural norte-americano no sul do estado da Florida está classificado como Sítio Ramsar devido não só à sua diversidade de habitats sub-tropicais, mas também à sua grande biodiversidade e importância para as aves migratórias.

Está em curso um projecto que visa aumentar a quantidade de água no sistema das Everglades para os níveis historicamente mais adequados. Chama-se Comprehensive Everglades Restoration Plan.

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SHUTTERSTOCK / John Apte

Vista aérea das Ten Thousand Islands, no Parque Nacional de Everglades. 

Península de Cobourg

Esta península australiana tem a particularidade de ter sido não só a primeira zona húmida classificada na Austrália (e no resto da Oceânia), mas também de ter sido a primeira zona classificada ao abrigo da Convenção, em 1974.

Situada no Território do Norte australiano, abriga uma grande diversidade de habitats aquáticos, incluindo tanto zonas de água doce como salobra e salgada. Estas condições propiciam uma biodiversidade muito elevada, sendo a península lar de milhares de espécies diferentes, incluindo algumas ameaçadas a nível global, como a tartaruga-de-pente (Eretmochelys legitima) ou a seixoeira-grande (Calidris tenuirostris), e mais de 600 espécies distintas de peixes.

O Pantanal

Esta zona húmida de grandes dimensões situada maioritariamente no estado brasileiro de Mato Grosso, com mais de 135 mil hectares de área, é a maior zona de alagamento periódico das Américas, e uma importante área de confluência não só de vários rios da região, formando um delta interior, mas também dos três principais biomas da zona: o chaco, o cerrado e a floresta amazónica, que se tocam nesta região.

Devido a esta particularidade, e pese embora não possua uma grande percentagem de endemismos, é uma zona importantíssima quer em termos de regulação do ecossistema, quer em termos de biodiversidade, preenchendo vários dos critérios necessários para a sua classificação como sítio Ramsar.

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Doñana

Situada no Sul de Espanha, esta zona húmida tipicamente mediterrânea contém nos seus cem mil hectares um complexo sistema lagunar encaixado no meio de um enorme cordão dunar. O Parque Nacional de Doñana é conhecido principalmente pelo seu papel histórico como último baluarte do (felizmente hoje menos ameaçado) lince-ibérico.

Pese embora a sua extrema importância, faz parte da lista de Montreux, que identifica os Sítios Ramsar com mais necessidades de conservação, principalmente devido à extrema pressão agrícola ao redor, que levou a um abaixamento muito relevante dos níveis dos aquíferos ao seu redor e culminou recentemente na perda de estatuto da zona na Lista Verde da União Internacional para a Conservação da Natureza.

Delta Interior do NÍger

Este gigantesco delta interior, situado na zona árida do Sahel, é a segunda maior zona húmida do continente africano, mas de importância absolutamente inequívoca. Para além de sustentar comunidades relevantes de várias espécies ameaçadas e cerca de um milhão de habitantes nas suas margens, é um ponto de paragem importantíssimo para as aves migratórias, com mais de um milhão de visitantes anuais que dependem desta zona para a sua sobrevivência na sua longa viagem. Classificado em 1987, incorporou os antigos Sítios Ramsar de Lac Horo, Séri e Walado Debo/Lac Debo.

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NASA / SHUTTERSTOCK

Este ano, as cheias sazonais do rio Níger atingiram alturas invulgares no Mali. 

Delta do Selenga

Este Sítio Ramsar situado na Federação Russa inclui, nos seus mais de 12 mil hectares, a zona menos profunda do Lago Baikal, a maior massa de água de água doce do mundo. Para além desta zona albergar numerosos endemismos, é também um local de paragem ou de residência para mais de cinco milhões de aves ao longo de cada ano. Está, no entanto, condicionado por diversas actividades que ameaçam aumentar o nível das águas do lago.

EM PORTUGAL...

O nosso país tem também várias zonas húmidas classificadas como Sítios Ramsar. Destacamos quatro:

Ribeira do Vascão 

O maior rio sem interrupções artificiais que resta em Portugal, a Ribeira do Vascão é um rio de regime hídrico mediterrâneo típico, e alberga um número relevante de espécies ameaçadas, principalmente ao nível da fauna piscícola, pese embora os seus 44 hectares de área.

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Mauro Rodrigues / SHUTTERSTOCK

Vista do vale da Ribeira do Vascão, que numa boa parte do seu trajecto marca a fronteira entre o Alentejo e o Algarve

Ria Formosa

Resultado da confluência de várias ribeiras perto da foz, a Ria Formosa é um intricado sistema de lagoas e ilhas-barreira, com uma grande variedade de habitats costeiros como resultado. Para além da sua importância para as populações de aves aquáticas, possui também importantes comunidades botânicas e serve um papel muito relevante como local de maturação das larvas e alevins de diversos peixes.

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Tânia Araújo / Shutterstock

O flamingo (Phoenicopterus roseus) é um dos ex-líbris da Ria Formosa, no Algarve. 

Fajã dos Cubres e Fajã da Caldeira de Santo Cristo

Estes sistemas lagunares da ilha de São Jorge, nos Açores, são muito raros em ilhas vulcânicas e têm um grande valor ecológico e cultural.

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Rui Alexandrino / Shutterstock

Espectáculo da natureza, uma fajã entra pelo mar como uma língua de terra. Na foto, a Fajã dos Cubres, na ilha de São Jorge, Açores. 

Ilhéus das Formigas e Recife Dollabarat

Entre as ilhas de Santa Maria e São Miguel, estas zonas húmidas têm características únicas no contexto do arquipélago da Macaronésia. Pese embora alguma pressão de pesca ilegal, são consideradas em bom estado de conservação.

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Os ilhéus das Formigas, nos Açores, foram classificados como Sítio Ramsar em 2008.