Nos últimos tempos, um frio extremo assolou vastas regiões dos EUA, da Europa e da Ásia, desencadeando uma vaga de especulações e teorias da conspiração sobre a inexistência do aquecimento global.

No entanto, esta percepção errónea cai por terra quando compreendemos melhor a forma como as alterações climáticas estão a influenciar os padrões climáticos do nosso planeta.

Neve a cobrir o monumento dos fuzileiros
BONNIE CASH/UPI/SHUTTERSTOCK

A capital dos Estados Unidos da América registou no final de Janeiro de 2023 o seu primeiro nevão dos últimos dois anos. Na imagem, a neve cobre o monumento dos fuzileiros nos arredores do Cemitério Nacional de Arlington.

ESCLARECENDO CONCEITOS

O conceito de clima define-se pela média dos padrões meteorológicos de uma determinada região durante um período alargado. Inclui a média de variáveis como temperatura, precipitação, humidade e ventos, compiladas ao longo de décadas ou até séculos.

Por outro lado, o tempo atmosférico reflecte variações diárias. É essencialmente o estado da atmosfera num momento e local específicos, estando sujeito a alterações diárias ou até horárias.

Por conseguinte, um Inverno extremamente frio não invalida décadas de tendências de aquecimento global. Com efeito, as alterações climáticas estão a alterar estes padrões, causando climas médios mais quentes e flutuações mais imprevisíveis.

O PARADOXO DO ARREFECIMENTO POR AQUECIMENTO

O termo “aquecimento global”, cunhado há décadas, descreve o fenómeno através do qual os gases com efeito de estufa retêm o calor na atmosfera, fazendo subir a temperatura média do planeta.

No entanto, esta alteração atmosférica não se verifica apenas nas temperaturas mais altas. Os cientistas sabem agora que o aumento de gases como o carbono e o metano causa um leque mais vasto de alterações, incluindo fenómenos meteorológicos extremos e desastrosos.

Por exemplo, um estudo publicado em 2017 na revista Nature Geoscience e outro em 2019 na Nature Communications encontraram uma correlação entre temperaturas mais quentes no Árctico e Invernos mais frios na América do Norte. Estas alterações devem-se à mudança do jacto polar, numa corrente de ar que circula em redor do Árctico. O aquecimento do Árctico, que ocorre quatro vezes mais depressa do que no resto do planeta, enfraquece este jacto polar, permitindo que o ar frio se desloque até latitudes mais baixas.

Neve a cair
PA / CORDON PRESS

A neve cai sobre a estátua dos Beatles em Liverpool.

UM FUTURO DE CLIMA EXTREMO

Para além das temperaturas recorde e das tempestades de neve, espera-se que as alterações climáticas intensifiquem outros padrões climáticos extremos. À medida que o jacto polar abranda, as inundações e as secas podem tornar-se mais persistentes e severas. Um estudo publicado em 2019 na Science Advances prevê que os eventos climáticos extremos e mortais possam aumentar até 50 por cento no ano 2100.

Estes fenómenos não são meras especulações futuristas: já estamos a assistir aos seus efeitos devastadores. O ano passado, marcado por eventos meteorológicos recordistas, é um claro indicador daquilo que nos espera. O conhecimento científico actual alerta-nos para o facto de as temperaturas extremas, sejam altas ou baixas, serem manifestações do mesmo problema subjacente: as alterações climáticas.

Deste modo, embora um frio intenso atinga algumas regiões, isso não contradiz a realidade do aquecimento global. Pelo contrário, sublinha a complexidade do sistema climático da Terra e a urgência de abordar as alterações climáticas de uma forma mais abrangente. A ciência por detrás do fenómeno é clara: o aquecimento global está a criar um mundo de contrastes extremos, no qual o calor extremo e o frio intenso coexistem como duas faces da mesma moeda climática.