Numa manhã fresca de Outono, na região rural italiana nos arredores de Larderello, na Toscana, a paisagem enevoada recordou-me a razão pela qual esta zona recebeu a alcunha de Valle del Diavolo – o Vale do Diabo. Suposta fonte de inspiração para o Inferno de Dante Alighieri, esta terra é uma rede de fendas naturais na rocha que permite que uma mistura de vapor e gases alcance a superfície. Condutas vulcânicas chamadas fumarolas e géiseres libertam nuvens brancas na atmosfera.

Ao contrário das colinas ondulantes, das vinhas e das estradas revestidas a ciprestes de outras partes da Toscana, aqui a paisagem está decorada com dezenas de torres de arrefecimento cinzentas que emitem vapores brancos. Na estação geotérmica de Valle Secolo, o rugido ensurdecedor de uma turbina do tamanho de um automóvel elimina qualquer sensação de tranquilidade, mas a sua violenta rotação transforma vapor que sobe mais de mil metros, vindo do interior da Terra, em energia para 150.000 famílias da região.

“Quanto mais vapor conseguirmos extrair, menos petroleiros irão viajar”, disse Geoffrey Giudetti, um geólogo que trabalha na Enel Green Power, a maior operadora geotérmica da Europa, que dirige Valle Secolo e 33 outras estações geotérmicas na Toscana. Cerca de 30 por cento da electricidade toscana tem origem nesta fonte de energia subterrânea. Após a produção de electricidade, os vapores remanescentes aquecem a água dos distritos vizinhos.

Recentemente, esta energia recolhida no subsolo revelou-se um recurso vital. A invasão da Ucrânia pela Rússia sublinhou a dependência italiana dos combustíveis fósseis russos e, à medida que a guerra se prolongava, os preços da electricidade italiana subiram a pique. As centrais diminuíram a produção e as famílias começaram a desligar os aquecedores.

No entanto, os residentes da região de Larderello passaram o Inverno em casas quentes, diz Giudetti, graças às centrais geotérmicas locais que recolhem os vapores escaldantes 24 horas por dia.

Bruno Della Vedova, presidente da União Geotérmica Italiana, está convencido de que outras regiões de Itália poderão beneficiar deste recurso. Segundo um relatório do governo italiano divulgado em 2015, grande parte do país poderia funcionar graças à energia gerada por estas fontes subterrâneas de calor.

À medida que o mundo pensa em transitar para as energias renováveis, a longa experiência da Toscana na recolha de recursos geotérmicos, já com um século, destaca-se como um sinal de esperança para a estratégia energética do país.

Sacando energia da Terra

Enquanto países como a Islândia e o Quénia estão a tirar partido dos seus recursos geotérmicos, o crescimento da indústria estagnou em Itália. Os custos de montagem elevados e as dificuldades na extracção – que, quando feita incorrectamente, pode provocar graves prejuízos económicos e ambientais – são barreiras significativas. Além disso, as novas centrais encontram frequentemente a oposição das comunidades vizinhas, que temem pela sua saúde.

Operário da estação geotérmica
CLARA VANNUCCI, BLOOMBERG/GETTY IMAGES

Um operário da estação geotérmica Sasso 2, da Enel Green Power, em Larderello, Itália.

Segundo Della Vedova, a Itália encontra-se numa magnífica posição geotérmica. Situada na confluência entre as placas tectónicas africana e euro-asiática, a península itálica encontra-se sobre um complexo sistema geológico onde a rocha fundida é empurrada em direcção à superfície do planeta.

Em baixo de Larderello, diz Giudetti, um vasto reservatório de vapor e água que se estende desde cerca de 490 até 4.300 metros de profundidade, está retido entre o calor interior do Terra e uma camada de rochas argilosas pesadas que funcionam como a tampa de uma panela. As temperaturas elevadas levam à formação de vapor no interior do reservatório, proporcionando uma fonte de energia significativa.

Contudo, embora o calor do núcleo terrestre seja praticamente interminável, os fluidos que este aquece dentro do nosso planeta não o são.

“Ao longo do tempo, [os reservatórios] perdem pressão e caudal, perdendo, consequentemente, capacidade de produção”, disse Della Vedova. Ele diz que a capacidade eléctrica de Larderello diminui 20 megawatts anualmente, apesar de muito da água extraída ser novamente injectada no subsolo. Grande parte dessa perda, complementa, é compensada pela maior eficiência das novas centrais, mas restaurar as reservas de água no subsolo e utilizá-las de modo sustentável é fundamental para o futuro.

“Não podemos explorar um recurso geotérmico”, afirma Della Vedova. “Temos de cultivá-lo.”

A história geotérmica

“Nós inventamos a energia geotérmica”, diz Giorgio Simoni, um técnico local que trabalha na área há 32 anos. Em 1904, Pietro Ginori Conti, um aristocrata italiano, ligou cinco lâmpadas com um gerador alimentado pelo calor que escapava da superfície da Terra em Larderello. Uma década mais tarde, construiu a primeira central geotérmica do mundo.

Actualmente, a Enel Green Power tem 507 poços de extracção que alimentam as suas centrais. A antiga empresa nacional foi privatizada na década de 1990 e o governo italiano mudou os regulamentos em 2010 para permitir que outras empresas privadas estudassem e extraíssem recursos geotérmicos. No entanto, só a Enel construiu novas centrais.

Saber onde encontrar este recurso subterrâneo e construir uma central é mais fácil na teoria do que na prática. Procurar um reservatório geotérmico é como tirar sangue a um paciente, explica Della Vedova: as enfermeiras não espetam aleatoriamente agulhas à espera de que tudo corra pelo melhor; elas procuram veias específicas. E estudar um reservatório para averiguar se tem a temperatura e pressão adequadas para produzir electricidade suficiente pode custar milhões de dólares, diz Giudetti, com 50 por cento de probabilidades de o resultado ser negativo.

Esta barreira económica inicial impede vários países ou empresas privadas de sequer iniciarem a prospecção geotérmica, apesar de, segundo Manzella, os custos a longo prazo serem comparáveis ou até inferiores aos de outras tecnologias renováveis”.

Os vapores também geram preocupações

Os vapores emanados pelas torres de arrefecimento das centrais geotérmicas toscanas já despertaram preocupações relacionadas com a saúde entre alguns residentes.

“Não temos trânsito, nem indústrias químicas, mas temos elevadas taxas de cancro e de mortalidade”, disse Velio Arezzini, um nativo de 75 anos de Abbadia San Salvatore, um povoado a poucos quilómetros de duas centrais geotérmicas.

Arezzini, porta-voz da NOGESI, uma rede contra a energia geotérmica especulativa e poluente, fundamenta os seus receios num estudo realizado em 2012 pela Agência Regional da Saúde, que relatou anomalias na saúde local. (Um estudo de seguimento realizado em 2016 desvalorizou qualquer relação entre as torres de arrefecimento e um risco mais elevado de mortalidade ou hospitalização.)

 Empregada de balcão
CLARA VANNUCCI, BLOOMBERG/GETTY IMAGES

Uma empregada de balcão tira uma imperial Hein Vapori de Birra, uma fábrica de cerveja artesanal que produz cerveja utilizando o calor gerado pela central geotérmica de Sasso Pisano, em Itália.

Della Vedova aponta para uma sobreposição de factores que podem ter impacto na saúde de uma pessoa, sobretudo o facto de estes vales, um ponto quente geotérmico, terem químicos como o mercúrio incorporados naturalmente no seu ecossistema. Ele diz que interceptar o vapor no subsolo pode até reduzir as emissões à superfície, uma vez que o vapor não absorve mais poluentes ao atravessar as camadas rochosas.

A Enel Green Power instalou sistemas de redução de emissões nas suas fábricas para diminuir as emissões de sulfureto de hidrogénio e mercúrio. Apesar disso, segundo um estudo publicado em 2019, os possíveis impactos das emissões das centrais na região deveriam ser mais investigados.

Uso comunitário

Mario Tanda, um agricultor com 56 anos, apontou para um cano cinzento que atravessa a sua fábrica de queijo em Monterotondo Marittimo. A 800 metros de distância, a central geotérmica Nuova San Martino construída pela Enel nos terrenos confiscados à sua família, expele nuvens de vapor.

“Todos os ciclos de produção precisam de energia”, disse. O seu pai opunha-se à construção das centrais geotérmicas, mas em 2007 Tanda ligou a sua exploração agrícola à central com um sistema de canalização para obter calor barato para processar o leite das suas 800 ovelhas e fabricar queijo pecorino.

A alguns quilómetros de distância, em Sasso Pisano, Edo Volpi de 71 anos, fabrica cerveja e, em Monterotondo Marittimo, Giacomo Anterminelli cultiva courgettes e pepinos em estufas. Ambos usam o calor residual vindo de centrais vizinhas.

“Se não a usássemos, esta energia seria desperdiçada”, disse Tanda. À medida que Itália e outros países lidam com a transição para a energia limpa, as entranhas turbulentas do planeta poderão fornecer-nos uma fonte essencial de sustento.

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.