Eram seis viajantes a remar contra o vento, contra ondas cheias de estilhaços de gelo – talvez fosse a forma mais difícil de chegar à Antárctida. Em Dezembro de 2019, o explorador Fiann Paul liderou uma equipa de atletas numa expedição de remo extraordinária desde a América do Sul até ao continente coberto de gelo. Para a concluírem, teriam de percorrer 965 quilómetros num dos corpos de água mais traiçoeiros do mundo – a Passagem de Drake.

“Fria e molhada”, diz Paul, descrevendo-a. “E suja.” As ondas curtas que atingiam regularmente a embarcação eram o pior: “é como se batêssemos em paredes”. Tempestades mortíferas assolam este local feroz, onde os oceanos Pacífico, Atlântico e Austral confluem.

Icebergs
JOHN EASTCOTT AND YVA MOMATIUK

Sob os icebergs da região, o carbono – um dos principais gases com efeito de estufa – afunda-se e fica armazenado sob a superfície do mar. Locais como estes, existentes em todo o mundo, são essenciais para combater as alterações climáticas.

Nos mapas, os braços esguios do Cabo Horn e da Península Antárctica esticam-se para se tocarem, separados apenas pela Passagem de Drake, assim denominada em homenagem a Sir Francis Drake, um explorador inglês do século XVI, que também esteve envolvido no comércio de escravos. Há quem prefira chamar-lhe Mar de Hoces, numa referência ao navegador espanhol Francisco de Hoces, que poderá ter chegado a esta parte do mundo 50 anos antes de Drake.

Algumas das correntes oceânicas mais fortes do mundo passam pela Passagem de Drake e ondas gigantescas e descontroladas já causaram a morte de passageiros de navios neste local em datas tão recentes como 2022. Viajantes que passaram por ali mencionaram ondas com mais de 20 metros.

A maioria das pessoas nunca esteve na Passagem de Drake. Podem, contudo, ter visto vídeos impressionantes no TikTok, ou noutras redes sociais, filmados por viajantes a bordo de navios fustigados pelo mar agitado. No entanto, a região é conhecida por outros fenómenos para além das ondas tumultuosas.

Ventos ululantes e tempestades

A principal razão pela qual a Passagem de Drake é tão atormentada por tempestades é porque o oceano Austral, que envolve o continente congelado da Antárctida, não é interrompido por terra, fazendo com que ventos poderosos possam dar a volta ao globo sem qualquer obstáculo.

“Por acaso, acabámos de ter uma grande tempestade nas últimas 24 horas”, diz Karen Heywood, oceanógrafa física da Universidade de East Anglia e membro da equipa de investigação a bordo do RRS Sir David Attenborough, que, aquando da redacção deste artigo, navegava rumo a sudeste na Passagem de Drake, em direcção ao mar de Weddell – no lado oriental da Península Antárctida.

Passagem de Drake liga os oceanos Pacífico e Atlântico
JASON EDWARDS, NAT GEO IMAGE COLLECTION

A Passagem de Drake liga os oceanos Pacífico e Atlântico e encontra-se imediatamente acima do Oceano Austral, que circunda a Antárctida. Como este oceano não é bloqueado por terra, os ventos poderosos sopram facilmente, sem qualquer obstáculo.

“É sempre interessante quando vamos jantar e eles põem individuais aderentes nas mesas para garantir que os nossos pratos não deslizam de um lado para o outro”, diz Heywood.

Ela e os seus colegas pretendem estudar os processos capazes de absorver carbono da atmosfera e retê-lo no oceano no Mar de Weddel. A Passagem de Drake é um “cadinho”, diz Heywood, onde correntes oceânicas extremas absorvem o carbono, incluindo aquele depositado pelo plâncton, levando-o até às profundezas, onde podem permanecer armazenados ao longo de séculos. As correntes fortes da Passagem também transportam materiais vindos do Oceano Pacífico ao longo de milhares de quilómetros, até ao Atlântico Norte.

Este turbulento corpo de água tem ainda outra função – mantém a Antárctida fria, diz Alberto Naveira Garabato, oceanógrafo físico da Universidade de Southampton. Sem uma ponte terrestre que faça a ligação à América do Sul, é muito mais difícil o ar quente alcançar os pontos mais meridionais do globo. Os modelos climáticos sugerem que, quando a Passagem de Drake se abriu, há dezenas de milhões de anos – ninguém sabe ao certo quando – contribuiu significativamente para o arrefecimento da Antárctida. Conseguimos sentir o efeito de arrefecimento da Passagem de Drake quando a atravessamos num navio, diz Naveira Garabato.

“De repente, estamos neste mundo gelado”, explica. “E acontece num instante – conseguimos ver a mudança a acontecer em poucas horas”.

Um reservatório de carbono

O poder de arrefecimento deste local único significa que, ironicamente, a perigosíssima Passagem de Drake ajuda a proteger o planeta. Se a Antárctida fosse um sítio muito mais quente e os 29 milhões de quilómetros quadrados de gelo aglomerados em redor do continente derretessem amanhã, os níveis globais das águas do mar subiriam mais de 60 metros.

A Passagem de Drake também pode ser um “ponto quente” de sequestro de carbono. Os processos de armazenamento de carbono estudados por Heywood e os seus colegas podem ser particularmente eficientes aqui, comparados com outros locais da Terra, diz Lilian Dove, bolseira de pós-doutoramento da Universidade de Brown.

Passagem de Drake
RALPH LEE HOPKINS, NAT GEO IMAGE COLLECTION

A Passagem de Drake é uma das razões pelas quais a Antárctida é tão fria. Sem uma ponte terrestre que ligue o continente à América do Sul, o ar ameno do norte não sopra facilmente para sul.

A sua investigação sugere que o oceano é menos estratificado nesta região – em parte graças aos ventos fortes e à forma irregular do leito marinho. Isso significa que o fitoplâncton, que captura carbono da atmosfera, por exemplo, pode ser arrastado para as profundezas em grandes volumes. A Passagem de Drake pode, por isso, ser um de meia dúzia de pontos quentes de sequestro de carbono no Oceano Austral – que removem colectivamente 600 milhões de toneladas de carbono da atmosfera anualmente.

É importante recordar a abundância de vida não humana que prospera na Passagem de Drake e noutros locais em redor da Antárctida, diz Naveira Garabato. Correntes vigorosas transportam nutrientes ao longo de grandes distâncias, sustentando formas de vida desde o plâncton e o krill até às maiores baleias. “Todo o ecossistema antárctico assenta nesta ressurgência”, diz.

Fiann Paul recorda vividamente os pinguins, golfinhos e baleias que ele e a sua equipa viram quando, finalmente, se aproximaram do seu objectivo, Charles Point, na Península Antárctica, no final da sua aventura de remo. Alcançaram o seu destino ao fim de 13 dias a enfrentar um dos locais mais selvagens do planeta. Depois de todas aquelas gaivotas aos gritos e dos céus cinzentos, subitamente, o gelo branco e luminoso da Antárctida acenou-lhes, mostrando fachadas azuis eléctricas aqui e além. Alguns membros da expedição ficaram tão felizes por vê-lo, diz Paul, que até choraram: “é um sítio tão bonito”.

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.