O universo encantador dos líquenes numa fotogaleria

Estas são as fotografias e as notas do diário de um fotógrafo espanhol apaixonado pela beleza e originalidade dos líquenes, organismos fotossintetizantes que integram praticamente todos os ecossistemas terrestres do planeta.

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Jose Antonio Martínez

O líquen Physcia tenella, que aqui vemos num ramo de abrunheiro com frutos nos Pirinéus de Navarra, também ocorre em Portugal. 

Eva van den Berg
Eva van den Berg

Jornalista especializada em Ciência e Natureza

Como é possível que organismos tão diferentes como os fungos, as algas e as cianobactérias consigam entender-se e funcionar de forma tão perfeita? – interrogou-se há 25 anos o fotógrafo de natureza José Antonio Martínez, enquanto observava líquenes perto de sua casa, na cidade navarra de Tudela (Espanha). Desde então, fascinado pela beleza e originalidade destas estruturas e cores, nunca mais deixou de procurá-los e imortalizá-los com a sua câmara fotográfica onde quer que fosse. Esta é uma pequena amostra do seu magnífico trabalho, que nos desvenda um universo tão extraordinário como desconhecido.

“Além da complexidade simbiótica, fico admirado com a incrível capacidade dos líquenes para colonizarem todo o tipo de substratos e suportarem condições agrestes”, comenta. Não é por acaso que os líquenes fazem parte de quase todos os ecossistemas terrestres do planeta, incluindo os ambientes mais extremos: desertos, cumes montanhosos e regiões polares, entre outros.

“Encontrei algumas dessas interessantes espécies há anos, incluindo líquenes epífitos, que pendem dos troncos e dos ramos em determinadas florestas pirenaicas, tanto na vertente espanhola como na francesa, ou líquenes crustáceos, que vivem presos às rochas nos cumes das montanhas e nos seus circos glaciares”, explica o fotógrafo. Outras foram detectadas nos mais diversificados e bem conservados ecossistemas da Península Ibérica e também nas Canárias.

O interesse de José Antonio Martínez por estes organismos leva-o inevitavelmente à imersão, quando se aproxima deles para os fixar numa imagem: “Quando observo os líquenes através do visor da minha câmara fotográfica, esqueço-me de tudo o que me rodeia. De repente, o tempo parece parar e o conceito de espaço – e até a percepção da paisagem – muda por completo. É então que me perco, nos escassos palmos de superfície coberta de líquenes, seja sobre rocha, no meio do gesso ou cobrindo humildemente o tronco velho de uma árvore, abstraindo-me perante a sua grandeza quase infinita. Fundo-me com o seu universo.” 

Vejamos o resultado dessa fusão:

Ramalina fraxinea

JOSÉ ANTONIO MARTÍNEZ

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Ramalina fraxinea (Navarra)

Estes líquenes epífitos de tons esverdeados da espécie Ramalina fraxinea revestem o ramo de um carvalho nos Pirenéus de Navarra. Ao fundo, desfocados, alguns talos de Xanthoria parietina em tons de laranja. Ambas as espécies ocorrem também em Portugal.

Xanthoria elegans e Diplotomma hedinii

JOSÉ ANTONIO MARTÍNEZ

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Xanthoria elegans e Diplotomma hedinii (Saragoça)

Estas duas espécies fotografadas no Parque Natural de Moncayo chamam-se Xanthoria elegans (cor de laranja) e Diplotomma hedinii (em tons esbranquiçados).

Peltigera horizontalis

JOSÉ ANTONIO MARTÍNEZ

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Peltigera horizontalis (Huesca)

Uma comunidade de líquenes da espécie Peltigera horizontalis cresce sobre o tronco de um abeto numa floresta do vale de Ordesa, no Parque Nacional de Ordesa e Monte Perdido, nos Pirenéus de Huesca. De estrutura foliácea e lóbulos com até quatro  centímetros de largura, esta espécie costuma formar grandes colónias na base das árvores, entre o musgo das rochas e também em tocos e troncos podres. Prospera em florestas de crescimento lento bem conservadas e com pouca perturbação ecológica.

Letharia vulpina

JOSÉ ANTONIO MARTÍNEZ

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Letharia vulpina (Tinieblas de la Sierra)

Uma Letharia vulpina sobre o tronco centenário de um teixo na serra da Demanda. Ocorre também em Portugal. 

Líquenes em crescimento sobre um substrato rochoso

JOSÉ ANTONIO MARTÍNEZ

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Pleopsidium flavum, Lecanora swartzii e Calogaya saxicola (Sistema Ibérico)

Mosaico de líquenes em crescimento sobre um substrato rochoso, neste caso quartzito, a 1.700 metros de altitude, no Sistema Ibérico. Os amarelados pertencem à espécie Pleopsidium flavum, os cinzentos são Lecanora swartzii e os alaranjados Calogaya saxicola. São espécies que também colonizam ambientes de frio extremo, encontrando-se todas em Portugal.

Xanthoria

JOSÉ ANTONIO MARTÍNEZ

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Xanthoria (El Hierro, Canárias)

Escoadas lávicas colonizadas pelo líquen Xanthoria resendei na ilha canária de El Hierro. Este organismo também ocorre no nosso país. 

Cladonia pyxidata

JOSÉ ANTONIO MARTÍNEZ

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Cladonia pyxidata (Huesca)

Estes líquenes da espécie Cladonia pyxidata, com podécios em forma de trombeta ou funil, colonizaram um tronco morto numa zona sombria do Parque Nacional de Ordesa e Monte Perdido, nos Pirenéus de Huesca. Resultam de uma  simbiose entre um fungo e uma cianobactéria ou alga verde (no caso da segunda). O fungo consegue aderir ao substrato e extrai água e sais minerais deste e do meio envolvente. Por outro lado, a alga sintetiza a glucose através da fotossíntese.

Artigo publicado originalmente na edição de Janeiro de 2024 da revista National Geographic.