Quando um conflito armado chega ao fim, segue-se habitualmente um período em que se calculam as suas consequências. Na nossa mente, estas medem-se no número de vítimas, nas imagens tenebrosas que presenciámos e no impacto traumático nos sobreviventes. No entanto, a verdadeira extensão dos danos de uma guerra vai muito para lá do que se pode calcular no momento. Estender-se-á por muitos anos e está relacionado, por exemplo, com as alterações na paisagem e a saúde das pessoas.

Alistamos abaixo três conflitos militares  – e uma acção de preparação para a guerra – que provocaram graves danos ambientais em áreas geográficas de maior ou menos dimensão. Podíamos começar pela Terceira Guerra Púnica, durante a qual o militar romano Cipião Emiliano e os seus correligionários queimaram Cartago e espalharam sal pelos solos para que estes se tornassem inférteis. Podíamos evocar o conflito cujos danos ambientais são mais conhecidos, como a guerra do Vietname – principalmente pelo uso de substância conhecida como "Agente Laranja" – ou a guerra do Golfo – pelo impacto que a destruição deliberada de poços de petróleo teve no subsolo desértico (ilustrada na imagem acima), mas vamos antes recuar até à Bagdade do século XIII.

1. AS TÁCTICAS IMPLACÁVEIS DE GENGHIS KHAN

Às vezes, a nossa noção de desastre ambiental é muito vasta e a nossa atenção levada a situações que afectam continentes ou o planeta inteiro. Porém, eventos numa escala micro podem continuar a afectar milhares de pessoas e o dano pode ser conseguido através de técnicas muito rudimentares.

Genghis Khan é uma figura tão premente na História que há inclusive um estudo internacional que defende que 0,5% da população masculina do mundo é sua descendente. Ele era também um reconhecido líder militar, que construiu o maior império terrestre contínuo conhecido. Jogando com as regras das estepes e da política bélica do Oriente Médio do século XIII, a crueldade era uma prática comum nas suas conquistas.

cerco de bagdad
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Representação da conquista de Bagdade pelos Mongóis em 1258. Ilustração de página dupla do Gami' at-tawarih de Rashid-ad-Din, 1º quartel do século XIV. (Staatsbibliothek Berlin/Schacht)

Khan levou-a a outro nível quando, em 1258, conquistou Bagdade. Os exércitos mongóis cercaram a cidade durante 13 dias. Bagdade era uma das grandes urbes da Idade Média, com mais de um milhão de habitantes, um gigantesco exército de sessenta mil homens cuja única função era defender a capital do Califado Abássida. Ainda assim, a liderança da defesa não foi a mais eficaz. A cidade caiu rapidamente e a população foi massacrada.

Como estratégia de cerco, os mongóis destruíram todos o sistema de irrigação de Bagdade e campos limítrofes, o que fez com que um sistema que se mantinha há milénios desde a Mesopotâmia, e que transformou um pedaço de deserto entre dois rios numa das mais férteis áreas da Ásia, desaparecesse e nunca mais fosse recuperado.

Tal destruição levou a que esta cidade entrasse num declínio praticamente irreversível até aos dias de hoje. Esta táctica viria a ser usada muitos séculos depois, durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa, em 1938, quando o exército chinês destruiu uma série de barragens no rio Amarelo para tentar impedir que os japoneses avançassem e ocupassem o território. Levou à morte de quase 600 mil pessoas, entre afogados e vitimados por fome e doenças nos meses seguintes. O rio Amarelo teve de ser desviado e nunca mais recuperou o seu curso natural. 

Os mongóis iriam mexer com os ecossistemas e habitats quase um século depois do cerco a Bagdade, em 1345, quando cercaram Kaffa (actual Teodósia), na Crimeia. Para forçar a rendição, catapultaram corpos de mortos doentes para o interior da cidade, ajudando à propagação de uma epidemia: a Peste Negra

2. PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

A utilização de armas de destruição maciça tornaram inutilizável durante várias décadas parte do terreno agrícola de países como França, Bélgica ou Holanda, onde maior parte da guerra armada se desenrolou.

durante a batalha do Somme, 250 mil hectares de terra arável foram destruídos entre a actividade militar diária e os túneis de trincheiras que se mantiveram durante os cinco anos do conflito e para lá do mesmo. Para além destes, quase meio milhão de hectares de território agrícola francês foi também afectado. A população animal europeia, principalmente a que podia ajudar no esforço de guerra, em transporte e alimentação, ficou severamente diminuída e a destruição de largos território florestais no Centro e Norte da Europa bem como o seu uso para a alimentação dos soldados quase levou à extinção completa do bisonte-europeu, dando apenas um exemplo.

Beaumont-Hamel_-_General_view_of_the_battlefield (Ernest Brooks)
Domínio Público / Ernest Brooks

A batalha do Somme, durante a Primeira Guerra Mundial, teve efeitos catastróficos na agricultura. 

O que é surpreendente é que a guerra na Europa afectou ambientalmente um continente tão distante quanto o americano. Nos EUA, o sector agrícola foi obrigado a produzir bem acima do que era normal para manter o lucro constante e os soldados no teatro de guerra alimentados. Como resultado, muito do território agrícola de uma área entre as Apalaches e os Grandes Lagos – atravessando estados desde o Arizona até Dakota do Norte, e ocupando partes do Canadá – se tornou infértil durante vários anos devido ao uso excessivo. Para além disso, a multiplicação de quintas nestes território causou uma pressão enorme nos habitats de espécies nativas, levando à redução drástica de populações. A Europa e a América, ainda mais, não tiveram tempo de recuperar, já que a Segunda Guerra Mundial estava a pouco mais de vinte anos de distância… e teria um impacto ambiental ainda maior do que a que a antecedeu.

3. MAYAK E LAGO KARACHAY

Há ocasiões em que a hipótese de conflito é a causa do desastre. Na antiga União Soviética, o lago Karachay, um pequeno corpo de água interior localizado nos Urais, tornou-se tristemente infame como um dos locais mais tóxicos de todo o mundo. O motivo prende-se com o estabelecimento da central nuclear de Mayak ali perto, parte do esforço soviético de produzir plutónio para a construção de uma bomba atómica capaz de rivalizar com as que os EUA haviam lançado sobre o Japão.

A ideia era a de usar dois lagos locais: o maior, o Kzyltash, veria as suas águas desviadas para arrefecer as turbinas; o menor, o Karachay, seria o cemitério do entulho atómico produzido e demasiado perigoso para guardar na própria central. Inicialmente, o lago seria usado como depósito temporário, mas rapidamente se percebeu – porque o conhecimento sobre a radioactividade nesta altura era limitado – que os níveis de radioactividade continuavam letais.

É proibido entrar e conduzir
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"É proibido entrar e conduzir", sinal de aviso da central de reprocessamento nuclear de Mayak, zona de Chelyabinsk. 

Em 1957, aconteceu o que seria previsível: os contentores guardados em Mayak, por falta de manutenção, explodiram e a potência foi tão grande que uma parede de betão armado a 200 metros, num edifício próximo, ficou obliterada. Poeiras radioactivas foram espalhadas num raio de 52 mil quilómetros quadrados. A central e a povoação em redor eram tão secretas que as pessoas que viviam mais perto só foram evacuadas dois anos depois, estando expostas à radiação nesse período. Ainda hoje este é considerado um dos maiores desastres nuclear da História, a seguir a Chernobyl e Fukushima. O lago Karachay surge regularmente em primeiro na lista dos lugares mais contaminados do planeta. A superfície do lago apresenta uma cor vermelha e o seu fundo está totalmente preenchido por partículas altamente radioactivas, o que faz com que o Karachay seja monitorizado em permanência pelo governo da Rússia.

4. O GENOCÍDIO NO RUANDA

Conhecido como “a terra das mil colinas”, pelos seus declives florestais, o Ruanda foi largamente impactado por uma guerra que opôs os dois principais étnicos do país, Hutus e Tutsis, durante quatro meses em 1994. Para além do quase milhão de mortos resultantes desta barbárie, o território ruandês ficou afectado extensamente. E não só: levou a uma migração maciça de mais de dois milhões de indivíduos, que colocaram pressão no espaço geográfico de países vizinhos como o Burundi e o Uganda, com o estabelecimento de campos de refugiados que duraram vários meses.

Kibumba, Goma
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Vista do campo de refugiados de Kibumba, Goma, Zaire. Estima-se que 1,2 milhões de refugiados ruandeses tenham fugido para o Zaire após a eclosão de uma guerra civil no seu país. Fonte: American Forces Information Service.

Milhares de quilómetros quadrados de floresta foram eliminados para criar espaço e providenciar madeira a ser usada na construção das habitações temporárias. O conflito interétnico levou à degradação dos parques naturais do país, quer pela falta de manutenção, quer pela falta de pessoal técnico ou militar que pudesse organizar a protecção da fauna e flora locais.

No entanto, e como disse Ian Malcolm em Parque Jurássico, a natureza encontra sempre um caminho. Ao longo do período em que o conflito durou, as áreas anteriormente usadas para a agricultura foram sendo ocupadas novamente pela mancha florestal ruandesa, o que continuou nos anos seguintes, enquanto país encontrava um caminho para a estabilização política que vive hoje. Não chegou para compensar a desflorestação, mas ainda assim… o meio natural parece estar mais interessado na sua própria sobrevivência e renovação do que a espécie humana.