Ma Beng deita-se de barriga para baixo, com o nariz quase encostado à erva seca e castanha. Rasteja sobre os braços na montanha, inspeccionando metodicamente o solo centímetro a centímetro. Ali perto, amigos e familiares fazem o mesmo, examinando cuidadosamente os emaranhados de erva e arbustos. A 5.000 metros acima do nível do mar, a altura aproximada do acampamento de base do Monte Evereste, o cansaço imposto pela atmosfera rarefeita parece não afectar ninguém. Conversando enquanto rasteja, o grupo fofoca alegremente, mas os seus olhos nunca se levantam do solo.

Estão todos em busca do mesmo. É um prémio que vale frequentemente mais do que o seu peso em ouro:  ophiocordyceps sinensis, ou simplesmente “fungo lagarta”.

A alguma distância, um homem grita de excitação. Viu um pequeno caule, que mal sobressai entre a erva, pouco mais grosso do que vegetação em redor, e começa cuidadosamente a escavar à sua volta. Não tarda a ser cercado por curiosos que usam os telemóveis para tirar fotografias. Uma mulher até começa a fazer um vídeo em directo no Douyin (a versão chinesa do TikTok). Alguns penosos momentos mais tarde, conseguiu libertar o seu tesouro – uma pequena lagarta com cerca de 2,5 centímetros, empapada em terra, com um fungo filamentoso avermelhado espertado na cabeça. Pega numa lata de tabaco, embrulha rapidamente a sua descoberta em plástico e guarda-a, enquanto a multidão se dispersa, regressando à caçada com um entusiasmo renovado.

Denominada yartsa gunbu em tibetano, a tradução literal é “minhoca de Inverno, erva de Verão”. É um nome adequado, embora cientificamente incorrecto para uma circunstância macabra: uma simbiose que começa quando a larva subterrânea da traça-fantasma é infectada por esporos de ophiocordyceps. Os cientistas acham que o fungo controla o sistema nervoso da lagarta, obrigando a sua hospedeira a cavar para cima e matando-a mesmo antes de chegar à superfície. Dormente durante o Inverno, o fungo volta a despertar na Primavera, consome o interior do cadáver para obter nutrientes e irrompe da cabeça da lagarta, expondo-se ao Sol.

Há muito que o cordyceps é um remédio local popular, mas a sua procura na China disparou nas últimas décadas, fazendo os preços dispararem igualmente. O preço de um quilo de cordyceps de alta qualidade aumentou 40 vezes desde o início da década de 1970 – podendo actualmente ser vendido por valores até 110.000 dólares por quilograma. O resultado foi uma “corrida às lagartas” anual à beira do Himalaia, que é historicamente uma das regiões mais pobres do continente asiático.

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JUSTIN OLSVIK

Parte encontro social, parte rivalidade pela subsistência, os aldeões vasculham juntos as encostas da Prefeitura Tibetana Autónoma de Yushu. Esta será a única fonte de rendimento de muitos durante todo o ano.

Para muitos dos que se dedicam à sua colheita, o cordyceps é a sua única fonte do rendimento ao longo de todo o ano. Por isso, todos os anos, em Maio e Junho, o planalto fragmenta-se em milhares de locais onde só os residentes podem entrar.

Independentemente de como ou quem escave as lagartas, existe uma coisa alarmante que todos repararam no planalto: existem menos a cada ano que passa.

Os autóctones e os cientistas crêem que a explicação se encontra numa mistura de colheita excessiva e alterações climáticas. Embora haja centenas de conjuntos de regras diferentes para gerir a colheita, continua a não haver nenhum sistema coeso ou incentivos que assegurem uma colheita sustentável.

Em simultâneo, o aparecimento de novos fungos requer um intervalo específico dos valores da temperatura, humidade e neve. Estas variáveis já não são previsíveis e, actualmente, já não é possível encontrar o fungo nas latitudes mais baixas, onde em tempos foi abundante.

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JUSTIN OLSVIK

Parte lagarta, parte fungo, o cordyceps é valorizado pela medicina tradicional por ser simultaneamente “planta” e animal. A indústria local vale milhares de milhões de dólares.

O fungo mais caro do mundo

A cerca de 100 quilómetros de distância, na cidade de Yushu, ainda nem são oito horas no mercado dos cordyceps, mas uma energia frenética, semelhante à de uma bolsa de valores, já vibra no ar. As mãos são apertadas sob toalhas, na forma tradicional de negociar, e circulam sussurros por entre a multidão. Os preços variam consoante as lojas, minuto a minuto, à medida que cada elo desta cadeia de abastecimento tenta conseguir mais alguns yuan por lagarta.

Intermediários compram lagartas às pessoas que as colheram por aproximadamente cinco dólares e vendem-nas às lojas em Yushu e outros centros urbanos com uma margem de lucro de 10 a 20 por cento. Depois disso, as lagartas entram numa máquina bem oleada. Os cordyceps são limpos, contados, seleccionados e embalados em sacos selados a vácuo, antes de serem despachados nessa mesma tarde. Na época alta, um único vendedor de lagartas pode comprar quase 700 quilos de produto por dia, gastando dezenas de milhões de dólares.

Quando chega às lojas reluzentes de Pequim ou Xangai, o preço de um fungo de lagarta duplicou – no mínimo. É mais provável encontrá-lo num centro comercial de luxo do que numa farmácia. O valor que as pessoas atribuem a este recurso é actualmente tão alto que se tornou um presente de bom tom entre a elite chinesa. Contraintuitivamente, a procura pelo cordyceps não se mantém alta apesar dos preços, mas sim devido a estes.

Uma vendedora do elegante distrito de Wang Fu Jing, um Pequim, sugere que os compradores estão principalmente interessados no estatuto social proporcionado pelas lagartas e não pelos seus alegados efeitos na saúde. Ela aponta para as diferentes caixas ornamentadas de lagartas mortas, guardadas atrás de expositores de vidro. Os preços dos cordyceps de “alta qualidade” baseiam-se no tamanho do fungo, na sua simetria, rácio caule-corpo, frescura e outras variáveis que os tornam mais invulgares ou visualmente apelativos e, consequentemente, mais desejáveis. Os melhores podem ser vendidos por valores de seis dígitos por quilograma, enquanto os mais feios são provavelmente vendidos por cerca de 400.00 dólares por quilo. Os menos estéticos serão triturados, reduzidos a pó, e utilizados no fabrico de suplementos e aditivos para outros produtos.

O interesse crescente dos mercados ocidentais na medicina alternativa também sugere que a procura continua a aumentar.

O produto atrai diferentes tipos de pessoas: já foi vendido pela famosa Gwyneth Paltrow no seu polémico website Goop, bem como pelo grupo de teorias de conspiração Info Wars, de Alex Jones. Recentemente, a série de sucesso The Last of Us, da HBO, chamou a atenção para o fungo, apresentando-o a novas audiências.

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As lojas locais começaram a recorrer às redes sociais para promover os seus negócios. Estas mulheres estão a limpar a terra de yartsa ganbu colhidos recentemente num vídeo transmitido em directo para espectadores chineses.

Contrapartidas morais

O aumento da procura significa mais pressão sobre um ecossistema já de si frágil, mas a empresa Sunshine Lake Pharma, da província de Guangdong, poderá ter uma solução. Durante décadas, muitos tentaram cultivar cordyceps artificialmente, mas, até há pouco tempo, o complexo ciclo de vida, interacções e ambiente era demasiado difícil de simular. Em 2014, a Sunshine Lake fez uma descoberta inovadora, cultivando pela primeira vez cordyceps em laboratório graças a uma receita altamente secreta. Os estudos indicam que os componentes medicinais dos cordyceps cultivados são equivalentes aos dos selvagens – ou melhores ainda, dada a presença frequente de metais poluentes na variedade natural.

A Sunshine Lake está a crescer desde que fez esta descoberta, e segundo a sua própria estimativa, prevê que a sua produção possa representar até 20 por cento do mercado. Os cordyceps cultivados em laboratório deverão reduzir a pressão sobre o fungo selvagem, dando às suas populações uma oportunidade de recuperar. No entanto, essa vitória ambiental põe em risco um recurso lucrativo para alguns dos cidadãos mais pobres da China.

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Existe pouco tempo para descansar durante a época dos cordyceps. Aqui, um comprador examina os espécimenes acolhidos por uma família usando uma lanterna, prolongando o regateio pela noite dentro.

Muitos apanhadores do fungo reagiram recorrendo às redes sociais para criar uma identidade de marca “natural” distinta. Se examinar algumas aplicações de redes sociais chinesas em Maio e Junho, é provável que encontre vídeos em directo desses vendedores a colher, processar e embalar os seus produtos com montanhas dramáticas em plano de fundo, encorajando a compra directa nas suas lojas online.

À medida que o Sol se aproxima do horizonte, Ma Beng volta a descer a montanha de mãos a abanar. Quando lhe pergunto se está preocupado com os fungos cultivados em laboratório, encolhe os ombros. “É um remédio tradicional”, diz. “Não se pode substituir a tradição.”

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Os fungos secos são menos desejáveis do que os frescos e são vendidos ao peso. Os frescos são vendidos à unidade, mas duram poucas semanas, por isso são embalados e despachados no mesmo dia.