Os registos históricos dos primeiros tempos do povoamento humano da ilha da Madeira dão conta de que esta floresta cobria quase toda a ilha, ao contrário de hoje, onde ela está restrita à costa norte da ilha, ocupando cerca de 15 mil hectares, equivalentes a 20% da superfície da ilha.

A laurissilva que hoje encontramos na Madeira é uma floresta subtropical húmida muito densa e complexa que incorpora diferentes tipos de comunidades de vegetação. É uma floresta-relíquia, que durante o Cenozóico se estendia numa extensa faixa do Sul da Europa e que quase se extinguiu devido às mudanças climáticas associadas às glaciações ocorridas no Quaternário.

Nas ilhas atlânticas, beneficiando do papel do oceano para amenizar o clima, a laurissilva persistiu, sobretudo na Madeira, Açores e Canárias, que, juntamente com Cabo Verde, formam a região biogeográfica da Macaronésia. O carácter único e valor extraordinário da biodiversidade associada a esta floresta levou à sua inscrição na Lista de Património Mundial Natural da UNESCO em Dezembro de 1999. É também um elemento central do Parque Natural da Madeira e corresponde a um Sítio de Interesse Comunitário, no âmbito da Rede Natura 2000.

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A floresta-relíquia da Madeira ainda preserva manchas com a flora que em tempos terá coberto grande parte da ilha.

As espécies mais representativas da floresta laurissilva são o loureiro, o til, o vinhático, o pau-branco, o barbuzano e o folhado que dão cobertura e protecção a muitas outras espécies de plantas e animais que dependem da sombra, da água e da rica manta morta características desta floresta.

A laurissilva fornece um conjunto diversificado de bens e serviços que, no conjunto, representam uma contribuição significativa para a economia da Madeira. A água é o bem mais precioso. A floresta capta a humidade atmosférica gerada por si própria ao condensar o nevoeiro resultante da ascensão do ar quente dos ventos alísios que trepa pelas encostas do Norte da ilha, formando os típicos nevoeiros que envolvem a floresta madeirense. Os solos ricos e estáveis da laurissilva promovem a infiltração da água que vai alimentar os aquíferos de altitude no interior das rochas vulcânicas da ilha. Essa água regressa à superfície nas nascentes resultantes de fissuras das rochas basálticas, da intercepção do basalto com outras rochas como os piroclastos ou, através dos furos de captação para recolha e distribuição por toda a ilha – quer através das levadas quer dos modernos sistemas de distribuição, incluindo os aproveitamentos na geração de energia eléctrica.

As levadas, algumas das quais classificadas oficialmente como Percursos Pedestres Recomendados, são um dos melhores meios para visitar áreas de laurissilva e encontrar árvores monumentais, paisagens dramáticas, quedas de água imponentes, tapetes de musgos tão perfeitos que parecem feitos à mão, uma diversidade exuberante de fetos e, conforme a estação do ano, uma profusão de cores oferecida por muitos endemismos de orquídeas, estreleiras, gerânios, ranúnculos, massarocos e as incríveis Isoplexis (I. sceptrum) e Muschia (M. wollastonii). Uma caminhada na laurissilva tem garantida a companhia de aves como o tentilhão e do igualmente curioso mas menos atrevido bis-bis e a possibilidade de encontro com raridades como o pombo-trocaz e o fura-bardos.

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Luís Quinta

Espécies de fauna como o tentilhão da madeira adaptaram-se eximiamente à laurissilva. 

Nas clareiras dos pontos de vista sobre os vales profundos, além de cenários com pujantes manchas de laurissilva, as mantas e os francelhos são igualmente presenças constantes, entre as aves. Um olhar mais atento pode igualmente levar-nos à descoberta da diversidade imensa ao nível dos artrópodes e moluscos, não faltando também morcegos, os únicos mamíferos residentes na ilha à data da chegada dos descobridores portugueses.

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Luís Quinta

A laurissilva é, desde sempre, um elemento incontornável em qualquer visita à Madeira. Para quem não tiver tempo de se embrenhar no interior desta floresta através das veredas e levadas, um olhar sobre o seu verde brilhante é absolutamente obrigatório e tal pode ser feito em diversos pontos a partir das estradas principais, no interior e Norte da ilha.

O Parque do Ribeiro Frio é uma das melhores portas para a laurissilva. Uma pequena caminhada nestes jardins permite o contacto fácil com as plantas mais características da laurissilva, sendo igualmente o ponto de partida para alguns dos percursos mais conhecidos e acessíveis para esta floresta. A curta distância, o miradouro dos Balcões é uma iniciação acessível às caminhadas nas levadas, culminado com uma das perspectivas mais espectaculares sobre um vale de laurissilva, certamente um convite para continuar, quem sabe, aventurando-se no percurso entre as Queimadas e o Caldeirão do Inferno, passando pelo Caldeirão Verde, com descida para a Fajã da Nogueira. Ainda no Concelho de Santana, outro dos clássicos é a caminhada ao longo da Levada do Rei até ao Ribeiro Bonito, cujo nome já diz muito.

O Rabaçal é outro dos pontos de partida para diferentes percursos associados à laurissilva como as incontornáveis 25 Fontes, o Risco, a lagoa do Vento e a ribeira do Alecrim, acessíveis por percursos recomendados com extensão inferior a dez quilómetros (ida e volta).

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Marco Bottegelli / Getty Images

Para quem preferir caminhadas mais extensas e exigentes, a levada do Moinho, que liga a Ribeira da Cruz, no Porto Moniz, ao sítio do Tornadouro, na Ponta do Pargo, ou então os mais de 15 quilómetros do Caminho do Pináculo e Folhadal, ao longo das Levadas da Serra e do Norte, quase no tecto da laurissilva, são excelentes opções, se bem que com grau de dificuldade e perigosidade a ter em consideração. O clássico Pico do Arieiro – Pico Ruivo, ou a sua variante mais curta, a partir do Pico das Pedras, leva-nos a um giro por cima da laurissilva e do mar de nuvens que costuma esconder a floresta a partir do meio da manhã, dando então maior destaque às urzes e à geologia, elementos emblemáticos da paisagem das maiores altitudes da ilha.

Ribeira Funda, Galhano, Chão da Ribeira, Fanal, Lombo do Urzal, Chão dos Louros são igualmente referências que podem ser utilizadas como códigos de acesso a esta floresta que temos a responsabilidade de conservar e utilizar de forma sustentável.