Na série True Detective: Night Country, da HBO, uma parelha de agentes da polícia tenta resolver várias mortes misteriosas na cidade fictícia de Ennis, no Alasca, tendo como pano de fundo a longa e fria noite polar. Mas o que é, ao certo, a noite polar? Onde acontece e porquê? E o que significa para as pessoas e animais selvagens que a vivem?

Onde ocorre a noite polar

De uma forma muito simples, noite polar refere-se ao período durante o qual o Sol não se ergue acima da linha do horizonte durante mais de 24 horas. Ocorre durante o Inverno a norte do Círculo Árctico e a sul do Círculo Antárctico – linhas circumpolares situadas nas latitudes 66,6 graus Norte e Sul, respectivamente.

Quanto mais perto dos pólos, mais longa é a noite polar: no Pólo Norte, por exemplo, o Sol põe-se poucos dias após o equinócio de Outono, em meados de Setembro, para só voltar a nascer em meados de Março, fazendo com que a noite polar do topo do mundo dure 179 dias. Mais longe dos pólos, na noite polar pode ocorrer apenas cerca de 24 horas, por volta do solstício de Inverno.

Caçador procura uma foca no gelo
ACACIA JOHNSON

Um caçador procura uma foca no gelo. No final de Janeiro, Nunavut já esteve imersa em quase três meses de noite.

A cidade de Utqiagvik, no Alasca, o povoado mais setentrional dos EUA e que serviu, aparentemente, de inspiração à Ennis de True Detective, temcerca de 65 dias de noite polar todos os anos, entre meados de Novembro e meados a finais de Janeiro.

Apesar do seu nome, a noite polar não é um bloco contínuo de noite pura. A luz solar é refractada acima da linha do horizonte mesmo quando o Sol se encontra abaixo dela. Por isso, em muitas latitudes a maioria dos dias podem, de facto, ser denominados diferentes fases de “crepúsculo polar”.

Tal como em qualquer outro sítio do planeta, o meio do dia pode ser mais claro do que outras alturas, pois o Sol sobe e volta a descer, embora sem ultrapassar a linha do horizonte. O “crepúsculo civil” pode proporcionar luz suficiente para as pessoas fazerem as suas actividades ao ar livre, enquanto o “crepúsculo astronómico” é tão escuro que as únicas luzes naturais são estrelas a Lua e a aurora boreal, que dança e cintila num céu limpo.

No entanto, a semântica pouco muda o facto de a noite polar poder ser um enorme desafio para as pessoas que vivem no Árctico (ou as poucas que residem em centros de investigação na Antárctida).

Como é viver na noite polar?

A ausência de pistas familiares e de ciclos dia-noite pode afectar os ritmos circadianos e perturbar o sono e a constante ausência de luz do dia provoca, frequentemente, falta de energia. No entanto, viver na noite polar não é uma experiência completamente miserável e muitos residentes até a apreciam. Como um habitante de Svalbard, um arquipélago norueguês na região do mar de Barents, explicou à estação de rádio norte-americana NPR: “É preciso ver a beleza [na escuridão]. E, para mim, isso não é minimamente difícil… sinto-me ainda mais imerso na natureza quando caminho na escuridão.”

Pele de foca congelada
ACACIA JOHNSON

Uma pele de foca congelada sobre o gelo. Embora o Sol nunca se erga acima da linha do horizonte durante a noite polar, continua a ser visível uma espécie de resplendor crepuscular.

As pessoas que vivem no Árctico fazem o que podem para contrariar a melancolia da noite longa, desde utilizarem lâmpadas de fototerapia, que reproduzem os comprimentos de onda da luz solar, a simplesmente seguirem as suas rotinas, manterem-se fisicamente activas e participarem no máximo de eventos sociais – embora estas duas últimas opções sejam limitadas pelo facto de o longo crepúsculo ser acompanhado por um frio de rachar.

Em Janeiro, por exemplo, as temperaturas mínimas em Utqgiavik, são, em média, 28 graus negativos, enquanto o município norueguês de Kautokeino viu recentemente o mercúrio descer abaixo dos 40 graus negativos na sua noite mais fria dos últimos 25 anos.

Não são apenas os habitantes humanos que têm de se adaptar ao frio e à escuridão. Em terra, lemingues e arganazes enterram-se profundamente na neve para se alimentarem dos restos de sementes do ano anterior, enquanto o esquilo do Árctico prefere hibernar e até os ursos polares podem se esconder durante a pior altura do Inverno, abrigando-se nas suas tocas (este comportamento é conhecido como “shelter denning” em inglês). Muitos animais ajustam os seus ritmos diários, alimentando-se e dormindo durante curtos períodos ao longo do dia, de modo a conservarem energia.

Os olhos das renas adquirem um brilho azulado no Inverno, uma adaptação que lhes permite encontrar os líquenes que têm mais facilidade em consumir durante os meses de escuridão. No mar, o zooplâncton continua a fazer a sua migração diária desde as águas mais profundas até a superfície seguindo a luz da Lua.

Família Tatatoapik posa para um retrato junto a Arctic Bay
ACACIA JOHNSON

Sob a luz da noite cheia do Inverno, a família Tatatoapik posa para um retrato junto a Arctic Bay, Nunavut. Os Invernos são longos e escuros junto ao Círculo Árctico, mas as comunidades encontraram maneiras de apreciar a noite longa.

Não imunes às alterações climáticas

Mesmo no escuro, as gélidas regiões polares sentem os efeitos das alterações climáticas – que, ironicamente estão a trazer simultaneamente mais e menos luz à noite polar. O gelo marinho, que se tornou mais fino devido às temperaturas mais altas, está a permitir a passagem de mais navios e a poluição luminosa que os acompanha poderá estar a afectar o comportamento de organismos marinhos que vivem mais de 180 metros abaixo da superfície.

E, em algumas zonas do Árctico, como Svalbard, as temperaturas mais quentes causaram uma diminuição do manto de neve e até a queda de chuva durante o Inverno, tornando a mais escura e mais desafiante das estações ainda mais escura e difícil de enfrentar.

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.