O cobalto é essencial para alimentar a nossa tecnologia moderna. O metal é comumente utilizado para fabricar baterias de iões de lítio, que se encontram em veículos eletrónicos, computadores, smartphones e até cigarros eletrónicos.

Com cada vez mais países a virarem-se para as energias renováveis, a procura por estas baterias nunca foi maior. Segundo um parecer técnico do Fórum Económico Mundial, espera-se que a procura mundial de cobalto quadruplique até 2030, em grande parte devido à adopção generalizada de veículos eléctricos.

No entanto, o cobalto que ajuda a alimentar estas e outras tecnologias é acompanhado por graves preocupações humanitárias nos locais onde é extraído, na República Democrática do Congo (RDC).

Estas minas foram alvo de investigações e reportagens e ganharam recentemente atenção generalizada em redes sociais como o TikTok. Preocupados com as condições em que o cobalto é produzido, os utilizadores do TikTok apelaram ao abandono dos cigarros electrónicos e dos vaporizadores, que contêm quantidades residuais de cobalto nas suas baterias. Num vídeo partilhado e massivamente disseminado na recta final de 2023, uma criadora de conteúdos da plataforma anunciou que ia deixar de usar vaporizadores devido às preocupações com a extracção de cobalto. Contudo, para reduzir efectivamente a procura de cobalto teremos de prescindir de muito mais.

Partilhamos consigo o que precisa de saber sobre este metal versátil, mas polémico.

O que é o cobalto e como é utilizado?

Este lustroso metal azul-prateado ajuda as baterias a armazenarem uma grande quantidade de energia, mantendo as temperaturas estáveis em condições de frio e calor extremo, o que o tornou útil para muitas aplicações aeroespaciais, médicas e na área da defesa – e um elemento-chave em muitas tecnologias de energia limpa.

O cobalto também desempenha um papel essencial no desempenho das baterias de iões de lítio. Ao contrário de muitas das baterias comuns que existem nas nossas casas, as baterias de iões de lítio podem ser recarregadas e reutilizadas ao longo de anos. No entanto, são mais caras e difíceis de reciclar. Estas baterias fazem de tudo, desde alimentar dispositivos portáteis a armazenar energia em redes eléctricas. Contudo, este material dinâmico também é caro, tóxico e difícil de extrair e processar.

Mais de 70 por cento do cobalto é extraído de minas no Congo: 15-30 por cento vem de “minas artesanais”, onde milhares de mineiros por conta própria trabalham em condições sub-humanas e degradantes, a troco de poucos dólares por dia, explicou Siddharth Kara, bolseiro da Faculdade de Saúde Pública T.H. Chan, da Universidade de Harvard, à rádio pública americana NPR.

Kara investiga a escravatura, tráfico humano e trabalho infantil nos tempos modernos há duas décadas e o seu livro mais recente, intitulado Cobalt Red, explica como a chamada corrida ao cobalto resultou num número incontável de mortes e poluição generalizada da água, solo e atmosfera da região. Além disso, existe cobre e urânio ao lado do cobalto nas minas congolesas – e o segundo é um famoso agente carcinogénico.

Para determinar o efeito que o cobalto tem nas pessoas que vivem junto às minas, investigadores da KU Leuven, na Bélgica, e da Universidade de Lubumbashi, na RDC, realizaram um estudo de caso em Kasulo, um bairro urbano na cidade de Kolwezi, que se situa no centro de um depósito congolês. Quando foi descoberto um minério de cobalto sob uma das casas, o bairro inteiro foi rapidamente engolido por uma mina artesanal, disseram os investigadores. Dezenas de poços foram aparecendo no meio das casas, nos quais centenas de mineiros artesanais procuravam cobalto enquanto os residentes continuavam a viver nas proximidades, aparentemente sem preocupações de saúde ou de segurança.

“As crianças que vivem no bairro mineiro tinham dez vezes mais cobalto na sua urina do que crianças residentes noutros locais”, diz Benoit Nemery, um dos autores do estudo e especialista pulmonar na KU Leuven. “Os seus valores eram muito mais altos do que aceitaríamos em operários fabris europeus”.

Uma das grandes preocupações de saúde para os mineiros e as comunidades que vivem perto das minas é a poeira, diz Nemery, pois esta contém partículas aerotransportadas de cobalto e outros minerais, incluindo urânio – que são libertadas durante o processo de extracção. Alguns cientistas temem que esta exposição possa provocar problemas de saúde a longo prazo, como doença pulmonar.

“O urânio também liberta um gás denominado rádon e os níveis de rádon nas minas são muito, muito altos. O rádon é um carcinogéneo que pode provocar cancro do pulmão”, diz Nemery. “Mas não sabemos até que ponto existe uma maior incidência de cancro do pulmão na zona porque é um bairro muito mal servido em termos médicos.”

Existem alternativas ao cobalto?

Reagindo ao impacto ambiental do cobalto e às preocupações com os direitos humanos, várias empresas famosas, incluindo a Apple e a Tesla, comprometeram-se a reduzir a sua utilização de cobalto e a obtê-lo de produtores mais responsáveis. A fabricante automóvel BMW compra cobalto para os seus veículos eléctricos a Marrocos e à Austrália desde 2020.

Embora a Tesla tenha reduzido a sua utilização média de cobalto em mais de 60 por cento e use actualmente baterias sem cobalto nos seus novos modelos de automóveis, também assinou um contrato de longo prazo com a maior empresa mineira do mundo, a Glencore, para adquirir 6.000 toneladas anuais de cobalto extraído na RDC. Este acordo sugere que o cobalto congolês continuará a ser um recurso essencial para os fabricantes de baterias, segundo o parecer técnico do Fórum Económico Global sobre a extracção artesanal de cobalto na República Democrática do Congo.

Reciclar estes dispositivos recarregáveis seria uma excelente solução para reduzir a dependência global da extracção mineira, diminuindo simultaneamente os custos para o consumidor e o impacto ambiental dos resíduos electrónicos.

A Redwood Materials, uma empresa de reciclagem de baterias e resíduos eletrónicos fundada por J.B. Straubel, antigo director tecnológico da Tesla, especializou-se na recuperação de materiais como o cobalto. A empresa pega em baterias de iões de lítio, decompõe-as e extrai os seus metais – incluindo cobalto, lítio, cobre e níquel - para utilizar em novas baterias.

A Redwood Materials estima produzir materiais reciclados suficientes para um milhão de veículos eléctricos anuais até 2025.

A mineração de cobalto causa polémica nos EUA

Para ampliar a oferta doméstica de minerais raros e reduzir a sua dependência quase total de fontes estrangeiras de cobalto, os EUA aumentaram as suas operações mineiras no país. Estes materiais fazem parte de uma estratégia nacional de transição para energias renováveis e veículos com emissões zero a longo prazo.

Segundo a Agência de Protecção Ambiental dos Estados Unidos da América (EPA), o sector dos transportes continua a ser a maior fonte de emissões de carbono nos EUA e a transição para os veículos eléctricos desempenhará um papel essencial na redução de emissões de gases com efeito de estufa.

Contudo, as novas minas nacionais necessárias para produzir matérias-primas para as baterias dos veículos eléctricos poderiam invadir terras indígenas. Vários metais, como o cobalto, foram encontrados a cerca de 56 quilómetros de reservas de Nativos Americanos. Isto inclui 97 por cento de reservas de níquel, 89 por cento de cobre, 79 por cento de lítio e 68 por cento de cobalto nos EUA, concluiu a MSCI ESG Research.

Lisa Benjamin, professora associada de direito na Faculdade de Direito Lewis & Clark, em Portland, no estado de Oregon, diz que, embora estes metais sejam essenciais para uma revolução das energias renováveis, é importante não sacrificar a saúde e segurança das comunidades que vivem perto destes depósitos.

Num esforço para evitar prejudicar as comunidades Nativas, Benjamin diz que o Bureau of Land Management deve adoptar políticas mais estritas que proíbam a mineração nos locais sagrados das reservas ou em zonas com importância cultural situadas na sua proximidade e garantir a participação dos líderes tribais no processo.

Benjamin acrescenta: “Eles deveriam poder pronunciar-se quanto ao avanço destes processos e, neste momento, não podem”.

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.