Na cordilheira dos Andes, na região sudoeste da Bolívia, existe uma planície de sal resplandecentemente branca denominada Salar de Uyuni. Caracterizada pelas suas vastas superfícies semelhantes a um espelho e atmosfera seca, a planície oculta sob a sua superfície um precioso metal alcalino que dá energia a grande parte do mundo contemporâneo.

O Salar de Uyuni situa-se no triângulo do lítio, que abrange a Argentina, a Bolívia e o Chile. Esta região contém as maiores reservas de lítio do nosso planeta: o material que dá vida às baterias de iões de lítio que alimentam os dispositivos electrónicos utilizados por milhares de milhões de pessoas em todo o mundo.

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FOTOGRAFIA DE CEDRIC GERBEHAYE, NATIONAL GEOGRAPHIC IMAGE COLLECTION

Trabalhadores numa fábrica de lítio na Bolívia usam martelos para quebrar uma camada de sal que, periodicamente, entope os canos que transportam a salmoura com lítio para as piscinas de evaporação. O lítio é essencial para alimentar as nossas baterias modernas, mas a sua produção é prejudicial para o ambiente local.

As baterias de iões de lítio são recarregáveis e utilizáveis em veículos eléctricos, smartphones, computadores portáteis e escovas de dentes eléctricas, entre outros dispositivos. Estas baterias têm diversas vantagens, que as tornam líderes de mercado em relação a outras alternativas.

Um relatório publicado na revista Nature em 2021 estimou que o mercado das baterias de iões de lítio cresceria de 30 mil milhões de dólares americanos em 2017 para 100 mil milhões de dólares em 2025.

As baterias de iões de lítio são a espinha dorsal de veículos eléctricos como os Tesla e são consideradas de baixa manutenção, uma vez que não necessitam de ciclos agendados para manterem a sua autonomia. Também possuem densidades e voltagens extremamente elevadas e armazenam energia renovável, nomeadamente solar ou eólica.

“O maior motivador para as baterias de lítio são os veículos eléctricos, que reduzirão a nossa dependência dos combustíveis fósseis”, diz Linda Gaines, analista de sistemas de transporte do Argonne National Laboratory. “É necessária muita energia e muitos recursos para produzir os veículos e as baterias, em particular.”

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FOTOGRAFIA DE CEDRIC GERBEHAYE, NATIONAL GEOGRAPHIC IMAGE COLLECTION

Uma linha de montagem numa fábrica da BMW, na Alemanha, produz veículos eléctricos alimentados por baterias de lítio. Apesar das desvantagens, as baterias de lítio são essenciais para alimentar a tecnologia das energias renováveis.

Devido às emissões diárias do sector dos transportes, Gaines defende que estas baterias compensam o seu custo ambiental, mas alguns continuam preocupados com o seu custo para o planeta – e para nós próprios.

Serão as baterias de iões de lítio amigas do ambiente?

Apesar das suas vantagens, os cientistas enfrentam um dilema no que diz respeito ao impacto ambiental das baterias de iões de lítio. Embora seja verdade que estas baterias facilitam a energia renovável e produzem menos emissões de carbono, também têm as suas desvantagens.

O processo de mineração do lítio é destrutivo para o ambiente. A questão que se impõe é a seguinte: como justificar a destruição e poluição causada pela mineração em troca dos minerais preciosos que permitem a economia verde?

Uma vez que o lítio tem um raio e um peso atómico pequenos, as baterias possuem uma elevada voltagem e capacidade de carga por unidade de massa e de volume.

O departamento da energia dos EUA afirma: “Enquanto a bateria está a descarregar e a fornecer energia eléctrica, o ânodo liberta iões de lítio para o cátodo, gerando um fluxo de electrões de um lado para o outro. Quando o dispositivo é ligado à corrente, o oposto acontece: os leões de lítio são libertados pelo cátodo e recebidos pelo ânodo.”

Um dos métodos utilizados pelos engenheiros para extrair o lítio é a mineração através de salmoura, que envolve perfurar um depósito de salmoura subterrâneo e bombear a água até a superfície. Em seguida, a salmoura é enviada para piscinas de evaporação onde a água evapora, deixando o concentrado de lítio, que é posteriormente extraído.

No entanto, os relatos provenientes do Triângulo do Lítio alertam sobre os efeitos ambientais adversos da extracção mineira são graves.

A Euronews.com reporta que “a produção de lítio através de piscinas de evaporação consome muita água – cerca de 21 milhões de litros por dia”.

Nas zonas imensamente áridas da América do Sul onde é realizada a mineração, a água – um recurso escasso – é desviada das comunidades locais para as operações mineiras, causando uma poluição grave devido ao ácido sulfúrico e ao hidróxido de sódio, para além de escassez de água.

Segundo o Natural Resources Defense Council, “os membros da comunidade argumentam que o esgotamento dos níveis de água em poços, lagoas, lençóis freáticos e terras húmidas tem exercido efeitos prejudiciais nas suas práticas agropastoris e que têm observado um aumento da mortalidade dos flamingos e dos camelídeos devido à poeira poluente gerada pelas actividades mineiras”.

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FOTOGRAFIA DE CEDRIC GERBEHAYE, NATIONAL GEOGRAPHIC IMAGE COLLECTION

O lítio é desidratado e compactado nas planícies de sal do deserto do Atacama no Chile. O lítio surge naturalmente em alguns solos desérticos, mas a sua extracção exige químicos tóxicos. Duas espécies de flamingos que vivem nesta região estão ameaçadas pela mineração do lítio.

As baterias de lítio são seguras?

As baterias de lítio costumam ser consideradas seguras para as pessoas e as suas casas e funcionam bem, desde que não tenham defeitos. Embora os defeitos sejam invulgares, já houve baterias de iões de lítio que pegaram fogo. Zheng Chen, professor de nanotecnologia da Universidade da Califórnia, em San Diego, recorda um caso em que um telemóvel se incendiou durante um voo. Também já aconteceu automóveis Tesla pegarem fogo. E baterias de lítio já pegaram fogo numa estação de armazenamento de energia em Monterey, na Califórnia.

Quando a bateria está a arder, liberta calor, pressão e um gás tóxico através da evaporação. Quando misturados com o vento, esses gases podem dispersar-se para comunidades habitadas por seres humanos. “Isto pode ser uma preocupação, se não houver uma boa estratégia de mitigação no design desses sistemas. Tem havido alguns incidentes em que veículos eléctricos se incendiaram em garagens. Não são comuns, mas aconteceram”, diz Chen.

Chen não está convencido de que todos os riscos possam ser eliminados. “Pode haver danos mecânicos, mesmo quando não os esperamos.” Para mitigar este risco, a Occupational Safety and Health Administration aconselha aos consumidores a “removerem os dispositivos e baterias de iões de lítio do carregador após o carregamento e armazenar os equipamentos e baterias de lítio em locais frescos e secos. Além disso, os consumidores também devem “inspeccionar as baterias, procurando sinais de danos e, caso os encontrem, retirá-los de qualquer local onde existam materiais inflamáveis”.

Artigo publicado originalmente em inglês em nationalgeographic.com.