O focinho franzido da lontra 820 estava encostado à grelha da sua caixa e ela guinchava como as lontras guincham quando sentem medo, indignação ou chamam pelos companheiros. A lontra tinha olhos escuros, pêlo castanho-escuro e um transmissor de rádio implantado no abdómen. Com 16 meses de idade, era uma adolescente e toda a sua vida fora marcada por acontecimentos perturbadores. Abandonada pouco depois do nascimento, içada para uma carrinha, alimentada a biberão por seres humanos e criada por uma lontra-marinha que substituiu a sua progenitora na piscina exterior de um aquário, a Lontra 820 era uma pequena parte de uma longa experiência ecológica – uma espécie de redenção pelo massacre da sua espécie mais de um século antes.

Em resumo, ela estava dentro de uma caixa, sobre o convés de uma embarcação insuflável.

“Vamos ver como isto corre”, disse Karl Mayer. Era uma manhã de fim de Verão. Karl e a sua colega Sandrine Hazan, especialistas do Aquário da Baía de Monterey, na Califórnia, aceleravam a embarcação rumo a águas mais profundas. No aquário, o edifício que se perdia ao fundo entre o nevoeiro, já se formava uma multidão em redor do tanque das lontras. Da perspectiva das residentes do tanque, a espécie humana deve, por vezes, parecer um alinhamento de sorrisos patetas e telefones erguidos. Duas voltas ondulantes na piscina, uma esfregadela do nariz com as patas ou uma sessão rápida de jogo com bolas de plástico – tudo parece divertir os bípedes que se encontram do outro lado do vidro. Uma cabeça com bigodes espreita e escolhe alguns curiosos com quem namoriscar, provocando uma explosão de alegria.

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Uma fêmea põe as patas sob o queixo enquanto dormita numa floresta de laminárias na baía de Monterey. “O seu carácter amoroso é um problema de relações públicas”, diz Gena Bentall, responsável pelo Sea Otter Savvy e bióloga da organização que pugna por comportamentos sensatos na proximidade de lontras-marinhas selvagens. Por vezes, alguns observadores de lontras aproximam-se demasiado ou até as perseguem, numa tentativa de captar mais fotografias. Fotografia de Ralph Pace.

A graciosidade das lontras-marinhas é tão implacável que as pessoas que trabalham com elas durante todo o dia, embora não lhe sejam imunes, consideram-na exasperante. A ideia de que as lontras-marinhas selvagens seguram a pata umas das outras para não se afastarem, por exemplo é encantadora, mas errada. Há alguns anos, duas lontras-marinhas de um aquário foram fotografadas a flutuar de pata dada. Essas imagens foram divulgadas na Internet, mas não há provas fiáveis de que as lontras-marinhas o façam regularmente em mar aberto. É verdade que abraçam as crias enquanto nadam de costas. Também é verdade que, por vezes, convergem em jangadas, parecendo companheiras reunidas numa agradável flutuação em grupo.

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Uma cria de lontra examina uma das florestas de laminárias da baía, procurando caranguejos ou búzios para levá-los até à superfície e comê-los. As bolsas improvisadas de pele folgada existentes sob as axilas são ideais para guardar o alimento durante o transporte. Próxima escala: o leito marinho em busca de mexilhões, amêijoas e ouriços-do-mar. Fotografia de Ralph Pace.

Contudo, as lontras-marinhas podem ser ferozes. São predadoras carnívoras e fortes. Têm mandíbulas e dentes que esmagam conchas de bivalves e arrancam as tripas a animais com espinhos mais pequenos. A sua história de quase extinção é um drama brutal que começa no século XVIII, quando marinheiros russos que exploravam as ilhas Aleutas descobriram o que os povos indígenas costeiros do Pacífico já sabiam: as lontras-marinhas estão revestidas com o pêlo mais espesso e luxuoso do mundo. Os indígenas também valorizavam essas peles, mas praticavam a sua caça a um ritmo sustentável para as lontras. Os novos caçadores não possuíam o mesmo bom senso. Até 1911, quando um tratado limitou o comércio internacional de peles de foca e lontra-marinha, tudo o que restava da população de lontras-marinhas que outrora circundou o Pacífico limitava-se a alguns grupos. Seriam 150 mil a 300 mil desde a Baixa Califórnia até às ilhas setentrionais ao largo do Alasca, da Rússia e do Japão.

Agora, nas águas ao largo do continente norte-americano, um tipo diferente de intervenção humana tem ajudado as lontras-marinhas a sobreviverem e a propagarem-se. Não é fácil um predador carnívoro e forte enquadrar-se num mundo que mudou na sua ausência.

No meio deste choque de opiniões sobre a Enhydra lutris, havia algo de reconfortante no rigor da tarefa matinal: ajudar a Lontra 820 a regressar ao mar em segurança.

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Disfarçada, Sandrine Hazan, do Aquário da Baía de Monterey, alimenta uma cria resgatada. Estes disfarces ajudam a impedir que os juvenis associem os seres humanos a conforto e alimento quando são devolvidos à natureza. Fotografia de Charlie Hamilton James.

Karl desligou o motor e estudou a água verde-acinzentada. As lontras-marinhas resgatadas do aquário de Monterey têm números em vez de nomes para manter os sentimentos sob controlo. O plano é devolvê-las à natureza sempre que possível. A Lontra 820 chegou à unidade de cuidados intensivos do aquário depois de alguém relatar o avistamento de uma cria encalhada na praia. Uma equipa deslocou-se ao local para a recolher — entre as Lontras 819 e 821. Esta era a segunda tentativa de libertá-la, após o fracasso da primeira, meses antes: Karl e Sandrine monitorizaram-na através de um transmissor enquanto ela deambulava, comia pouco e continuava a perder peso. Quando finalmente a trouxeram de volta, ela estava tão mal que caiu na sua rede, sem protestar.

“Permitimos que recuperasse a saúde e um peso normal”, disse Karl. “Agora, estamos a tentar de novo.” Karl acenou com a cabeça e Sandrine empurrou a caixa do animal para a borda da embarcação. Inclinou-a e abriu a porta com força.

Uma lontra-marinha recém-nascida pesa cerca de dois quilogramas, parece uma almofada de pêlo com globos oculares e precisa de uma progenitora para tudo durante os meses seguintes – não apenas para comer, mas também para lhe dar as instruções mais básicas sobre a maneira de se manter viva. Os machos adultos não ficam por perto para ajudar e as crias não sabem instintivamente como capturar marisco no leito marinho, abrir a carapaça de um caranguejo ou empilhar pedras trituradoras sob as axilas enquanto nadam. Têm de ser constantemente ensinadas a limpar-se, afofando o pêlo e soprando ar para baixo do subpêlo. As lontras-marinhas não têm gordura subcutânea e o seu famoso pêlo é um espesso sistema de isolamento para as manter quentes dentro de água, onde passam a maior parte do tempo. No Pacífico, uma lontra-marinha com o pêlo emaranhado ou feridas na pele pode rapidamente enregelar até à morte. O Aquário da Baía de Monterey realiza experiências de recuperação de lontras-marinhas desde a sua fundação, em 1984, concentrando-se na vida marinha da região. Algumas das últimas lontras-marinhas sobreviventes ao largo da Califórnia não viviam longe de Monterey. Os cientistas chamam-lhes lontras-marinhas meridionais para as distinguirem das setentrionais, que vivem junto da fronteira com o Canadá e mais a norte. Não tardou muito até que relatos de lontras meridionais feridas ou arrojadas desencadeassem novos salvamentos e reabilitações no Aquário. Os veterinários residentes realizaram cirurgias de urgência. Uma área, encerrada ao público, tornou-se a ala neonatal para lontras-marinhas.

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Como até as crias saudáveis precisavam de aprender a crescer, os funcionários começaram a assumir o papel de progenitoras substitutas. Karl Mayer já não trabalha no Aquário, mas, no início da sua carreira científica, os seus deveres incluíram algumas noites em claro no berçário aquático das lontras-marinhas, acalmando e dando biberão a uma cria ansiosa. Ele levava a cria consigo até à baía, com um cinto de pesos sob o fato de mergulho e mostrava-lhe como mergulhar para apanhar marisco enquanto a sua pupila o observava de cima. Usava os dentes para abrir as carapaças de caranguejos vivos – uma demonstração parental – enquanto flutuava de costas. Punha conchas no peito e batia-lhes com pedras. “Estamos essencialmente a exemplificar como é ser uma lontra-marinha”, diz. “Elas seguem-nos para todo o lado. Não é possível perder uma lontra-marinha bebé nem que queiramos.”

A tentativa e erro também ensinou os humanos. As lontras-marinhas não devem associar a imagem e o cheiro das pessoas a conforto ou alimento. Por isso, os prestadores de cuidados que lhes davam biberão improvisavam algo a que chamaram “disfarces de Darth Vader”: máscara preta, luvas e um poncho escuro para alterar a forma humana. Por fim, para minimizar o contacto entre crias e pessoas, os biólogos do Aquário procuraram incitar as fêmeas residentes a darem aulas de preparação para a vida aos juvenis. Eram animais resgatados cuja libertação na natureza fora, por várias razões, considerada inapropriada, mas ainda sabiam instintivamente o que fazer – como cuidar de uma cria, ensiná-la a procurar alimento e a manter-se quente, prepará-la para o encontro com outros da sua espécie no mar.

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Enquanto as progenitoras comem juntas num leito superficial de mexilhões na baía de Monterey, mantendo-se suficientemente perto para as vigiar, estas duas crias brincam: pulam, perseguem-se e revezam-se a dar voltas às cavalitas. Fotografia de Ralph Pace.

Nenhum aquário tentara fazê-lo antes. A primeira progenitora substituta (nome dado pelos biólogos) inspeccionou as novas protegidas, percebeu claramente a tarefa que lhe fora entregue e lançou-se ao trabalho. Isto aconteceu há mais de vinte anos. A população de lontras-marinhas meridionais está actualmente estimada em cerca de três mil, uma recuperação encorajadora, ainda que modesta. Distribuem-se ao longo do terço central da orla costeira da Califórnia e 100 a 150 vivem na enseada protegida da baía de Monterey que o Aquário tem usado como local principal de libertação na natureza.

As lontras-marinhas selvagens partilham agora esse espaço com lontras-marinhas criadas por progenitoras substitutas e os seus descendentes e todas parecem ter percebido como capturar caranguejos e amêijoas do leito lodacento. Nos locais onde os seixos para esmagar as conchas eram escassos, elas improvisaram, usando conchas vazias ou batendo com as presas de concha dura contra os cascos dos navios ou nos pilares das docas. Estão a sobreviver. Estão a criar os seus filhotes. E estão a saciar o seu apetite prodigioso.

E aqui, problematicamente, está o dilema das lontras-marinhas no século XXI: o seu apetite.

As lontras-marinhas comem muito. A ingestão diária de uma lontra-marinha adulta pode corresponder a cerca de um quarto do seu peso e as progenitoras lactantes precisam de ainda mais. Comem marisco e cerca de um quarto deste não inclui as cascas. (Imagine cerca de 7,5 quilogramas de carne de marisco para uma lontra-marinha adulta de 30 quilogramas.) Nos seus territórios do Pacífico, as lontras-marinhas são uma espécie fundamental para o ecossistema. Os gigantescos apetites das lontras e a sua escolha de presas podem manter um equilíbrio saudável na zona que ocupam no mar.

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Numa embarcação comercial de pesca submarina, Jared Ellis acaba de içar pepinos-do-mar pescados por Craig Thomas, o dono do barco. Ao espalharem-se por outras regiões do Sudeste do Alasca, as lontras-marinhas mantiveram-se maioritariamente afastadas deste local, a baía de Kasaan. Contudo, lontras-marinhas errantes são agora aqui avistadas de tempos a tempos. “Achamos que é uma questão de tempo”, diz Jared, que trabalha na construção civil durante o Verão, mas espera tornar-se pescador submarino profissional. “É assustador.” Fotografia de Kiliii Yüyan.

Um dos mariscos consumidos pelas lontras-marinhas é o ouriço-do-mar. Os ouriços comem laminárias. Por isso, sem as lontras por perto para manter o seu número reduzido, os ouriços podem devorar florestas inteiras. Os cientistas estão agora a aprender que as florestas de laminárias, juntamente com as ervas marinhas que florescem na presença das lontras-marinhas, desempenham papéis fundamentais na resiliência marinha. As pradarias de laminárias constituem berçários protectores para pequenos peixes, aumentando o seu número e diversidade. As ervas marinhas filtram os poluentes da água e retêm o carbono nos sedimentos.

“As lontras-marinhas produzem grandes repercurssões”, explica o investigador de ecologia Tim Tinker, professor adjunto da Universidade da Califórnia e especialista em lontras-marinhas. “Por isso é tão importante compreendê-las”, diz o investigador, que passou décadas a estudar as populações setentrionais e meridionais. “Quando são retiradas de um ecossistema ou devolvidas a outro, tudo muda. E isso é disruptivo. Algumas pessoas vão gostar das consequências. E outras não.”

Analisemos o caso dos pescadores comerciais de marisco. “É como detonar uma bomba nuclear”, disse-me um pescador submarino chamado Jeremy Leighton certa tarde num café em frente do mar, descrevendo leitos marinhos que observara depois da passagem de lontras-marinhas esfaimadas. “Tudo é arrancado à medida que progridem.”

Jeremy vive em Ketchikan, no Alasca. Nasceu nesse estado, tal como o pai e a avó. As suas capturas incluem amêijoa-gigante, um grande bivalve que se enterra na areia, e pepino-do-mar. O seu território é o Sudeste do Alasca, actualmente o epicentro mundial das comunidades hostis às lontras-marinhas. Foi aqui que ouvi descreverem-nas como “uma praga” (um líder tribal haida) e “um desastre” (um pescador comercial de caranguejos, olhando para a água diante da sua embarcação). E um homem que pesca na região há quase 40 anos chamou-lhes “uma das coisas mais destrutivas do planeta”.

Para ser franco, essa última descrição foi precedida de “fofas, peludas, amorosas e tudo isso, mas na verdade…” O meu interlocutor era Ed Hansen, que trabalha com um grupo chamado Aliança de Pescadores do Sudeste do Alasca, do qual a mulher, Kathy, é directora executiva. Por outras palavras, apreciam o seu apelo popular, mas a sua percepção da história moderna da lontras-marinhas é a de intenções malsucedidas. Ao contrário das suas parentes meridionais, as lontras-marinhas setentrionais multiplicaram-se prolificamente nas águas de onde tinham desaparecido nas décadas recentes. Um estudo financiado pelo Serviço de Pescas e Vida Selvagem dos EUA realizado em 2021 calculou que haveria mais de 27 mil lontras-marinhas no Sudeste do Alasca. Cientistas canadianos estimam que mais oito mil vivam junto à costa da Colúmbia Britânica.

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Num grupo de lontras-marinhas, como este em Halibut Cove, no Alasca, os géneros tendem a separar-se: só fêmeas, com crias e frequentemente um macho territorial, ou só machos. Juntas, limpam-se e descansam entre sessões vigorosas em busca de alimento que frustram os pescadores humanos. “Estamos numa relação de longo prazo”, diz o cientista Tim Tinker. “Os seres humanos e as lontras-marinhas têm de redescobrir como coexistir.” Fotografia de Kiliii Yüyan.

A que se deve a enorme diferença entre os números de recuperação das lontras setentrionais e meridionais? As razões começam na intervenção humana há mais de meio século, quando o governo norte-americano estava a coordenar testes nucleares subterrâneos na ilha de Amchitka, 1.600 quilómetros a oeste do território continental do Alasca. Amchitka pertence às Aleutas e, embora seja precisamente esse o arquipélago onde começara a caça intensiva, em meados da década de 1960 era possível encontrar aqui algumas das lontras-marinhas selvagens remanescentes no mundo – “colónias residuais”, chamavam-lhes os biólogos. Depois de as ondas de choque da explosão do primeiro teste, realizado em 1965, matarem centenas destas lontras, os funcionários do Departamento de Pesca e Caça iniciaram um projecto colossal de deslocação de animais por via aérea: nos sete anos seguintes, mais de 700 lontras-marinhas foram retiradas das Aleutas e do estreito do Príncipe Guilherme, transportadas para leste e depositadas nas águas dos territórios ancestrais das lontras-marinhas no Noroeste do Pacífico.

As lontras libertadas ao largo do estado do Oregon não resistiram. Em 1981, tinham dispersado ou morrido. As lontras translocadas para o estado de Washington mantiveram-se ao longo de uma faixa de águas costeiras e o seu número foi aumentando gradual, mas lentamente. No Sudeste do Alasca e na Colúmbia Britânica, porém, os funcionários transferiram as lontras-marinhas para diversas baías e enseadas da orla costeira, que se revelaram um local protegido ideal para um crescimento rápido – alguns habitantes do Alasca diriam explosivo – da população. As fêmeas tiveram crias (sete a dez é o número típico ao longo da vida). As crias cresceram e tiveram crias. As colónias alargadas deslocaram-se para mais baías e enseadas em busca de alimento.

A lei de protecção dos Mamíferos Marinhos (MMPA) de 1972, interdita a possibilidade de matar qualquer animal, incluindo uma lontra-marinha, nos Estados Unidos. É um delito penal. Também não se pode “assediar” um mamífero marinho. Existem algumas, poucas, excepções, incluindo uma que se aplica aos povos nativos do Alasca, que podem caçar lontras-marinhas para “subsistência” ou para “vestuário e artigos de artesanato tradicionais”, sendo permitido esfolá-las e usar as suas peles apenas de acordo com o estipulado pela lei.

Isto significa que, se um indivíduo vir lontras-marinhas comendo o sustento da sua família, a MMPA decreta que não pode fazer nada, sendo ou não nativo do Alasca. (O Canadá tem proibições semelhantes, mas sem excepções para as Primeiras Nações Indígenas.) “A MMPA não foi redigida para lidar com a superabundância”, diz Mike Miller, membro do Conselho Tribal Sitka e presidente do Conselho para os Mamíferos Marinhos dos Povos Indígenas do Alasca. “Se olharmos para o seu impacte global na saúde dos oceanos, as lontras também têm um lado positivo. Tem de haver algo que se pareça com o equilíbrio.”

As lontras-marinhas tomaram bastante tempo de Mike Miller desde a transição de século. Ele faz parte de uma iniciativa cultural destinada a ensinar e a incentivar o tipo de caça e confecção de vestuário com peles de lontra-marinha permitidos pela lei – embora esteja a ser um desafio criar uma indústria viável de peles de lontra-marinha, dadas as múltiplas restrições à forma como estas podem ser obtidas e utilizadas. Mike também está intrigado com a situação ao largo da costa da sua terra natal, Sitka: no início da década de 2000, o crescente número de lontras-marinhas estava a devorar o marisco – caranguejos, abalones, quitões, ouriços – que os autóctones pescavam há gerações. Recentemente, porém, o número de lontras-marinhas diminuiu no estreito de Sitka e as reservas de marisco estão a aumentar. Será por acção dos caçadores nativos, incentivados por essa iniciativa cultural, que fizeram questão de matar as lontras nessas águas? Não eliminaram as lontras-marinhas do estreito, mas teriam abatido várias para as avisar a manterem-se à distância.

“As lontras são inteligentes”, diz Mike. “Não precisámos de matar todas.” A sabedoria tribal e a investigação académica sustentam a ideia de que as lontras-marinhas aprendem a reconhecer e evitar zonas de perigo e de que os povos indígenas podem, em tempos, ter usado locais específicos para caçar lontras para proteger zonas de marisco. É inquestionável que viviam rodeados por uma abundância de marisco e lontras-marinhas, muito antes, claro, da existência de transportes refrigerados e do apetite global pelos animais consumidos pelas lontras-marinhas.

Agora, Mike integra um grupo activo de “partes interessadas nas lontras-marinhas” do Sudeste do Alasca, nome pelo qual se designam os agentes de caça e pesca, os membros tribais, os cientistas e os pescadores comerciais. Em conjunto, tentam conceber um plano moderno para partilhar recursos com uma espécie fundamental que os seres humanos estiveram tão perto de eliminar.

“É importante reaprender a coexistir com as lontras-marinhas”, diz Tim Tinker. “Os seres humanos tinham aprendido isso. Depois, ao longo de 150 anos, os europeus que chegaram aprenderam como não o fazer.” Não surgiram propostas específicas das discussões no Alasca, mas há muita atenção sobre a região, em especial em zonas de forte aglomeração de lontras, como a área em redor da baía de São Francisco e a costa do Oregon. Ambas as regiões estão a ser estudadas como locais de reintrodução, pois dispõem de águas ricas em marisco que em tempos sustentaram milhares de lontras-marinhas e talvez possam voltar a fazê-lo. Em ambos os locais, colónias saudáveis de lontras-marinhas podem melhorar a qualidade da água e a vida vegetal, deliciando os turistas em simultâneo.

Em resposta, a indústria de pesca submarina local e os pescadores de caranguejos queixam-se de que também fazem parte do ecossistema. “Não somos necessariamente contra a reintrodução das lontras-marinhas”, diz Tim Novotny, director executivo da Comissão do Caranguejo Dungeness do Oregon, que se juntou ao debate em curso com a Aliança Elakha, um grupo de conservacionistas, cientistas, peritos costeiros e líderes tribais que exploram outra tentativa

de trazer as lontras-marinhas de regresso ao estado. “Eis a nossa preocupação: não queremos pôr na água uma bomba-relógio flutuante de devoradoras de caranguejos. As cabras são giras, mas ninguém quer ter cinco mil no quintal.” Elakha é uma palavra chinook para “lontra-marinha” e o presidente da Aliança, um homem chamado Robert Bailey, diz que ele e os colegas estão a trabalhar arduamente para aprender com a experiência do Alasca. Aceita considerar as lontras-marinhas como “tesouro de todos”, mas tenta simultaneamente redigir propostas de reintrodução que impeçam a perda de quantidades excessivas de capturas de marisco. Em qualquer caso, as lontras-marinhas teriam de ser colocadas estrategicamente e a sua população monitorizada de perto – argumenta. “Queremos minimizar esse impacte”, acrescenta.

Qual poderia ser a proveniência dessas lontras-marinhas introduzidas? Entre outras origens, poderiam provir das populações que incluem lontras criadas por progenitoras substitutas, como a Lontra 820. Um local de reintrodução cuidadosamente monitorizado poderia tornar-se outro local de libertação para as lontras-marinhas resgatadas pelo Aquário da Baía de Monterey e dois outros aquários da Costa Ocidental estão a desenvolver programas semelhantes ao de Monterey para emparelhar progenitoras substitutas com crias resgatadas. Estes programas também precisarão de locais de libertação adequados.

Regressemos à acidentada história da Lontra 820. Seguindo a tradição da sua espécie, a sua história transformou-se praticamente numa saga de sobrevivência: poucas semanas após a sua segunda libertação, arrastou-se até uma doca nos arredores, ferida e emagrecida. Fora mordida por um tubarão. Tinha parasitas. Os salvadores resgataram-na de novo, os veterinários cuidaram dela e, desta vez, a Lontra 820 foi formalmente declarada incapaz de viver em estado selvagem. Agora, vive numa piscina exterior delimitada por rochas no SeaWorld San Diego, onde “se diverte” com as colegas de piscina – todas lontras-marinhas resgatadas como ela, diz Shirley Hill, especialista em cuidados animais que trabalha há décadas com lontras-marinhas. “É muito bem-disposta.”

O seu nome também já não é um número. Uma votação pública rebaptizou-a de Nova e Shirley Hill diz que, apesar da forma como por vezes rouba comida às outras, parece ter conquistado até a lontra-marinha mais velha da piscina, que tende a isolar-se. Na última vez em que a vi, Nova brincava com um tubo de plástico cheio de pedaços de abalone e polvo congelados. Os tratadores do SeaWorld atiram-nos para a piscina para as lontras poderem bater-lhes e soltarem a carne. Nova decidira brincar com a sua primeira captura, equilibrando-a em cima da barriga, empurrando-a com o focinho, batendo com ela contra o vidro. Os espectadores apontavam e sorriam e um homem levantou a menina pequena que estava ao seu lado para ela conseguir ver melhor. “Que amorosas”, disse ele.

explorador

A National Geographic Society, empenhada em divulgar e proteger as maravilhas do nosso planeta, financia o trabalho do explorador Kiliii Yüyan, que documenta as comunidades humanas e o mundo natural, desde 2021. Ilustração de Joe Mckendry.