Na História das áreas protegidas, há uma data que parece ter sido escrita na pedra. Desde 1872 que Yellowstone reclama o estatuto de primeiro parque nacional do mundo, mas a realidade é quase sempre mais complexa do que uma cronologia linear.

Durante milhares de anos, a caça foi uma actividade reservada às elites e, pelo menos na Europa, as medidas de gestão e salvaguarda dos valores naturais estavam intrinsecamente ligados à manutenção deste privilégio. Quando o governo norte-americano classificou Yellowstone, a nação ainda não tinha um século e a iniciativa resultou de um ímpeto identitário que transcendeu em muito a visão moderna de conservação de natureza e biodiversidade. Em Portugal, foi necessário esperar mais um século até ser criado o primeiro e único parque nacional – o Parque Nacional da Peneda-Gerês – e uma rede com 13 parques naturais, nove reservas naturais e duas paisagens protegidas de âmbito nacional, às quais se somam ainda quatro de âmbito privado e várias áreas de âmbito regional e local.

A grande maioria das áreas protegidas nacionais foi implementada no último quartel do século XX, num contexto de forte migração dos campos para as cidades. Algo, porém, parece estar a mudar. Durante as fases mais agudas da pandemia, as zonas verdes em geral e as áreas protegidas em particular funcionaram como oásis de esperança onde comunidades impedidas de viajar puderam usufruir de momentos de lazer em contextos de risco reduzido de contágio.

Nos três mil quilómetros quadrados da Área Metropolitana de Lisboa, vivem quase três milhões de pessoas que, nas férias e nos fins-de-semana, deslocam-se com frequência à praia ou ao campo em zonas que muitas vezes não associam à rede de áreas protegidas, embora estejam de facto classificadas. Nas últimas décadas, o número de praticantes de caminhada, surf, escalada, corrida ou ciclismo não parou de crescer e os melhores locais para o fazer são aqueles mais distantes do trânsito e da poluição.

Ricardo Nogueira Mendes licenciou-se em Biologia, mas sempre se interessou pela Ecologia Recreativa e pelo desenvolvimento de modelos de gestão de áreas protegidas que conciliem a preservação de valores naturais e a visitação. Por isso, foi com naturalidade que em 2011 iniciou um doutoramento em Geografia e Planeamento.

Como morava na Margem Sul e praticava BTT ao fim-de-semana, desenvolveu um projecto para medir as repercussões da prática da modalidade no vizinho Parque Natural da Arrábida. Ricardo Nogueira Mendes procurou sobretudo compreender como se articulavam dimensões potencialmente conflituantes. Com um problema crónico de falta de pessoal, as instituições que gerem e fazem vigilância em áreas protegidas têm dificuldade em calcular o número de visitantes e em aferir as áreas mais concorridas. O investigador planeara ajudar a esclarecer essas dúvidas e, para tal, preparava-se para entrevistar praticantes da modalidade e passar longas horas a contar ciclistas.

A estas metodologias tradicionais, tencionava adicionar contadores automáticos que, no seu conjunto, ajudassem a compor um retrato da intensidade e distribuição de ciclistas naquela área protegida.

O destino, porém, tinha outros planos e a disseminação no mercado de uma multiplicidade de ferramentas digitais abriu uma caixa de pandora que o doutorando não desperdiçou. A democratização do uso das ferramentas de GPS e mais tarde a proliferação de smartphones e apps desportivas foi uma ajuda providencial para o projecto.

Descarrega os dados de um contador de passagem num dos trilhos
LuisQuinta

Acompanhado por vigilantes do Parque Natural da Arrabida, o investigador Ricardo Nogueira Mendes (ao centro) descarrega os dados de um contador de passagem num dos trilhos mais concorridos desta área protegida.

Cada vez mais pessoas usam estes sistemas para montar jogos de caça ao tesouro para adultos – o Geocaching. Ricardo Nogueira Mendes descobriu que, mesmo no interior das zonas de reserva integral do parque, onde o acesso é liminarmente interdito, existiam em determinado momento oito caches. Para cada uma, existia um registo exaustivo do número de visitas e muitos dados adicionais voluntariamente partilhados pelos jogadores.

Esta lógica de registo e partilha de actividades desportivas e de recreio alastrou rapidamente, transformando-se num palco onde os praticantes exibem as suas façanhas. Mais recentemente surgiram discussões éticas sobre a protecção de dados, mas quando os próprios utilizadores carregam na Internet os percursos que fazem de bicicleta, a correr a ou a nadar, isso produz um gigantesco rasto de informação que Ricardo Nogueira Mendes aproveitou. “Quando mostrei pela primeira vez aos gestores do parque os mapas com todos os percursos rotineiramente percorridos, o sentimento foi de surpresa”, conta o investigador. Havia muito mais utilizadores nas áreas que se pensava que não receberiam visitantes.

Estas ferramentas digitais têm outra virtualidade, pois os registos permitem olhar para o passado recente e analisar longas séries temporais. O investigador sublinha que, se houvesse intenção de montar um sistema de monitorização em tempo real, seria fácil obter dados fiáveis, pois estes registos permitem por exemplo ver o que aconteceu durante a pandemia.

A compreensão dos usos das áreas protegidas é imprescindível para melhorar a gestão. O investigador sublinha que “há frequentemente melhores formas de gerir do que através da interdição e que passam por definir a dimensão e a localização de zonas de estacionamento, acessos ou até a construção de uma oferta organizada que compatibilize as preferências de todos com a missão conservacionista destes territórios”.

Na Reserva Natural da Berlenga, onde foi possível estudar com minúcia o perfil da visitação, já foram criados limites ao número simultâneo de pessoas na ilha, embora o total de visitantes diários possa até exceder o de anos anteriores e o seu grau de satisfação seja mais elevado sem aumentar os impactes.

Na tese que Ricardo Nogueira Mendes defendeu recentemente, o seu olhar contemplou outras áreas protegidas da Área Metropolitana de Lisboa. A conclusão mais óbvia é que as pessoas da cidade valorizam a possibilidade de gozar do contacto com a natureza, nem que seja apenas por algumas horas por semana

Artigo publicado originalmente na edição de Janeiro de 2024 da revista National Geographic.