O panorama da conservação da biodiversidade está em constante evolução, com o aparecimento regular de novas ameaças e oportunidades. A este respeito, uma análise recente identificou 15 questões emergentes que são motivo de preocupação para a conservação da biodiversidade global. Este processo, iniciado em 2009, provou ser fundamental para antecipar e mitigar potenciais impactes negativos na biodiversidade.

PRINCIPAIS AMEAÇAS

Um painel de 31 cientistas e outros profissionais apresentou um total de 96 questões, que foram classificadas de acordo com a sua novidade e probabilidade de impacto na conservação da biodiversidade. As 37 principais questões foram discutidas presencialmente e online em Setembro de 2023, onde foram classificadas de acordo com os mesmos critérios.

As questões identificadas vão desde o desenvolvimento de novas fontes de combustível de hidrogénio até às alterações de temperatura na zona oceânica mesopelágica. Os avanços tecnológicos emergentes incluem impressoras de ADN de secretária e a criação de alimentos ricos em proteínas a partir do ar. Estes desenvolvimentos poderão influenciar significativamente a conservação biológica no futuro, quer positivamente, ao reduzir a pressão sobre a terra para a produção de alimentos, quer negativamente, ao afetar os ecossistemas marinhos e terrestres.

As inovações para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa provenientes dos sistemas industriais e energéticos foram também um tema recorrente na análise. Apesar dos programas anunciados por vários governos para apoiar a produção e a utilização de hidrogénio com baixas emissões, a sua aplicação tem sido desigual, o que sublinha a necessidade de políticas mais eficazes.

AS 15 PRINCIPAIS

Novas fontes de hidrogénio para a produção de energia: A utilização do hidrogénio como fonte de energia tem crescido consideravelmente. A maior parte é produzida a partir do gás natural, mas desenvolvimentos recentes poderão permitir a utilização directa da água do mar na eletrólise do hidrogénio verde. No entanto, a extracção de hidrogénio pode implicar o desenvolvimento de infra-estruturas de transporte em ecossistemas relativamente intactos e o risco de fuga de gases com efeito de estufa.

Produção descarbonizada de amoníaco: O amoníaco, utilizado principalmente como fertilizante, é produzido a partir de combustíveis fósseis através do processo Haber-Bosch. Um novo método utiliza microgotas de água e malha de grafite revestida com óxido de ferro para converter materiais amplamente disponíveis em amoníaco, o que poderá desempenhar um papel importante na redução das emissões de CO2.

Alimentos para consumo humano e animal a partir de bactérias autotróficas oxidadas pelo hidrogénio: A produção de alimentos é um dos principais factores de perda de biodiversidade. As empresas estão a trabalhar para produzir proteínas baratas com bactérias autotróficas oxidantes de hidrogénio, o que poderá descentralizar e dissociar a procura crescente de proteínas do impacto ambiental da sua produção.

Acelerar a fotossíntese artificial sem luz na agricultura de interior: melhorar a eficiência da fotossíntese pode facilitar a produção sustentável de alimentos. Um processo electrocatalítico concebido em laboratório que utiliza acetato em vez de glucose demonstrou ser até 18 vezes mais eficiente do que a fotossíntese biológica, permitindo a produção urbana de alimentos em edifícios de vários andares.

Adopção extensiva de técnicas de mineralização do carbono: a aplicação de pó de rocha, especialmente de basalto, em terrenos agrícolas poderia mineralizar grandes quantidades de dióxido de carbono. Embora isto possa aumentar o rendimento das culturas, os seus impactos ambientais mais alargados, como a poluição por metais pesados, ainda não são claros.

Provas do declínio das populações de minhocas em grandes regiões: As minhocas são engenheiros do ecossistema cruciais para a fertilidade do solo. Modelos simples sugerem que a utilização de pesticidas pode ter reduzido as suas populações a nível mundial, com efeitos significativos na saúde dos solos e na estrutura e função dos ecossistemas.

Utilização da ecoacústica para monitorizar a ecologia do solo: As tecnologias acústicas são utilizadas para avaliar a presença de animais subterrâneos. A ecoacústica do solo é uma utilização relativamente nova desta tecnologia, que poderá proporcionar uma compreensão mais completa da estrutura e função da comunidade do solo.

Impressoras de ADN de secretária: estas impressoras podem produzir ADN de cadeia dupla e apresentam novos riscos ecológicos e éticos, como a transferência não intencional de material genético para populações selvagens e a criação de espécies de culturas invasoras.

Extrapolação de avaliações de toxicidade química: mecanismos como as vias de resultados adversos (AOP) poderiam permitir a identificação da toxicidade potencial de novos produtos químicos antes de se acumularem observações dos seus impactos, melhorando a aplicação efectiva de agroquímicos com risco reduzido para espécies não visadas.

Cidade linear de arranha-céus NEOM (The Line): este projeto na Arábia Saudita poderá representar um risco substancial para as espécies migratórias, em particular para as aves passeriformes, devido à sua concepção e dimensões. Ainda não foi publicado um estudo de impacto ambiental.

A morte em massa de ouriços-do-mar afecta os ecossistemas marinhos: Os recentes episódios de mortalidade de ouriços-do-mar nas Caraíbas e no Mediterrâneo puseram em evidência potenciais alterações em alguns dos mares mais diversos do mundo, o que pode indicar uma ameaça emergente para os ecossistemas tropicais a nível mundial.

Remoção de dióxido de carbono do oceano: Embora essencial para limitar o aquecimento global, a eficácia das tecnologias baseadas no oceano para a remoção e armazenamento de carbono a longo prazo, bem como as consequências ambientais potencialmente prejudiciais, ainda não foram determinadas.

O aumento das temperaturas na zona crepuscular impacta a bomba biológica de carbono: prevê-se que o aumento das temperaturas diminua a eficiência da bomba biológica de carbono na zona mesopelágica, o que poderá afectar a disponibilidade e a qualidade dos alimentos para os organismos de profundidade e reduzir o potencial de sequestro de carbono oceânico.

A fusão do gelo antártico afecta as correntes oceânicas profundas: sugere-se que a redução da densidade da água causada pelo aumento da fusão do gelo e pela redução da concentração de sal pode reduzir a circulação abissal em 40% até 2050, afectando os fluxos de nutrientes, os níveis de oxigénio no oceano e o clima global.