Tiro(s) ao lado: Os dias em que João Chagas e Fidel não morreram

Não aconteceu, mas podia ter acontecido. A frase pode definir as tentativas de assassinatos de figuras conhecidas que podiam ter mudado a História… mas não mudaram.

Actualizado a

TR smiling in automobile tif
DOMÍNIO PÚBLICO

Theodore Roosevelt a sair do gabinete em Outubro de 1910.  (Fotografia publicada originalmente na American Press Association). 

A bala que matou Kennedy em Dallas. O avião que acabou com o esforço de Dag Hammarskjold em gerir a crise do Congo. A conspiração carbonária que acelerou o fim da monarquia em Portugal. A comédia de enganos que terminou no assassinato do Arquiduque Francisco Fernando e lançou sem impedimentos a Primeira Guerra Mundial. Eis alguns exemplos de alguns assassinatos que mudaram o rumo da história.

Em contraponto, este artigo aborda os momentos em que o assassino errou o alvo ou simplesmente tremeu. Contamos-lhe alguns pormenores de seis tentativas de assassinato que podiam ter mudado radicalmente a História se tivessem sido bem-sucedidas. 

1. TumultoS da Índia britânica

No dia 12 de Janeiro de 1924, um activista bengali pela independência da Índia chamado Gopinath Saha trocou as palavras pelos actos. Era dia de assassinar Charles Tegart, chefe do Departamento de Detectives da Polícia de Calcutá que liderava na região a contenção dos ímpetos nacionalistas. 

Tegard, que mais tarde também exerceu funções policiais no Mandato Britânico da Palestina, foi confundido com Ernest Day, um civil que teve a infelicidade de se cruzar no caminho de Saha. O activista foi imediatamente preso e enforcado na prisão central de Alipore poucas semanas depois. Foi morto a 1 de Março, não chegando a ver o seu país independente. Já Sir Charles Augustus Tegart faleceu em Abril de 1946, depois de, por exemplo, enquadrado no Ministério da Alimentação, ter combatido o mercado negro durante a Segunda Guerra Mundial. Acabou por não assistir à célere desintegração do império que defendeu durante a sua vida.

Outra história do colonialismo britânico na Índia que terminou mal (mas menos mal do que a anterior) relacionada com um assassinato falhado é a que opõe Vasadeo Gogte a Ernest Hotson. O último nascera em Glasgow e era um daqueles homens de carreira do funcionalismo público colonial durante a primeira metade do século XX.

A província de Bombaim fora onde concentrara o seu serviço à Coroa e de tal forma era bem visto pelo Raj britânico na Índia que sucedeu, durante um breve período de transição, a Frederick Sykes como Governador de Bombaim. Tal ocorreu durante um conturbado período na região, com vários levantamentos populares de protesto contra a ocupação estrangeira: a prisão de dois nacionalistas a 8 de Maio de 1930 intensificou os protestos e forçou Hotson a convocar Lei Marcial em toda a província. Um ano mais tarde, o episódio não fora esquecido: ao visitar a biblioteca do Colégio Ferguson, na cidade de Pune, um tiro surgiu entre o magote de estudantes que o recebia... e Hotson tombou sobre o chão. Esta era uma das mais voláteis zonas de todo o Raj. Pensou-se o pior, mas uma peça de metal incrustada na sua roupa salvou-o.

O autor rapidamente foi preso: Gogte, que protestava contra a tirânica administração simbolizada pela vítima. Inspirado pelo truculento e agitado movimento independentista indiano, foi condenado a oito anos de prisão. O seu alvo, num gesto de curiosa magnanimidade, comutou-lhe a pena e ainda lhe concedeu um crédito de 100 rupias para ajudá-lo nos seus estudos.

2. Theodore Roosevelt, 1912

TR smiling in automobile tif
DOMÍNIO PÚBLICO

Theodore Roosevelt a sair do gabinete em Outubro de 1910.  (Fotografia publicada originalmente na American Press Association). 

Na sua tentativa para um terceiro mandato como Presidente dos EUA, Theodore (ou Teddy) Roosevelt visitava Milwaukee, Wisconsin. O seu primeiro mandato fora o resultado do assassinato de William Mckinley em 1901 e Roosevelt, seu vice, ocupara o seu lugar. Fez então dois mandatos e inicialmente recusou um terceiro, cumprindo uma tradição instituída já desde George Washington de que ninguém devia ter mais do que dois mandatos presidenciais.

No entanto, descontente com o trabalho do seu sucessor, Teddy decidiu dar mais uma voltinha no carrossel eleitoral. No Hotel Gilpatrick, saindo para discursar a potenciais votantes no dia 14 de Outubro de 1912, a surpresa surgiu na forma de vários tiros, alguns deles atingindo o corpo do candidato. Olhando em redor, a furiosa cara de John Schrank, empunhando uma arma, confrontava-o.

Um experiente caçador, Roosevelt reconheceu de imediato que o seu ferimento não era grave: dois tiros acertaram-lhe o lado esquerdo, mas sem cuspir sangue, percebeu logo que fora bafejado pela sorte. Na verdade, a sua caixa de óculos, de aço, e o molho de 50 páginas do seu potencial discurso serviram de útil almofada ao mortal projéctil.

Schrank foi preso e à polícia contou a história de que, dias antes, o falecido presidente McKinley lhe surgira num sonho, fazendo queixinhas de Teddy e apontando-o como responsável pela sua morte. Roosevelt  seguiu para o evento planeado, recusando-se a ser tratado. Discursou durante hora e meia e, no hospital, descobriram que a bala se alojara, de facto, no músculo peitoral, mas sem perfurar o pulmão.

Schrank foi considerado inimputável por motivos de doença mental e passou os restantes 29 anos da sua vida num hospital psiquiátrico. Roosevelt viria a perder a eleição para o democrata Woodrow Wilson, mas não seria nem o último Roosevelt na presidência, nem o último a sofrer uma tentativa de assassinato. O seu irmão Franklin também teve problemas com um anarquista chamado Giuseppe Zangara, que também falhou no seu intento.

3. João Chagas, 1915

jOAO CHAGAS
DOMÍNIO PÚBLICO

João Chagas foi jornalista, diplomata e político. Fonte: Arquivo Municipal de Lisboa

Combatente político de maneira literal, João Chagas começou como jornalista, assumindo-se como Republicano por alturas do Ultimato Inglês em 1890. A partir daí, foi preso e condenado ao degredo pela sua participação nas várias conspirações que causaram turbulência nos últimos vinte anos da monarquia portuguesa, com a intenção de derrubá-la.

Com a Implantação da República, o empenho de Chagas à causa, e também o seu valor intelectual como pensador político, foi recompensado com o cargo de Presidente do Ministério. O cargo era interino e durou apenas dois meses, mas foi um dos variados serviços públicos que prestou durante a Primeira República Portuguesa.

A sua segunda passagem pela função, no entanto, precipitaria uma curiosa tentativa de assassinato de que foi alvo. Não necessariamente pelo método, mas pela identidade do assassino: um senador da República. João de Freitas ficou furioso ao saber que Chagas fora escolhido para suceder ao general Pimenta de Castro na chefia do Governo.

Os tempos era conturbados, com várias disputas sobre a legitimidade da presidência de Manuel de Arriaga, que dissolvera o Parlamento e convocara novas eleições. Freitas envolveu-se numa tentativa de golpe de Estado a 14 de Maio de 1915, de cujos planos fazia parte a eliminação de João Chagas.

Dois dias depois, Chagas chegara à estação da Barquinha, nos arredores do Entroncamento. O agressor entrou na sua carruagem e disparou cinco vezes sobre Chagas. Três dos tiros rasparam-lhe a cabeça, um mais sério acertou-lhe no olho, deixando-o cego desse lado. Freitas foi imobilizado por elementos da comitiva de Chagas e entregue à Guarda Nacional Republicana ali mesmo. Debatendo-se, tentou novamente carregar sobre a sua vítima, mas gentes da Barquinha acorreram ao local e lincharam o senador, numa longa tortura. A Guarda Nacional Republicana acabou por abatê-lo de carabina. Chagas viria a viver mais dez anos, morrendo de doença cardiovascular em Lisboa.

4. Bernardo Leighton e Anita Fresno, 1975

Bernardo
CC BY 3.0

O advogado democrata-cristão Bernardo Leighton junto da sua esposa Ana Fresno. Ambos foram alvo de uma tentativa de assassinato. Fonte: Biblioteca del Congreso Nacional de Chile

Leighton foi uma das mais destacadas figuras políticas do Chile antes do golpe de estado de 1973, onde Pinochet tomou o poder e transformou o país numa ditadura militar. Nos anos que se seguiram, uma campanha de terrorismo de Estado generalizado, em comunhão com outras ditaduras militares da América do Sul, executou, fez desaparecer e perseguiu críticos do regime. Entre os quais se veio a integrar o democrata-cristão Leighton que, com os seus contactos, conseguiu fugir do país, tornando-se um exilado em Roma.

A Operação Condor, como viria a ser conhecido todo este aparato, veio a encontrá-lo na capital italiana em 1975, onde tentou matá-lo. A 6 de Outubro, às oito e vinte de noite, Leighton e a mulher, Anita Fresno, passeavam nas ruas romanas quando um grupo de homens os abordou e disparou vários tiros que feriram o casal. Ambos sobreviveram, mas Fresno ficou paralisada para o resto da vida.

Ocorrendo num período particularmente intenso da vida política italiana, durante os chamados “Anos de Chumbo”, de constantes atentados terroristas por organizações conotadas com a extrema-esquerda – que se veio a descobrir mais tarde terem sido manipuladas pelos Serviços Secretos Italianos – a culpa parecia óbvia. No entanto, a investigação veio a deslindar que o atentado fora ordenado pelo general Manuel Contreras, líder da DINA, o serviço secreto chileno. Os autores materiais foram Steffano delle Chiaie, operacional italiano com ligações aos Serviços Secretos e à Gladio; Michael Townley, agente da CIA; e Raúl Iturriaga, homem de execuções da DINA. Num julgamento posterior, o americano e o chileno foram condenados; delle Chiaie, guardando muitos segredos políticos sujos de Itália, conseguiu ser ilibado. Leighton teve mais sorte do que Carlos Prats e Orlando Letellier, outros foragidos políticos chilenos assassinados em solo estrangeiro.

5. Fidel Castro

FIDEL
DOMÍNIO PÚBLICO

Fidel Castro enquanto jovem, na década de 1950. 

Não sendo um dado plenamente confirmado, um documentário lançado há uns anos pelo Channel 4 britânico intitulava-se “638 maneiras de assassinar Fidel Castro”. Os métodos das tentativas (alegadas e confirmadas) são criativos e variados: aspergir LSD na sala onde Fidel discursaria ao país, de maneira a que falasse entarameladamente e demonstrasse um comportamento errático; um fato de mergulho infectado com um tuberculose, causando-lhe uma morta longa e lenta ao longo de semanas; uma tentativa da Máfia de colocar comprimidos tóxicos de Botulinum na comida ou na bebida do ditador ou, em alternativa, nos seus charutos; um charuto explosivo; uma concha armada com uma bomba no fundo do mar, armadilhando Castro quando este se dedicasse ao mergulho submarino;  e num caso que corresponde mais a uma tentativa de lhe matar a aura, besuntar a barba de Fidel com um creme que rapidamente lhe fizesse desaparecer o pelo facial.

Castro nunca se deixou amedrontar por qualquer ameaça: quando em 1959, descobriu que uma das suas amantes, Marita Lorenz, fora paga pela CIA para trocar o frasco de um dos seus cremes faciais por outro que continha uma substância tóxica, encontrou-se na mesma com ela e deu-lhe uma arma, desafiando-a a que o matasse ali, cara a cara. Lorenz não conseguiu e, assim, Castro viveu até aos 90 anos, sabendo que nove presidentes dos EUA viveram com a obsessão de eliminá-lo fisica ou politicamente e que ele resistiu como a Sierra Maestra contempla o oceano.