Baixo, feio, com olhos esbugalhados, o nariz e as orelhas grandes e a boca muito larga, poderia dizer-se de Sócrates que seria a antítese do cânone grego de beleza. No entanto, a sua poderosa personalidade, a sua capacidade dialéctica, a sua fina ironia e um especial magnetismo fizeram dele uma figura célebre na Atenas do seu tempo. A Atenas de Fídias, do Pártenon, dos Propileus, do Erecteion e do Templo de Atenas Niké; a culta Atenas do século de Péricles, que alcançara o apogeu da arquitectura e da arte, viveu também, naquele século V a.C., guerras, pragas, penúria económica e a tirania. Nessa Atenas, passou os seus dias e morreu, com uma dignidade que ainda hoje surpreende, quem faria da filosofia uma forma de vida; um homem cujos ensinamentos, vinte e cinco séculos depois, conseguem ainda despertar as consciências.

Foi difundida a ideia de que o pai de Sócrates, Sofronisco, fora um pedreiro e escultor ateniense, mas nada confirma tal afirmação. Parece mais certo que este tivesse sido amigo da família de Aristides, o Justo, o que contribuiu para a organização da Liga de Delos. A mãe chamava-se Fenárete e trabalhava como parteira, o que pode fornecer mais algumas pistas sobre o estatuto social da família do filósofo, que eventualmente terá pertencido à tribo de Antioquia. Teve uma esposa, Xantipa, com a qual se casara quando tinha já uma idade avançada e três filhos, Lamprocles, Sofronisco e Menéxeno, embora, na realidade, o único dado da sua biografia que pode ser verificado é a data da sua morte em 399 a.C., quando Sócrates tinha 70 anos, pelo que se concluiu que terá nascido em Atenas, em 470 ou 469 a.C. Nada se sabe sobre a sua vida, excepto o que deixaram escrito sobre ele Platão, que fez dele o protagonista de quase todos os seus Diálogos, e Xenofonte, que escreveu uma Apologia de Sócrates.

Outros dois autores do seu tempo, Aristófanes e Amipsias, converteram-no numa personagem das suas comédias As Nuvens e Connos, e também Aristóteles, embora não o tenha conhecido, escreveu sobre o filósofo. Os textos deste último são considerados, em virtude do seu rigor intelectual, uma fonte fiável.

Sócrates

Sócrates conversa com Aspásia. A casa de Aspásia de Mileto, mulher culta e inteligente, ligada a Péricles, era um centro intelectual onde se reuniam filósofos, poetas, médicos ou políticos. Em cima, Sócrates visita Aspásia (1801), por Nicolas Monsiau (Museu Pushkin, Moscovo).

Um bravo hoplita

Parece que, na sua juventude, terá recebido uma boa educação, pois era versado em geometria e astronomia, e terá participado em várias operações militares na qualidade de hoplita, o cidadão-soldado das polei gregas. O próprio Alcibíades, o general grego, exalta a coragem e a resistência que o filósofo teria demonstrado no campo de batalha. Segundo este, numa expedição militar a Potideia, em 432 a.C., Sócrates teria caminhado descalço sobre o gelo e lhe teria salvo a vida, ajudando-o a escapar quando se encontrava em perigo. Também o escritor Íon de Quios situa Sócrates em várias campanhas militares entre 441 e 439 a.C. e afirma que, no seu percurso, se encontrou em Samos com o filósofo Arquelau, discípulo de Anaxágoras.

O que não deixa margem para dúvidas é que Sócrates era, em 423 a.C., aos 47 anos, uma figura popular e muito conhecida em Atenas. Em As Nuvens, Aristófanes faz uma ácida caricatura do filósofo. Retrata-o descalço, como um pobre mendigo, e embora o coloque reunido com os seus discípulos na “casa dos charlatões”, onde afirma que os ensina a “sustentar as ideias contrárias às justas”, também o considera” capaz de vencer todos os que se cruzam no seu caminho”. Platão e Xenofonte coincidem em apontar que o filósofo pertencia ao círculo de amigos íntimos do grande Péricles, do qual também faziam parte a que se tornaria esposa deste último, a mestre de retórica Aspásia de Mileto, o próprio Alcibíades e Pirilampes, o padrasto de Platão. No entanto, a imagem mais comum que dele chegou até nós coloca-o nas ruas, descalço, discretamente vestido e rodeado de jovens atentos às suas perguntas e comentários, com os quais costumava ridicularizar aqueles que, na sua presença, exibiam uma suposta sabedoria, o que lhe rendeu mais de um inimigo. Alcibíades conta que, quando estava a pensar, parecia que entrava em transe, sem prestar atenção ao que acontecia à sua volta, enquanto ao seu redor as pessoas se revolteavam, à espera, talvez, que algo de extraordinário acontecesse. No entanto, não era um asceta. Não era dado a excessos, mas aceitava a hospitalidade dos ricos e não renunciava a um bom debate, fosse com políticos, poetas ou artesãos, a quem costumava conduzir àqueles temas que mais lhe interessavam, como a noção de bom e mau.

Sócrates

Influência decisiva. A influência de Sócrates penetrou até na filosofia islâmica. Em cima, Sócrates e os seus discípulos na ilustração de um manuscrito árabe do século XIII (Palácio de Topkapi, Istambul).

O mais sábio entre os homens

Sócrates, que sempre mostrara um sincero respeito pela divindade, era já reconhecido como um homem sábio pela sociedade ateniense, quando a um dos seus amigos, Querefonte, ocorreu perguntar ao oráculo de Apolo, em Delfos, se o filósofo era o mais sábio dos homens, o que a pitonisa do santuário lhe confirmou.

Quando soube, Sócrates, que tomara a resposta do oráculo o suficientemente a sério a ponto de tentar compreender tal veredicto, propôs-se convencer os atenienses da falsidade da  afirmação do deus de Delfos, Apolo, e quis encontrar, entre aqueles que se consideravam a si próprios sábios, uma explicação coerente com a condição de que faziam gala, explicação essa que ninguém lhe conseguiu dar. Sócrates acabou por assumir as palavras da pítia concluindo que, se era mais sábio do que os outros, devia-se apenas ao facto de estar mais consciente da sua própria ignorância, enquanto os outros, sendo tão ignorantes como ele, se consideravam sábios. Tal resolução provavelmente contribuiu para acabar por convencê-lo de que os deuses lhe tinham confiado uma missão pedagógica: conseguir que os atenienses estivessem conscientes da sua ignorância e fazê-los compreender a extrema importância do conhecimento para o bem da alma. A partir de então, duas frases ficaram para sempre ligadas a Sócrates e à filosofia: a que fora gravada nas pedras do Templo de Apolo em Delfos, “Conhece-te a si mesmo” e a célebre “Só sei que nada sei”, na qual não nos devemos esquecer da ironia que os especialistas colocaram sempre na boca do filósofo ateniense. Sócrates não era um especialista em filosofia. Vivia a filosofia. Conhecer a alma humana encorajar os homens a procurar fazer que esta fosse o melhor possível, ou seja, que alcançassem a virtude, foi uma das suas principais preocupações. Assim mesmo escreveu Platão na sua Apologia de Sócrates: “Meu bom amigo – disse Sócrates – sendo ateniense, da maior cidade e a mais prestigiada em sabedoria e poder, não tens vergonha de te preocupar com a forma como obterás as maiores riquezas, a maior fama e as maiores honras, e, pelo contrário, não te preocupas nem te interessas pela inteligência, pela verdade e como a tua alma poderá ser o melhor possível?”.

A ele deve o pensamento ocidental o conceito de “alma”, acerca da qual ainda hoje nos questionamos. Até Sócrates ter começado a pensar sobre ela, a alma era, na Grécia, algo pertencente a outro mundo, pois era entendida como uma espécie de deus caído que habitava, durante algum tempo, no interior dos homens, onde se deveria purificar para se poder libertar depois da morte. Este conceito, desenvolvido pelos mistérios órficos, alterou-se totalmente a partir do momento em que Sócrates relacionou a alma com a consciência pessoal, identificando-a como a origem do pensamento humano e qualificando-a como sujeito activo da inteligência e da vontade. Viver na filosofia significava, para Sócrates, analisar a sua própria alma e a dos demais, para assim poder compreender a importância de praticar as virtudes: o valor, a piedade, a amizade, a força, a sensatez, a justiça e a temperança.

Sócrates

Exemplo de Sabedoria. O conselho atribuído a Sócrates para alcançar a sabedoria, “Conhece-te a ti mesmo”, está gravado nas pedras do Santuário de Apolo em Delfos. Na página seguinte, o tholos de Atena Pronaia no referido local.

Virtude, justiça, felicidade

Com o seu método para o alcançar, o diálogo, Sócrates pretendia desmascarar a falsa sabedoria como caminho essencial para a aprendizagem. Quando dialogava, não tentava convencer o outro, não dava a sua opinião, nem soluções para os problemas que formulava. Simplesmente procurava ensinar a pensar para que os seus interlocutores as descobrissem por si próprios: da mesma forma que a sua mãe ajudava as parturientes a retirar o filho do ventre, Sócrates ajudava os seus discípulos a retirarem as ideias das suas mentes. Mas não é de estranhar que muitos o tenham apelidado de sofista. Embora a sua atitude estivesse muito longe da dialéctica que estes praticavam, pois não cobrava pelos seus ensinamentos, nem, na verdade, ensinava a enganar, o seu método punha efectivamente em evidência um certo relativismo e um marcado cepticismo. No entanto, a sua verdadeira intenção, além da pedagógica, era a ética. Platão, no seu diálogo Críton, expressa-o muito claramente, ao colocar na boca do filósofo que “o viver não se deve considerar o mais importante, mas sim o viver bem”. E o “viver bem” consistia, para ele, em evitar o maior mal: a injustiça.

Para Sócrates, a felicidade encontra-se na prática da virtude, na procura de um conhecimento que não se pode basear no costume ou na tradição, mas sim na razão, na razão prática. Trata-se de mergulhar na busca para descobrir o que o homem é, e o que é bom para o homem, talvez fosse esta a razão pela qual nunca quis entrar na teia política da polis.

Embora, em determinada ocasião, em 406 a.C., tivesse sido eleito por sorteio como membro da Boulé, ou o “Conselho dos 500”, o órgão do governo da cidade, Sócrates, que não concordava com o modo como eram eleitos – preferia o conselho dos mais capazes e não dos designados pela sorte ou, como acreditavam os gregos, pelos deuses –, considerava mais importante dedicar-se à formação dos jovens que um dia seriam chamados a governar Atenas. Era nessa tarefa que, para ele, consistia o verdadeiro exercício da política, e assim o constata Platão, no seu diálogo Górgias: ���Creio que sou um dos pouco atenienses, para não dizer o único – sentencia Sócrates –, que se dedica à verdadeira arte da política e o único que a pratica nestes tempos.”

Sócrates entendia a sua actividade pública como uma vocação induzida pela divindade. O seu trabalho em benefício dos cidadãos, segundo a Apologia platónica, ter-lhe-ia sido encomendado “pelo deus, através de oráculos, de sonhos e de todos os demais meios, com os quais alguma vez alguém de condição divina ordenou a um homem que fizesse alguma coisa”, e aparentemente o filósofo estava convencido de que era realmente assim. Não nos esqueçamos que relacionava os seus actos com uma “voz divina”, a que chamou daemon, a qual lhe indicava o que não deveria fazer. Neste mesmo texto de Platão, pergunta-se a Sócrates qual o motivo que o afasta da política, e este conclui que “a causa disso […] é que existe em mim algo divino e algo demoníaco. […] Está comigo desde criança, consubstancia-se numa voz e, quando se manifesta, consegue sempre dissuadir-me do que vou fazer, nunca me incita. É isto o que se opõe a que eu exerça a política”.

Tanto durante o ano em que pertenceu ao conselho da cidade, como durante o governo dos Trinta Tiranos, em 404 a.C., Sócrates nunca deixou de manifestar a sua rebeldia contra a injustiça. Já o tinha feito em 406 a.C., opondo-se à condenação dos generais vitoriosos na batalha de Arginusas, foram acusados de terem abandonado no mar os seus homens, e fê-lo novamente quando o governo oligárquico dos Trinta, do qual faziam parte os seus discípulos Crítias e Cármides, quis que se pronunciasse a favor da prisão e condenação de alguns notáveis atenienses, desafio que o filósofo recusaria.

Sócrates preso

A prisão. Reprodução do edifício da prisão situada no extremo sudeste da ágora ateniense, onde se encarceravam os condenados à morte.

A condenação de um homem justo

Sócrates tinha 70 anos quando um tribunal, composto por quinhentos cidadãos de Atenas, o levou a julgamento, acusando-o de corromper os jovens e de não acreditar nos deuses de Atenas, mas sim, como afirma Platão na sua Apologia de Sócrates, “em outras divindades novas.”

Na cidade, que, após a sua derrota nas Guerras do Peloponeso regressara à democracia e vivia momentos difíceis, tinha na altura uma grande infiuência Ânito, um ateniense rico do Partido Democrata que participara de forma muito activa na fase final do governo dos Trinta Tiranos e que era um feroz adversário dos sofistas. Acredita-se que foi ele quem redigiu o discurso acusatório contra Sócrates, que foi lido pelo poeta trágico Meleto, o qual Sócrates ridicularizou durante o julgamento. Mais de metade dos quinhentos declarou-o como culpado; e, inclusive, depois de uma segunda intervenção do filósofo – que podia propor uma pena alternativa à da acusação – foram ainda mais os que se inclinaram no sentido da sentença de morte. Sócrates recusou admitir-se como culpado, fez gala da ironia e argumentou sarcasticamente que, tendo em conta quão pouco um filósofo custava à sociedade, talvez esta o devesse manter às custas do erário público. Não vacilou diante dos seus juízes nem perante a morte, que recebeu com integridade e dignidade, rodeado dos seus melhores amigos e discípulos.

Sócrates

Morte de um cidadão exemplar. A sentença de morte contra Sócrates demorou quase um mês a ser cumprida, pois, segundo a tradição ateniense, não poderia ser levada a cabo até que regressasse ao seu porto um navio que todos os anos partia para Delos em peregrinação sagrada. Durante o tempo em que Sócrates esteve preso, os seus amigos e discípulos propuseram-lhe várias vezes que fugisse, mas este recusou. Insistiu na sua obediência às leis de Atenas e em ser coerente com a filosofia que defendera. Assumiu a sua condenação com dignidade e, chegado o momento de ingerir a cicuta que o separaria deste mundo, reuniu os amigos em seu redor, dos quais se despediu com uma amável conversa e grande serenidade. Xenofonte, nas suas Memórias escreveu que “nenhum dos homens de que se tenha memória suportou a sua morte de forma mais bela”, e Platão, no seu Fédon, dedica ao seu mestre algumas páginas especialmente comoventes, em que coloca na sua boca palavras que reflectem na perfeição o carácter de um homem de elevada estrutura ética: “Já é hora de partirmos, eu de morrer e vocês de viver. Quem de nós se dirige para uma situação melhor é algo oculto para todos, excepto para deus.” Na imagem, o célebre quadro de Jacques-Louis David, A Morte de Sócrates (1787), que se conserva no MoMA de Nova Iorque.

SÓCRATES. O filósofo prepara-se para tomar a cicutaenquanto ensina os discípulos, apontando para o céu com o dedo indicador, um gesto que foi interpretado como uma demonstração de respeito pela divindade (fora acusado de não acreditar nos deuses). 

OS DISCÍPULOS. Ao lado de Sócrates aparece Críton, que apoia a mão na perna do filósofo, e atrás dele um grupo de discípulos, entre os quais Apolodoro (com as mãos apoiadas na parede), Critobulo e o seu pai e Hermógenes.

PLATÃO. Sentado de costas para o filósofo, Jacques-Louis David pintou um enlutado e envelhecido Platão, embora este fosse ainda jovem quando o mestre morreu. Aos seus pés, um papiro mostra a impotência da sabedoria. 

O CARRASCO. Um jovem carrasco, que o libertou das suas correntes, dá ao filósofo a cicuta que o matará. Envergonhado, vira o rosto. Não consegue olhar Sócrates nos olhos.