Série "Saber o que vestir": Averdugado (V)

Entre a Idade Média e o período Moderno, o averdugado era um objecto que se usava no corpo. Uma peça importante na definição da nova silhueta feminina, com variantes, até ao início do século XX.

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Pedro Garci´a de Benabarre St John Retable Detail
© Museu Nacional d’Art de Catalunya, Barcelona, Imagem em Domínio Público.

Retábulo de São João Baptista – detalhe de Salomé e senhoras usando verdugados (farthingales) antigos ou saias de argolas. Representação dos arcos concêntricos dos averdugados em “saias de fora”. Pedro García de Benabarre, O Banquete de Herodes, c. 1470 (pormenor). 

No dicionário da língua portuguesa, averdugado quer dizer "o que é flexível, o que se dobra facilmente". Mas nas décadas de transição entre a Idade Média e o período Moderno, o averdugado era um objecto que se usava no corpo. Uma peça importante na definição da nova silhueta feminina que permaneceria, com variantes formais e através da utilização de outras peças de vestuário (como os antecessores dos espartilhos), até ao início do século XX.

O averdugado era uma estrutura cónica feita de vimes – e, dependendo da geografia onde era fabricado, madeira, barbas de baleia, corda ou metal leve – e tecido. A forma era a de uma saia em cone, constituída com arcos concêntricos de diferentes diâmetros (do mais apertado na cintura até ao mais largo na bainha da saia), forrados e cosidos ao tecido que formava a “saia”, atado à cintura com fitas ou diferentes tipos de ilhoses, e que se usava por cima da camisa e por baixo das “saias exteriores” ou “de fora”.

O averdugado era suficientemente flexível para que o tecido das saias se movimentasse, mas estruturava a silhueta do corpo feminino: estreito na cintura e com uma saia ampla que caía de forma rígida. Esta silhueta e o averdugado eram usados por mulheres régias e aristocráticas que viviam na corte, reflectindo o seu estatuto social e riqueza.

Só as mulheres abastadas tinham recursos para usar esta peça, uma vez que havia que pagar a um alfaiate que a fizesse e, sobretudo, porque o seu uso implicava a restrição de movimentos do corpo e, portanto, o exercício de qualquer actividade profissional. Tendo surgido na corte, o averdugado foi um dos objectos que espelhou o poder que a mesma exercia, ao ser rapidamente copiado e adoptado pelas mulheres de estatuto social e económico elevado, conforme era costume, já que a corte e a família régia eram olhadas como modelos a imitar. 

Averdugado
Imagem cedida gentilmente pela Direcção-Geral do Património Cultural / MatrizPix

Saia com averdugado. Juan Pantoja de la Cruz (atr.), D. Joana de Albuquerque, segunda metade do século XVI-início séc. XVII. (Museu Nacional do Traje e da Moda, Lisboa, n. inv. 14398)

Usar averdugado era praticamente incompatível com o exercício de uma actividade profissional.

Apesar de terem surgido diferentes tipos de peças semelhantes ao averdugados na Europa ao longo do século XVI, nomeadamente o chamado “averdugado francês”, o averdugado terá surgido na corte aragonesa ou castelhana, estendendo-se o uso às outras cortes ibéricas. As representações mais antigas que se conhecem encontram-se no antigo reino de Aragão e datam a partir da década de 70 século XV (Figura 1, em cima), mostrando a saia em forma de cone com os arcos concêntricos do averdugado cosidos por fora da mesma e não numa peça individualizada por dentro, como com o tempo se tornaria o tipo mais comum.

A tradição associa o surgimento e uso desta peça à infanta Dona Joana de Portugal (1439–1475), rainha de Castela por casamento com Henrique IV (1425–1474), e filha póstuma do rei Dom Duarte (1391–1438) e da rainha Dona Leonor de Aragão (1402–1445), ainda que careça de confirmação historiográfica.

A corte e a família régia eram olhadas, também nos costumes, como modelos a imitar.

Com efeito, Dona Joana de Portugal foi a segunda mulher de Henrique IV, depois desse repudiar a primeira mulher e debaixo de fortes rumores sobre a impotência do rei castelhano, pelo que o uso desta peça pela infanta surge descrito nas fontes contemporâneas e interpretado pela historiografia tradicional como tendo servido para esconder as traições e consequentes gravidezes da rainha. Ou seja, servia sobretudo como subterfúgio moral para justificar os argumentos políticos e sociais que surgiram em consequência da crise dinástica em Castela após a morte de Henrique IV.

A SUA DISSEMINAÇÃO PELA PENÍNSULA

Seja qual for a origem concreta desta peça, a realidade é que se espalhou pelas cortes ibéricas com relativa rapidez e facilidade, uma vez que havia uma enraizada política casamenteiras entre as dinastias Avis e Trastâmara e estes objectos seguiam nas arcas que transportavam os dotes e os enxovais das infantas que se deslocavam para as suas novas cortes.

Foi o que se passou aquando do casamento da infanta Dona Beatriz (1504–1538) com o duque de Sabóia Carlos III em Setembro de 1521, então transportando a peça de vestuário para uma outra geografia. O ducado era no século XVI um estado que se estendia desde o cantão suíço de Genebra, passando pelos territórios (actualmente) franceses e italianos de Sabóia, pelo Piemonte e descendo pela cidade de Nice e seus arredores até ao Mediterrâneo.

O averdugado espalhou-se pelas cortes ibéricas com relativa rapidez, sendo transportado nas arcas dos enxovais e dotes das infantas que transitavam entre cortes.

Beatriz era a segunda filha do rei Dom Manuel I (1469–1521) e da sua segunda mulher, Maria de Aragão e Castela (1482–1517), irmã do príncipe Dom João (1502–1557), futuro rei, terceiro do mesmo nome, e de Dona Isabel de Portugal (1503–1539), rainha de Espanha e imperatriz romano-germânica.

Casando abaixo da sua condição, uma vez que era infanta de Portugal, viajou para o ducado de Sabóia saindo da barra do Tejo e bordejando a costa Sul, contornando o litoral algarvio e seguindo pelo Mediterrâneo numa armada capitaneada pela nau Santa Catarina do Monte Sinai (construída nos estaleiros de Cochim e lançada ao mar em 1500) até Sabóia, onde se tornou duquesa.

No seu enxoval seguiam pelo menos três averdugados. A saber: um de cetim aveludado verde, com o cós forrado de tafetá azul; o outro de cetim carmesim com cós de veludo carmesim forrado de tafetá “pardo” (uma cor indefinida que variava conforme a cor da ovelha ou da fibra que dava origem ao têxtil). Cada um destes averdugados tinha treze verdugos (ver Glossário, no fim do texto). Para além destas duas peças acabadas, havia um terceiro, descrito como sendo de cetim carmesim, forrado de bocaxim (um tecido grosseiro de algodão) com “sua porta”, isto é, o cós, forrado de fustão (tecido corrente de linho ou cânhamo e algodão) pardo, que se encontrava “por acabar”.

Por se tratarem de objectos de uso quotidiano e íntimo e por serem regularmente sujeitos às mudanças de gosto e consumo inerentes à moda, não sobreviveram quaisquer exemplares de averdugados do século XVI. Ainda assim, e porque foi uma peça, por um lado, tão marcante na gendarização (ver Glossário, no fim do texto).

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© Projecto DRESS

Reconstrução histórica de averdugado da infanta Dona Beatriz conforme descrito no dote de 1522, no âmbito do Projecto DRESS

O averdugado definia uma silhueta tipificada que, de facto, dificultava verdadeiramente o movimento das mulheres que o usavam, fosse pelo peso da estrutura fosse pelo desconforto dos materiais que formavam os verdugos. E, por outro lado, transversal à representação do poder e das mulheres abastadas, até imagens de roca (ver Glossário, no fim do texto) tiveram averdugados. Encontra-se no Museu Etnográfico de Castela e Leão, em Zamora, uma única destas peças, de final do século XVI, que fazia parte do traje de uma santa. Apesar da pequena dimensão, constitui um excepcional exemplo contemporâneo do que foram estas marcantes peças de vestuário que, ainda que evoluindo por diferentes caminhos, se mantêm como memória nas armações dos vestidos de baile e de noiva.

O averdugado definia uma silhueta tipificada que dificultava o movimento das mulheres que o usavam. Um exemplar do século XVI pode ser visto no Museu Etnográfico de Castela e Leão, em Zamora.

Glossário:

Gendarização: Atribuição de papéis de género binários, que se reflecte em várias áreas, incluindo a do vestuário. 

Verdugo: Vime. Dobra na roupa ou prega. Curiosamente, também é sinónimo daquele que tortura ou aplica castigos corporais noutro indivíduo. 

Rocas: Esculturas sacras que se levam em procissão e são vestidas e adornadas como se de figuras vivas se tratassem. 

Referências bibliográficas:

Amanda Wunder, 2017 - "Innovation and Tradition at the Court of Philip IV of Spain (1621-1665): The Invention of the Golilla and the Guardainfante". In Fashioning the Early Modern: Dress, Textiles and Innovation in Europe, 1500-1800, ed. Evelyn Welch. Oxford: Oxford University Press, pp. 111-133.

Jane Arnold, 1985 - Patterns of Fashion: The cut and construction of clothes for men and women c. 1560-1620. Londres: MacMillan, pp. 6-7.

 

* Este artigo foi escrito no âmbito de uma parceria de comunicação de Ciência estabelecida entre a National Geographic Portugal e o CHAM - Centro de Humanidades, relacionada com o projecto VESTE, e integra a série "Saber o que Vestir". A sua autora, Carla Alferes Pinto, é investigadora do CHAM – Centro de Humanidades NOVA FCSH.