Envolve amigos e familiares sentados em torno de uma mesa onde comida e bebida são centrais. Nalgum momento, os convivas trocam prendas. Porque é considerada uma celebração de paz e boas intenções, os conflitos são menorizados e até aqueles que habitualmente estão numa situação complicada durante o resto do ano encontram algum tipo de conforto neste dia. 

Estamos a falar do Natal, certo? Não, se recuarmos até à Antiguidade clássica. Referimo-nos às Saturnálias, que como o nome indica era uma festa dedicada ao deus Saturno.  Entre outras coisas, esta celebração representava a abundância, a riqueza, o tempo e a liberdade – ocorrendo à volta do Solstício de Inverno.

As suas raízes pagãs são, portanto, evidentes. Apesar de celebrar o fim das plantações agrícolas iniciadas no Outono, durante as Saturnálias era explicitamente proibido trabalhar – e aos escravos era dada uma liberdade temporária para festejar.

No auge destas celebrações (que chegavam a durar uma semana) instalava-se na capital Roma, defronte do templo dedicado ao deus que as inspirava, um ambiente especial. Todas as outras cidades do Império, no entanto, tinha a sua própria versão destas celebrações.

Saturno
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Representação do deus Saturno no Jardim de Verão, em São Petersburgo, Rússia.

O significado das Saturnálias

Como em muita da sua mitologia, os Romanos inspiraram-se na civilização grega. Na Grécia Antiga, várias festividades agrícolas ocorriam com o mesmo propósito, celebrando a fertilidade da terra e também o fim de um longo período de trabalho, permitindo aos agricultores uma pausas de descompressão.

Kronia, um festival ateniense, é talvez a que mais se aproximam em ideia, se bem que não em calendário. Desenrolava-se entre Julho e Agosto e durante vários dias, com banquetes e convívio entre pessoas de classes sociais distintas –era, portanto, um dos poucos momentos em que escravos e donos se sentavam lado a lado à refeição. O nome, Kronia, invoca também o correspondente grego de Saturno, Kronos, o deus do tempo e pai de deuses da Era Dourada como Zeus, Hades ou Poseidon. A própria intenção de criar, por um curto período de tempo, igualdade entre todos os convivas, seguia também as boas intenções dos desígnios dos deuses da mitologia grega de criar uma sociedade perfeita, pura e imune às más intenções do pior do espírito humano.

Ernesto Biondi Buenos Aires
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Cópia de uma escultura de uma Saturnália, por Ernesto Biondi, no Jardim Botânico de Buenos Aires, Argentina. A escultura original, de 1900, encontra-se na Galeria de Arte Moderna de Roma, em Itália. 

FONTES ESCRITAS

As origens históricas das Saturnálias foram referidas por várias fontes – entre elas, famosos escritores latinos como Luciano, Catão o Velho ou Catulo. Porém, as descrições dos eventos que nelas decorriam são abundantes. O poeta Marcial, por exemplo, dedicou vários epigramas humorísticos à época saturnália. Num deles, escreve a um amigo, Sextiliano, que numa tradução liberal a partir do inglês reza o seguinte: “O prato que me oferecerias de presente, Sextiliano, deste-o à tua amante (…) As tuas amantes começam a não te dar encargos, já que as manténs à minha custa”. Numa referência mais ambígua, o escritor latino dedica um epigrama a um enchido afirmando que “a salsicha que te chega a meio do Inverno já eu a recebi nos sete dias da Saturnália”. O carácter mordaz e até humorístico destes poemas mostra a maneira libertina com que a festividade era encarada.

O programas das festas

A Saturnália começava, no entanto de forma séria, com uma cerimónia religiosa defronte do templo de Saturno, seguindo de um banquete aberto aos habitantes da cidade. Os serviços públicos e negócios fechavam para que todos pudessem participar.

forum romano
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Fórum Romano com o templo de Saturno ao centro. 

As normas sociais tornavam-se mais fluidas: jogos de sorte, habitualmente proibidos, aconteciam à vista de todos, embora fosse evitado o uso de dinheiro. As apostas deviam ser feitas com nozes, fruto associado à era dourada de Saturno. Os dados eram de osso, embora mais tarde tenham aparecidos alguns de materiais mais nobres como o ouro ou o marfim.

Os códigos de vestuário eram também subvertidos. Em vez das habituais togas brancas, os membros da alta sociedade envergavam vestimentas coloridas, mais confortáveis e envergavam também o chapéu cónico habituado ofertado aos escravos romanos libertos, num sinal de equilíbrio entre os mais favorecidos e aqueles que, habitualmente, eram restringidos à periferia social de Roma. Pelas ruas da cidade, nos interiores das casas, escutava-se “Io Saturnalia”, invocação do ambiente festivo, emocional, celebração da presença do deus Dionísio e o seu espírito de libertinagem nos dias da festa.

Uma figura tradicional e cobiçada na Saturnália era a do “Rei da Saturnália”, que obtinha o poder absoluto sobre todos os convivas na casa onde governava e a festa acontecia. Gritava ordens sem nexo que todos deviam cumprir, nem que fosse para insultarem, dançarem nus, atirarem água fria a um convidado defronte de todos ou criarem um improvisado jogo da apanhada entre todos.

A referência ao título real, e o facto de esta figura não surgir – ou pelo menos ser referida com este nome – antes dos tempos imperiais leva a crer que talvez fosse uma forma satírica de tratar o antigo período monárquico da História romana. Podemos admitir, porém, que este papel é um gozo com qualquer exercício de poder tirano do que os imperadores romanos, com a concentração quase total de poder nas suas mãos, eram o exemplo acabado.

A troca de prendas era outra tradição, já mencionada nos epigramas de Marcial em cima. O poeta clássico faz na sua poesia variadíssimas sugestões sobre prendas apropriadas: porcos, incenso, pombas, lamparinas, dados de marfim ou estatuetas, o que nos dá uma visão daquilo que os Romanos valorizavam ou consideravam adequado aos ritos de festa.

Embora Marcial sugerisse que se devia oferecer o que se tinha de melhor, e que qualquer prenda era uma boa prenda – e muitas delas eram sorteadas – incluia na sua lista anéis de ouro, mas destinava-os a Senadores ou membros da Classe Equestre, os dois grupos mais afluentes da sociedade romana. 

Ave, César! Io, Saturnalia
DOMÍNIO PÚBLICO

Ave, César! Io, Saturnalia!, de Sir Lawrence Alma-Tadema (1880), patente no Akron Art Museum (EUA). 

Como em qualquer festa romana, o álcool tornava-se indispensável. O vinho principalmente era visto como um grande lubrificante social e revelador de qualidades e talentos escondidos entre os homens. Normalmente misturado com água, e ocasionalmente mel e especiarias, era servido numa grande taça de onde os foliões retiravam o doce néctar em copos individuais. Todos se serviam desta taça, ricos ou pobres e até mesmo alguém como Catão o Velho, famoso por ser somítico, reservava barris extra de vinho para os empregados das suas quintas durante o festival.

O verdadeiro espírito do Natal ANTES DO NATAL?

Foi, de facto, nas Saturnálias que teve origem o Natal? A pergunta é difícil de responder. Desconhecemos o dia concreto do nascimento de Jesus, mas a tentativa, no século IV por parte do Papa Júlio I de colar esse evento ao período das Saturnálias leva a crer que talvez estivesse a fazer algo que aconteceu com a Páscoas ou o Dia de Todos os Santos: enxertar celebrações católicas num calendário pagão ao qual todos estavam já habituados e que seguia também festividades naturais. Assim, a conversão dos fiéis ao novo calendário religioso tornar-se-ia mais simples.

No entanto, e durante a Idade Média, ambas as tradições correram paralelas. No centro da Europa, a época de Natal era marcada pelos mesmo banquetes e festas que vimos nos Romanos e em países como a França e a Suíça, era eleito nas aldeias um rapaz que recebia o título de “Bispo por um dia”, lembrando o Rei da Saturnália.

Ainda que no século XIX tenha havido um esforço, principalmente a partir da Inglaterra vitoriana, de retirar esse carácter festivo ao Natal, transformando-o numa celebração familiar, alguns dos seus costumes mantêm-se ainda hoje, como por exemplo a oferta de prendas, a festa que celebra a ligação humana entre pessoas e em rituais tão simples como acender uma vela, para recordar os que não estão ou simplesmente invocar um ambiente de calma e luz nos lares.

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Representação do Natal, o nascimento de Cristo, numa obra do ano de 1500.