Quando, em 2022, Pequim recebeu a mais recente edição dos Jogos Olímpicos de Inverno (JOI), a China tornou-se a segunda anfitriã socialista da maior prova desportiva do seu género. A primeira, um estado multinacional como o chinês mas com o poder menos centralizado, já não existe.

Em 1984, amanheceu em Sarajevo o ideal olímpico, com a Jugoslávia debaixo dos olhos de todo o mundo desportivo e político, provando ser capaz de se unir em prol de um bem comum. Menos de dez anos depois, desapareceu. Podemos acentuar ainda mais a relevância histórica destes Jogos até fora do campo político: Sarajevo marcou a estreia de qualquer competição olímpica de Inverno num país de língua eslava e continua a ser a única cidade de maioria muçulmana a receber uma até hoje.

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Incendiado durante o mais longo cerco militar da história da guerra moderna, o Museu Olímpico, em Sarajevo, reabriu no dia 8 de Outubro de 2020. 

O NOVELO HISTÓRICO da Jugoslávia

Em 1984, a Jugoslávia era constituída por seis repúblicas que, no conjunto, formavam um estado socialista federal: Bósnia-Herzegovina, Croácia, Eslovénia, Macedónia, Montenegro e Sérvia. Apesar de partilharem características culturais, um sentimento latente de nacionalismos separatistas em contramão com um espírito de união entre povos “eslavos do Sul” (o significado real do nome do país) tornou esta convivência num exercício de equilíbrio delicado. A gestão deste exercício cabia, desde 1945, a Josep Broz “Tito”, antigo partisan que encabeçou até à sua morte, em 1980, a Liga dos Comunistas da Jugoslávia, formada por representantes de todas as repúblicas

Havia na região e fora dela a sensação de que a Jugoslávia era uma criação de um só homem, um puzzle colado pela sua força de vontade e pela sua astúcia política, e que, quando Tito morresse, a Federação segui-lo-ia para a tumba. Porém, a ideia de reunir os eslavos do Sul numa só entidade política era bem antiga – remonta ao século XVII, apesar de se ter solidificado apenas dois séculos depois. Além disso, a Jugoslávia já era um estado desde 1918 (chamava-se inicialmente Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, tendo passado a Reino da Jugoslávia em 1929). 

DE UMA OBSESSÃO DE TITO A UMA REALIDADE “PÓS-TITOÍSTA”

Após a morte do presidente vitalício da federação socialista, o governo decidiu aproveitar uma ideia que se tornara numa obsessão “titesca” nos seus últimos anos de vida: organizar uns JOI.

Já em 1968, um relatório da OCDE indicara o país como favorável ao turismo relacionado com os desportos de Inverno. A verdade é que a Jugoslávia, nessa altura, tinha uma grande tradição desportiva. Os sucessos futebolísticos das equipas do bloco balcânico eram internacionais, com a vitória do Dínamo de Zagreb na Taça das Cidades com Feiras de 1966 em destaque. A galvanização dos jugoslavos unidos através do desporto acontecia também em modalidades como o basquetebol, o andebol, o pólo aquático e a ginástica, com grandes prestações nos grandes eventos mundiais. Porque não usar o desporto um país que parecia destinado a esfrangalhar-se?

Um largo projecto da reformulação de Sarajevo, visando a candidatura olímpica, desenvolveu-se nos anos finais da década de 1970, intitulando-se “Protecção do ambiente e do ser humano”.

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A cerimónia de inauguração dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1984 ocorreu no estádio de Koševo, em Sarajevo. O certame terminaria a 19 de Fevereiro, com a Jugoslávia a vencer a sua primeira medalha de prata numas Olimpíadas de Inverno. O feito foi alcançado pelo esquiador esloveno Jure Franko.

JAPÃO E SUÉCIA DE FORA

A candidatura surgiu em 1977 e enfrentou duas adversárias muito diferentes. Uma era a cidade de Sapporo, no Japão, que já recebera os JOI no ano de 1972. O desenvolvimento económico e o prestígio internacional, possibilitados pela eficácia prática japonesa e o seu olho para o negócio e o desenvolvimento tecnológico, marcaram o sucesso desta Olimpíada e abriram o apetite nipónico. Em simultâneo, preparavam também a candidatura de Nagoya aos Jogos Olímpicos de Verão, uma eleição que viria a beneficiar uma outra cidade asiática, Seoul. Sapporo estava completamente equipada e preparada para receber a competição.

A outra candidata era Gotemburgo, a segunda maior cidade da Suécia e estreante nestas andanças. Apesar do amor escandinavo aos desportos de Inverno, os suecos enfrentavam uma série de problemas – o maior a extensão geográfica do espaço que propunha para a competição. A distância da cidade em relação aos recintos onde decorreriam as provas levou o orçamento a um valor tremendo, fora os percalços logísticos relacionados.

Sarajevo, por contrário, concentrara tudo num raio de 25 quilómetros, numa cidade moderna já com experiência de realizar eventos desportivos internacionais. Outro ponto a favor era o facto de ter quatro montanhas nas imediações com potencial olímpico: Trebević, Jahorina, Igman e Bjelašnica

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A montanha olímpica de Bjelašnica ainda hoje é um dos ex-líbris da Bósnia-Herzegovina, especialmente no Inverno. 

Vitórias olímpicas

Contrariamente a outros países de inspiração marxista na Europa, a Jugoslávia era definida pelo seu grande timoneiro Tito como “socialista, mas não soviética” desde 1948 e politicamente neutra. Não era propaganda e tal era reconhecido internacionalmente: os Jogos Olímpicos de Verão de 1980 e 1984 foram realizados, respectivamente em Moscovo e Los Angeles, colocando os dois grandes blocos comunista e capitalista em choque directo. Países desses blocos boicotaram a competição realizada em terreno inimigo. Pelo contrário, Sarajevo recebeu as Olimpíadas com um espírito de liberdade e aceitação. Nenhuma nação se recusou a comparecer (Portugal não apareceu, no entanto). À maneira de Tito, não se queriam grandes discussões políticas: o que interessava era o desporto e esse seria o centro da candidatura da capital bósnia. A votação, decorrida em 1978, durou duas rondas. Na primeira, Gotemburgo saiu eliminada, recolhendo apenas dez votos; e apesar de Sapporo ter reunido inicialmente mais consenso, na segunda ronda Sarajevo superiorizou-se por apenas três votos

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Situado no monte Igman, o pódio dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1984 foi danificado durante o cerco de Sarajevo pelas forças sérvias. Foi reparado desde então.  

O esforço de tornar estes Jogos Olímpicos num elo entre os jugoslavos ficou logo patente na maneira como a tocha olímpica fez o seu caminho até Sarajevo: vinda de Olímpia num avião que aterrou em Dubrovnik, na Croácia, cumpriu uma rota que atravessou todas as capitais das repúblicas jugoslavas. Desenhada por um artista esloveno, Vučko, a mascote dos Jogos – um lobo simbolizando a fauna dos Alpes Dináricos, onde decorreria a maior parte das provas desportivas – viria a tornar-se um símbolo de Sarajevo.

Os JOI de Sarajevo arrancaram a 8 de Fevereiro de 1984, defronte de 45 mil espectadores no estádio olímpico deKoševo, numa cerimónia que representou a abrangência da cultura jugolsava com músicos e dançarinos a revelarem as suas proezas artísticas. No espírito de dar oportunidade de afirmação a todas as nações, assistiu-se à estreia olímpica de Inverno de países como Egipto, Mónaco, Porto Rico ou as Ilhas Virgens Britânicas.

A organização esteve à altura das circunstâncias e, desportivamente, Sarajevo 1984 foi marcado por histórias empolgantes: a espantosa finlandesa Marja-Liisa Kirvesmiemi-Hämäläinen, vencedora de três medalhas de ouro e uma de bronze na disciplina de cross-ski; o domínio total das atletas femininas da Alemanha de Leste, principalmente Karin Enke, que abarbataram nove das doze medalhas possíveis na patinagem de velocidade; os irmãos americanos Phil e Steve Mahre, que terminaram em primeiro e segundo em slalom; e a dupla de patinagem britânica Jayne Torvill e Christopher Dean, que em patinagem artística conseguiram todas as notas perfeitas de impressão artística, algo inédito e nunca repetido desde então. 

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CIO

836 jugoslavos participaram num concurso para escolher a mascote dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sarajevo. Após uma primeira selecção, foram seleccionadas seis imagens, submetidas à votação dos leitores de vários jornais e revistas. Evocando uma figura recorrente nas fábulas da região, o lobo do esloveno Jože Trobec venceu a competição. Ainda hoje há vestígios de Vucko pelas ruas da capital bósnia e, a cerca de 540 quilómetros por estrada, a cidade de Ljubljana, na Eslovénia, alberga um restaurante chamado "Sarajevo '84".

O fim… e o princípio de um fim

A 19 de Fevereiro, encerrou-se a prova, com toda a gente feliz e um impacto desportivo e social positivo. Sarajevo tinha sido transformada, com melhorias significativas nas infra-estruturas de transporte e equipamentos turísticos na cidade. Além  disso, os equipamentos para a prática de desportos de Inverno tornaram as imediações da capital bósnia um importante centro de desenvolvimento destas modalidades na região. 

Porém, na segunda metade dos anos 1980, os ímpetos independentistas começavam a crescer, especialmente com a subida do nacionalista sérvio Slobodan Milošević ao poder. Em 1991, Eslovénia e Croácia foram os primeiros estados a accionar o seu direito de sair da federação, decretando independência. Quando, no ano seguinte, a Bósnia tentou fazer o mesmo, um conflito entre as forças sérvias (em vantagem naquela que um dia tinha sido uma federação equilibrada por Tito) e as repúblicas que queriam a independência concentrou-se no território bósnio. Começou, então, um cerco a Sarajevo que duraria cerca de quatro anos. Dos combates e bombardeamentos desse estado de sítio, entre os vários crimes de guerra perpetrados, resultou também a destruição de praticamente toda a aldeia olímpica construída para 1984

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Soldados franceses das Nações Unidas aguardam a chegada de quatro helicópteros que transportam civis feridos da cidade de Gorazde para o estádio olímpico, a 14 de Abril de 1994, em Sarajevo. 

Edifícios como o Pavilhão de Zetra ou o próprio estádio olímpico – reinaugurado em 1997 por um concerto dos U2 e abençoado, mais tarde nesse ano, pelo Papa João Paulo II, que visitou Sarajevo – foram reconstruídos, mas fazendo parte de uma atmosfera surreal e delapidada. 

A pista de ski do monte Igman ou os tubulares percursos da competição de bobsleigh da montanha de Trebević ainda hoje jazem destroçadas, em lenta queda e erosão, esquecidas, um pouco como a Jugoslávia, cuja queda gradual e estrondo repentino encontram nas lembranças de Sarajevo '84

Por estes dias, a capital bósnia celebra os 40 anos deste certame. Também o festival de música cosmopolita EXIT (sérvio) preparou um programa especial para homenagear provavelmente o último evento internacional que uniu jugoslavos de todas as repúblicas, fossem eles macedónios, montenegrinos, eslovenos, bosniaks, albaneses, croatas ou sérvios. O certame cultural chama-se Unity84 e tem lugar em... Sarajevo e na montanha Bjelašnica.