Utilizados como elemento de ligação e fixação do vestuário, os fechos de cinto em T funcionavam como fivela ou fecho, estando directamente ligados ao couro ou tecido do cinto ou a outra peça metálica, conforme as pequenas variantes formais e funcionais que têm sido descritas e analisadas pelos arqueólogos. 

Estes fechos eram feitos de metal, sendo peças sobretudo bronze, obtidas a partir de molde e por vezes decoradas com cinzel, podendo ser produzidas em Portugal ou importadas da Alemanha ou Flandres (Figura 2).

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© CML | DMC | DPC | José Vicente, 2015

Figura 2: Fecho em T. Trabalhos arqueológicos na Praça da Figueira, 2000. Cortesia do Centro de Arqueologia de Lisboa. 

A partir do final do século XIV e ao longo do século XV, a roupa que cobria a parte superior do corpo foi significativamente encurtada, tendendo a deixar as pernas cada vez mais a descoberto.

Actualmente, a maior parte das pessoas procura conforto e bem-estar quando se veste, e a indústria responde melhorando e inventando novos materiais têxteis e criando inúmeros utensílios que facilitam a produção de vestuário e melhoram o conforto da sua utilização. Tecidos de malha, fibras elásticas que dão flexibilidade mesmo a têxteis bastante rígidos, acessórios como fechos éclair (ou zippers) ou botões de pressão são de uso comum. Isto torna o vestuário moderno bem ajustado ao corpo, permitindo também que seja vestido rápida e facilmente.

Todavia, estas características são relativamente recentes e, até cerca de meados do século XIV, o vestuário era normalmente muito comprido e folgado, muitas vezes com a mesma forma em versões para ambos os sexos, diferindo sobretudo no comprimento. É o caso das camisas – transversais aos géneros e a todos os grupos sociais – e dos diferentes tipos de “vestidos de fora”, um conjunto extenso de peças de vestuário que se colocavam em camadas sobre o corpo. Estes podiam, conforme as épocas e os géneros, cair livremente sobre o corpo ou serem cingidos por diferentes tipos de cintos, mais ou menos apertados e nem sempre apertados na zona da cintura.

Até cerca de meados do século XIV, o vestuário era normalmente muito comprido e folgado, muitas vezes com a mesma forma em versões para ambos os sexos.

MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE OS COSTUMES

A partir do final do século XIV e ao longo do século XV, vai-se assistindo na Europa a alterações consideráveis sobre a maneira de pensar o vestuário, especialmente o masculino. A roupa que cobria a parte superior do corpo foi significativamente encurtada, tendendo a deixar as pernas cada vez mais a descoberto. Em consequência, houve necessidade de alongar as calças e de desenvolver formalmente as bragas e braguilhas, de maneira a prendê-las ao vestuário de cima, e assegurar que as coxas e, também, as nádegas, ficassem cobertas, uma vez que as roupas se tornaram cada vez mais curtas ao longo do tempo. Desenvolveram-se assim uma série de técnicas e objectos associados à manufactura do vestuário cuja função era juntar, atar, ajustar as peças de roupa.

As mudanças ocorridas durante este período foram de importância fundamental para a evolução do traje europeu nos séculos seguintes, impulsionando consideravelmente o desenvolvimento da arte da alfaiataria, já que um bom ajuste do vestuário ao corpo dependia sobretudo de um corte e costura perfeitos dos tecidos, bem como de uma série de ofícios relacionados com o trajar, entre os quais se incluíam osferreiros, joalheiros e ourives que produziam as peças metálicas que serviam para abotoar e moldar a roupa ao corpo. Como consequência, o corpo, sobretudo o masculino, vai paulatinamente adquirindo maior liberdade de movimentos, ao mesmo tempo que o vestuário realça fortemente a forma do corpo, designadamente, acentuando a cintura onde eram usados os fechos de cinto em T.

Os ferreiros, joalheiros e ourives multiplicaram-se na produção de peças metálicas para abotoar e moldar a roupa ao corpo.

Durante o período moderno os métodos de fecho do vestuário variavam em função de factores como o grupo social, a região e a peça de roupa específica em questão. É importante notar que, para isso, contribuiu o acesso aos mercados e a diferentes tipos de materiais, os avanços tecnológicos e as tendências regionais da moda. Neste sentido, a corte e os grupos sociais com maior poder aquisitivo tinham frequentemente fechos mais elaborados e decorativos, reflectindo distinções sociais e económicas.

ONDE ENCONTRAR representações dESTES FECHOS?

Os fechos de cinto em T são recolhidos e estudados sobretudo em contexto de escavação. Apesar de não existirem em número considerável nas colecções museológicas e arqueológicas nacionais, surgem em imagens pictóricas associadas à representação da corte portuguesa, designadamente, no Painel dos Cavaleiros nos Painéis de São Vicente (Figura 3, em baixo) e na figura de D. Afonso Henriques numa das iluminuras da primeira metade do século XVI que ilustra a Genealogia da Casa Real Portuguesa (Figura 1, no topo).

A corte e os grupos sociais com maior poder aquisitivo tinham frequentemente fechos mais elaborados e decorativos.

Esta constatação é significativa, uma vez que as representações cortesãs do período moderno em Portugal são escassas, e o facto de os fechos de cinto em T surgirem em duas das mais relevantes permite-nos considerar que estes objectos eram relativamente comuns em ambientes áulicos.

Por outro lado, atendendo a que deixam de surgir em imagens posteriores, concretamente em retratos, é provável que novos tipos de fecho se tenham imposto também na corte portuguesa, face quer à crescente utilização da costura dos moldes de vestuário e dos botões de casas, quer ao desenvolvimento de formas mais elaboradas e ostentatórias de abotoar, entre as quais se incluíam os laços com fitas coloridas feitas em materiais caros e as pontas, como eram designadas nas fontes textuais quinhentistas os diferentes tipos de objectos que serviam para atar e adornar as abotoaduras.

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© Museu Nacional de Arte Artiga / Direcção-Geral do Património Cultural / Arquivo de Documentação Fotográfica (DGPC/ADF)

Figura 3: Fecho de cinto em T. Nuno Gonçalves, Painéis de São Vicente de Fora: Painel dos Cavaleiros (pormenor), 1450-1490. Obra patente no Museu de Arte Antiga. Cortesia da Direcção-Geral do Património Cultural. 

Glossário

Bragas: um tipo de cuecas ou calça interior, cuja dimensão e forma vai mudando ao longo do tempo.

Braguilhas: espécie de bolsa feita com materiais diversos que era presa às calças ou aos calções e que servia para cobrir a zona dos órgãos genitais masculinos (séculos XV e XVI).

Pontas: tipo de agulheta feita em metal, muitas vezes precioso e com pedras preciosas encastradas, utilizado para prender peças do vestuário ou para enfeitar as extremidades dos vários tipos de cordões, fitas e laços que serviam para ajustar, atar, desatar e/ou ligar as peças de roupa.

Referências bibliográficas

Barroca, Mário Jorge, “Sobre a cronologia dos ‘Passadores em T’ ”. Arqueologia, 19. Porto: Grupo de Estudos Arqueológicos do Porto, 1989, pp. 147-152.

Martins, Carla Braz, “A cronologia dos «passadores em T» e um conjunto cerâmico dos séculos XV/XVI (Escarigo, Figueira de Castelo Rodrigo)”. O Arqueológo Português, s. IV, 19, 2001, pp. 247-258.

Silva, Rodrigo Banha da, “Fecho de cinturão ‘em T’ ”. In André Teixeira; A. Villada Paredes; Rodrigo Banha da Silva (eds.), Lisboa 1415Ceuta: história de duas cidades/historia de dos ciudades. Ceuta/Lisboa: Ciudad Autonoma - Consejería de Educación y Cultura/Câmara Municipal de Lisboa, Direção Municipal de Cultura - Departamento de Património Cultural, 2015, p. 98.

* Este artigo foi escrito no âmbito de uma parceria de comunicação de Ciência estabelecida entre a National Geographic Portugal e o CHAM - Centro de Humanidades, relacionada com o projecto VESTE, e integra a série "Saber o que Vestir". A sua autora, Carla Alferes Pinto, é investigadora do CHAM – Centro de Humanidades NOVA FCSH.