Formado a partir da sobreposição de várias camadas de cortiça ou madeiras – e mais raramente finas placas de metal, agregadas por resinas e fios grosseiros e resistentes –, o chapim era um calçado alto.

Era na corte que os chapins tendiam a ser mais elaborados, quer pelas formas que adquiriam, quer pela escolha cuidada dos materiais, que eram mais caros e sofisticados, como os couros pintados ou os veludos de pelo alto tingidos com cores laboriosas (Figura 1, acima).

Na Ibéria, os chapins eram usados pelas rainhas, infantas e aristocratas e, logo, mimetado pelas mulheres dos grupos sociais que almejavam ascensão social e proximidade da corte.

As várias camadas sobrepostas que formavam a base poderiam ter formas mais ou menos artificiosas, consoante a encomenda e a estética ou a moda de cada período. A parte do chapim que envolvia o pé era fabricada com tecidos, tanto mais caros e sumptuosos quanto o poder de compra da clientela (veludos, brocados, damascos, sedas, lãs e algodões tingidos de cores semelhantes às do vestuário), ou couros simples e pintados, sendo depois decorada com bordados, laços, fitas, pedras e metais preciosos, entre outro tipo de aplicações (Figura 2).

Retrato de mulher como Cleópatra
© The Walters Art Museum, Baltimore / Imagem em Domínio Público

Figura 2: Chapim. Autor desconhecido (veneziano), Retrato de mulher como Cleópatra, segunda metade do
século XVI. 

A DUPLA FUNÇÃO DOS CHAPINS

Apesar de pouco estudados academicamente, sabe-se que os chapins tinham uma dupla função. Primeiro, de ordem utilitária, já que ao elevarem os pés acima do nível do chão, impediam que os sapatos e vestidos das senhoras se sujassem nos pavimentos molhados ou lamacentos. Porém, também tinham uma função simbólica, na medida em que o seu uso não era compatível com o exercício de qualquer tipo de ofício. Esta função simbólica parece ter manifestações diversas em diferentes geografias. Com efeito, enquanto na Ibéria era um tipo de sapato usado pelas rainhas, infantas e aristocratas e, logo, mimetado pelas mulheres dos grupos sociais que almejavam ascensão social e proximidade da corte, na Península Itálica eram associados também às cortesãs (Figura 3).

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© Museo Correr, Veneza / Imagem em Domínio Público

Figura 3: Vittore Carpaccio, Duas mulheres venezianas, c. 1495.

A altura dos saltos podia ser vertiginosa, indiciando a ociosidade e a necessidade de recorrer a acompanhantes para facilitar o movimento e andar (Figuras 4 e 5). Apesar das dificuldades de locomoção que provocava e de serem motivo de escárnioe alvo de várias leis que tentavam impedir excessos na composição da altura das bases dos chapins (os sucessivos esforços legislativos da Sereníssima República de Veneza provam o seu insucesso), este tipo de calçado impôs-se. A ponto de Fabrizio Caroso, compositor e mestre de dança nascido no Lazio, ter dedicado um dos capítulos do seu tratado Nobilitá di Dame (publicado em 1600) a defender a dança em chapins, ensinando às senhoras como o fazer convenientemente.

A altura dos saltos podia ser vertiginosa, indiciando a ociosidade e a necessidade de recorrer a acompanhantes para facilitar o movimento e andar.

chapins
© The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque / Imagem em Domínio Público

Figura 4: Chapins. Pietro Bertelli (ed.), Cortesã com o cupido cego, c. 1588. 

PROFISSÃO: CHAPINEIRO

Existem muito poucos estudos sobre a utilização deste tipo de calçado na Península Ibérica e, apesar de omnipresente, os chapins raramente surgem na documentação. Por exemplo, não há menção a nenhum par (nem a qualquer outro tipo de calçado) no inventário do enxoval e dote da infanta Dona Beatriz (1504–1538), segunda filha do rei Dom Manuel e da rainha Dona Maria, aquando do seu casamento com Carlos III, duque de Sabóia em 1521 (publicado em 1742 por Dom António Caetano de Sousa nas Provas da Historia Genealogica da Casa Real Portugueza).

Ainda assim, são interpretados pela historiografia inglesa como objectos de alteridade, símbolos de estatuto e identidade dinástica ibérica, a propósito do calçado que Catarina de Aragão (1485–1536) levou consigo para Inglaterra.

chapins
© Armaria Real, Palácio Real, Estocolmo / Imagem em Domínio Público

Figura 5: Chapim veneziano em madeira e couro. Itália, c. 1600.

O documento mais antigo que especifica as diferentes técnicas e funções associadas aos ofícios do calçado em Portugal data de 22 de Setembro de 1489, e nele são mencionados os sapateiros, bem como os borzeguineiros, os soqueiros e os chapineiros.

Em 1620, existiam vinte sapateiros de chapins dourados, segundo Nicolau de Oliveira.

Apesar da manutenção de uma certa desorganização dos ofícios até final do século XVI, procurava-se deste modo diferenciar as especializações e responder às necessidades de consumo, enquanto se assegurava que o tipo de calçado fabricado por sapateiros, soqueiros, chapineiros e borzeguineiros tivessem a melhor qualidade possível (Figura 6).

Segundo frei Nicolau de Oliveira na sua obra Livro das Grandezas de Lisboa, havia no ano de 1620 oitocentos e sessenta e quatro sapateiros da obra nova (isto é, que se dedicavam de facto ao fabrico de sapatos), sessenta sapateiros de calçado velho (ou seja, que remedavam sapatos usados) e vinte sapateiros de chapins dourados (ou seja, chapineiros). O conjunto e número de especialistas do calçado, muito superior a todos os demais ofícios descritos nesta obra, demonstra a importância que a variedade e a qualidade para aferir a distinção dos consumidores destes objectos de uso quotidiano na cidade de Lisboa.

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© The Germanisches National Museum, Nuremberga / Imagem em Domínio Público

Figura 6: Mulher com chapins em Portugal. Christoph Weiditz, Trachtenbuch, 1529, f. 15.

O documento mais antigo que especifica as diferentes técnicas e funções associadas aos ofícios do calçado em Portugal data de 22 de Setembro de 1489. 

Esta especialização entre os profissionais do calçado confirma o uso alargado dos chapins, exclusivamente feminino, entre a população. Com efeito, o uso seria transversal a vários grupos sociais, uma vez que o consumo de corte dificilmente justificaria a existência de um número tão alargado de oficiais. Um dado relevante: os números mencionados anteriormente referem-se apenas à cidade de Lisboa.

As razões para este facto estão por apurar, mas a abundância dos materiais utilizados no fabrico da sola e altura do sapato, concretamente a cortiça, e os objectos e práticas que haviam permanecido da prolongada presença árabe na Península Ibérica (711 a 1249 em Portugal; 1492 em Espanha) contribuirão para a justificação.

Glossário:

Borzeguins – tipo de bota com cano até ao joelho.

Referências bibliográficas

Earenfight, Theresa. “The Shoes of an Infanta: Bringing the Sensuous, Not Sensible, ‘Spanish Style’ of Catherine of Aragon to Tudor England”. In Moving Women Moving Objects (400-1500), eds. Hamilton, T.C., Proctor-Tiffany, M. United Kingdom: Brill, 2019, pp. 293–317.

Pinto, Carla Alferes; Ana Catarina Garcia e Inês Fragoso. “From the Sea to the Land. An Archaeological Study of Iberian Footwear during the Early Modern Period”. Heritage, vol. 6, n.º 2, pp. 867-890.

* Este artigo foi escrito no âmbito de uma parceria de comunicação de Ciência estabelecida entre a National Geographic Portugal e o CHAM - Centro de Humanidades, relacionada com o projecto VESTE, e integra a série "Saber o que Vestir". A sua autora, Carla Alferes Pinto, é investigadora do CHAM – Centro de Humanidades NOVA FCSH.