Afinal, quem foi Robert Oppenheimer?

O inventor da bomba atómica travou várias guerras, desde o foro pessoal ao académico, passando pelo político. Esta é a sua história, retratada no filme de Christopher Nolan que soma agora 13 nomeações na corrida aos Óscares.

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J  Robert Oppenheimer at the Guest Lodge, Oak Ridge, in 1946 4
DOMÍNIO PÚBLICO
Héctor Rodríguez
Héctor Rodríguez

JORNALISTA E EDITOR DE CIÊNCIA E NATUREZA

Neste Verão estreia um biopic sobre o físico norte-americano realizado por Christopher Nolan. Revemos hoje alguns dos principais passos e feitos de Oppenheimer.       

A história do ser humano está cheia de paradoxos. Podemos dizer que vivemos num deles desde o final da Segunda Guerra Mundial. Referimo-nos ao facto de as bombas nucleares, as armas mais destrutivas alguma vez criadas pelo ser humano, capazes de reduzir o nosso planeta a cinzas várias vezes, se terem tornado precisamente a maior garantia de paz no mundo, funcionando em diversas ocasiões como travão para uma escalada bélica com consequências potencialmente terríveis. O melhor exemplo disto é a Guerra Fria.

No entanto, quando falamos em bombas nucleares, não podemos deixar de parte um dos principais artífices da sua criação, uma personagem cuja vida é igualmente paradoxal. Referimo-nos a Julius Robert Oppenheimer.

Filho de um casal de imigrantes judeus de origem alemã que fizera fortuna no sector têxtil, Robert Oppenheimer nasceu em Nova Iorque a 22 de Abril de 1904. Diz-se que era um jovem com tendência para adoecer e uma personalidade angustiada, mas com grandes dotes académicos, tanto para a ciência como para as artes.

Concluídos os seus primeiros anos de formação na Ethical Culture Society School, em Nova Iorque, os seus problemas de saúde fizeram com que entrasse na Universidade de Harvard com um ano de atraso, o qual compensou licenciando-se em química em apenas três anos, com as mais altas distinções.

Oppenheimer

J. Robert Oppenheimer. Fotografia de Cordon Press.

Em Harvard, interessou-se por termodinâmica e física experimental. Uma vez que ainda não existiam nos Estados Unidos da América instituições com reconhecimento internacional no ensino desta última, Oppenheimer prosseguiu os seus estudos na Europa. Foi assim que ingressou nos Laboratórios Cavendish da Universidade de Cambridge, dirigidos pelo físico Ernest Rutherford, onde devido à sua pouca destreza no laboratório decidiu direccionar a sua carreira para a física teórica.

O seu passo seguinte foi rumo à Universidade de Gottingen, que era na altura um dos centros mais reconhecidos no campo da física teórica da Europa, onde conviveu com alguns dos físicos mais notáveis da época, como Niels Borh e Paul Dirac, e onde fez importantes contributos para o então recente campo da física quântica, concluindo o seu doutoramento aos 22 anos.

Regressou aos Estados Unidos da América, e à Universidade de Harvard, em 1927. Apenas um ano mais tarde, iniciou a sua carreira como docente no Instituto Tecnológico da Califórnia – Cal Tech – e na Universidade da Califórnia, em Berkeley. 

As primeiras investigações de Oppenheimer focaram-se nos processos energéticos das partículas subatómicas, incluindo electrões, positrões e raios cósmicos. Também realizou trabalhos inovadores sobre estrelas de neutrões e buracos negros, espectroscopia e teoria quântica de campos. Além dos seus feitos académicos, Oppenheimer foi responsável pela excepcional formação de uma geração de físicos norte-americanos, que foram motivados pelas suas qualidades de liderança e independência intelectual. No entanto, como acima mencionado, a vida do físico também foi marcada em diversas ocasiões por períodos de depressão, tendência para a auto-destruição e outros problemas psicológicos, embora tal não o tenha impedido de se tornar um dos físicos mais notáveis de todos os tempos.

Da ciência à política e vice-versa. o projecto Manhattan

A vida de Oppenheimer, como a de muitas personagens do seu tempo, foi fortemente marcada pelo contexto político. Devido à sua ascendência alemã, o seu primeiro interesse pela política foi motivado pela subida de Hitler ao poder na Alemanha em 1936.

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J. Robert Oppenheimer e Albert Einstein. Fotografia de Cordon Press.

Em 1937, com o falecimento do pai, Oppenheimer herdou uma fortuna que destinou em parte a apoiar a facção republicana da Guerra Civil Espanhola. Foi uma época em que Oppenheimer namoriscou com o comunismo e que viria a condicionar o seu futuro. Contudo, rapidamente renegou esses ideais ao ver a forma como Estaline tratou muitos dos seus colegas de profissão russos, que acabaram em gulags e sharashkas soviéticos.

Após a invasão da Polónia, em 1939, surgiu entre cientistas como Oppenheimer, Albert Einstein, Leo Szilard e Eugene Wigner, entre outros, a necessidade de inventar a bomba atómica antes dos nazis, que já tinham dado rédea solta ao desenvolvimento do Projecto Urânio com essa finalidade.

Neste contexto, não foi difícil reunir algumas das mentes mais privilegiadas dos EUA e da Europa, as quais, correndo contra os alemães para construir a primeira bomba atómica, se reuniram em torno do Projecto Manhattan, pondo-se ao serviço de Oppenheimer, nomeado director científico do projecto, apesar das reticências de diversos comandantes do Pentágono devido às suas anteriores ligações esquerdistas.

Com efeito, ao longo dos anos seguintes, Oppenheimer foi constantemente investigado pelo FBI e pelo departamento de segurança interna do Projecto Manhattan. Não obstante, devido ao seu papel essencial e imprescindível durante todo o projecto, nunca foi destituído do cargo.

“As mãos manchadas de sangue”

O Projecto Manhattan alcançou a sua meta no dia 16 de Julho de 1945, com a experiência Trinity, que teve lugar nas proximidades de Álamo Gordo, no Novo México. Uma vez desenvolvida a bomba nuclear, muitos cientistas que participaram no projecto manifestaram relutância quanto à sua utilização, sobretudo contra a população civil.

Posteriormente, entre 1947 e 1952, Oppenheimer passou a ocupar o cargo de presidente do Comité de Assessoria Geral (GAC) da Comissão de Energia Atómica dos Estados Unidos da América (AEC), no qual se opôs ao desenvolvimento da bomba de hidrogénio.

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Alguns dos participantes no Projecto Manhattan. Fotografia de Cordon Press.

Embora, no início e no contexto da guerra, essa não fosse a posição inicial de Oppenheimer, poucos meses mais tarde, em Outubro desse mesmo ano, o físico, que declarou numa entrevista com o Presidente Harry S. Truman ter “as mãos manchadas de sangue”, renunciou ao seu cargo como director do projecto Manhattan, dando a entender estar arrependido por nele ter participado.

Enquanto foi conselheiro político do GAC – e devido às dúvidas que o rodeavam por simpatizar com os comunistas – Oppenheimer fez muitos inimigos, sobretudo no FBI, então dirigido por J. Edgar Hoover.

Em 1953, Hoover acusou Oppenheimer de representar um risco para a segurança e o presidente dos E.U.A., Dwight David Eisenhower, pediu-lhe a demissão. Perante a sua recusa em demitir-se, foi pedida uma audiência de segurança na qual, embora tenha sido declarado inocente de traição, foi determinado que não deveria ter acesso a segredos militares.

Consequentemente, e embora a Federação de Cientistas dos EUA tenha saído imediatamente em sua defesa, o seu contrato como assessor da Comissão de Energia Atómica foi rescindido. A sua perseguição é hoje considerada uma caça às bruxas e a grande maioria dos historiadores considera Oppenheimer um liberal heterodoxo injustamente atacado.

Privado de poder político, o físico passou os últimos anos da sua vida elaborando ideias sobre a relação entre a ciência e o seu papel na sociedade e percorrendo a Europa e o Japão dando conferências. Diz-se que, a partir da auditoria, Oppenheimer começou a comportar-se como um animal ferido, retirando-se paulatinamente para uma vida cada vez mais simples. Dez anos mais tarde, em 1963, o presidente John F. Kennedy concedeu-lhe o prémio Enrico Fermi, num gesto de reconhecimento pelo seu grande contributo para a física, mas também para limpar as falsas acusações que tinham sido dirigidas no passado.

Faleceu três anos mais tarde, vítima de cancro na garganta, nas Ilhas Virgens, onde passou os últimos anos de vida com a sua esposa. Muitos físicos sugeriram que, se tivesse vivido tempo suficiente para ver as suas previsões confirmadas por experiências, Oppenheimer teria ganho um Nobel da Física pelo seu trabalho relacionado com o colapso gravitacional e as estrelas de neutrões. 

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Cordon Press

J. Robert Oppenheimer testemunha perante o comité de investigação da AEC Fotografia de Cordon Press.