A remota história da criança do Lapedo

Vinte e cinco anos depois da descoberta fortuita de um enterramento do Gravetense no vale do Lapedo, a investigação prossegue. Da criança evoluiu-se para o estudo da comunidade e para a interpretação do vale onde esta se inseria…

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Um vale um vale para a história
Filipe Patrocínio

Num vale discreto, mas ainda pouco perturbado do concelho de Leiria, teve lugar uma das descobertas mais inesperadas da arqueologia pré-histórica portuguesa: um enterramento do Gravetense, rodeado de mistério.

O bulldozer, inimigo declarado dos sítios arqueológicos, tem por vezes os seus sortilégios e os dentes da máquina tanto destroem como expõem. Num dia do final de 1994, Adelino Rodrigues terraplenou com o seu bulldozer a ladeira do seu terreno que se interpunha entre a parede rochosa e a ribeira da Caranguejeira, perto de Leiria.

Sem o saber, removeu a camada de sedimentos que protegia o mais antigo enterramento encontrado na Península Ibérica, fragmentando em dezenas de pedaços o ombro e o braço direito do esqueleto de uma criança. O crânio foi também afectado e por pouco não se perdeu para sempre. Completado o trabalho, o proprietário do terreno foi à sua vida, ignorando que os dentes da máquina tinham aberto um portal do tempo que ficava agora perigosamente à mercê da chuva, do vento e de outras acções erosivas da natureza.

O abrigo do lagar velho
Filipe Patrocínio

O abrigo do Lagar Velho achado mais extraordinário até à data, mas as inúmeras cavidades existentes no vale poderão igualmente conter informação sobre as comunidades que ocuparam o vale do Lapedo há mais de vinte mil anos.

Passaram quatro anos até Pedro Souto e João Maurício, dois entusiastas da espeleologia e arqueologia torrejana, visitarem o local, desafiados por Pedro Ferreira, estudante de licenciatura que prospectara o vale em busca de marcas de arte rupestre. No local, a que o arqueólogo João Zilhão chamaria Abrigo do Lagar Velho, identificaram na superfície remexida quatro anos antes alguns ossos de animais. Avançando mais um pouco, João Maurício fez uma pequena limpeza da superfície terraplenada, junto à parede, onde esta formava uma pequena reentrância, e encontrou dois ossos que lhe pareceram humanos. Tal como o canário no fundo de uma mina, era o indicador de que algo verdadeiramente surpreendente se escondia no vale do Lapedo. 

Em Quioto (Japão), onde por então se fechava com chave de ouro o dossier da arte rupestre do vale do Côa através da sua classificação como Património Mundial pela UNESCO, João Zilhão foi alertado. Prometeu visitar o vale no regresso e, no fim-de-semana de 5 e 6 de Dezembro de 1998, cumpriu a promessa, acompanhado da antropóloga Cidália Duarte, da arqueóloga Ana Cristina Araújo e dos membros da Sociedade Torrejana de Espeleologia e Arqueologia.

Seguir-se-iam momentos inesquecíveis de revelação. A equipa viajara com a expectativa de encontrar um importante sítio de habitat do Paleolítico Superior, mas, em poucos minutos, as descobertas – e respectivas implicações – estilhaçaram todas as previsões. Cidália Duarte cedo comprovou que os ossos já identificados corresponderiam a um juvenil humano – mais tarde, estimar-se-ia a sua idade em 4-5 anos. E João Zilhão constataria que os vestígios ósseos estavam saturados com ocre vermelho, uma das marcas distintivas dos enterramentos do Gravetense, período compreendido entre há 35.000 e 25.000 anos. Não havia nada igual no território ibérico. 

As duas semanas de escavação intensiva de emergência que se seguiram foram uma montanha-russa de revelações. A equipa constatou que grande parte do esqueleto não se perdera. O ombro e o braço direitos, mais próximos da parte exterior da reentrância natural existente na parede de fundo do abrigo onde foi enterrada a criança e, por consequência, mais vulneráveis ao bulldozer, estavam muito danificados, e o crânio, atingido pela máquina, ficara reduzido a fragmentos dispersos em redor.

Escavações
LARC / DGPC

Poucos achados arqueológicos portugueses foram tão citados no mundo académico como o esqueleto escavado no Abrigo do Lagar Velho. Na fotografia, uma das intervenções numa área de processamento de animais caçados. 

Graças à campanha de escavações realizada poucos meses depois com o intuito de recuperar dentes e fragmentos do crânio que pudessem ter sido arrastados pelo bulldozer na restante área do abrigo, foi possível, enfim, reconstituir praticamente todo o esqueleto da criança ali sepultada (ainda hoje não se sabe o sexo) e constatar-se que o corpo fora enterrado de forma muito cuidada, evidenciando todo um conjunto de preceitos que fariam parte da prática funerária.

Muito antes da datação directa do esqueleto por radiocarbono (as quatro tentativas falharam devido à pouca preservação de matéria orgânica), a equipa intuiu que estava perante algo inédito em Portugal: um enterramento do Gravetense

A curva de calibração do radiocarbono para cronologias mais recuadas permitiu situar o enterramento infantil no intervalo de tempo entre 29 e 28 mil anos atrás. Foi durante este período recuado que um grupo de caçadores enterrou cuidadosamente o corpo de um dos seus naquele abrigo. Não o deixou em terreno livre, à mercê de carnívoros necrófagos, nem o queimou como noutras culturas de época mais recente – depositou-o amortalhado, numa fossa pouco profunda propositadamente escavada para o efeito.

Os pingentes (dentes de veado e conchas de caracol marinho) associados aos fragmentos de crânio encontrados na zona do pescoço sugerem que o corpo terá sido enterrado vestido e com gorro ou outro tipo de adorno. Sobre a mortalha, tingida de vermelho, foi colocado, na zona das pernas, o corpo de um coelho juvenil. A bibliografia paleontológica requer cuidado na utilização de vocábulos como “amor” ou “carinho” para descrição da morte nas sociedades de caçadores-recolectores, mas é difícil não usar estes termos para qualificar um enterramento que foi certamente especial para esta comunidade. Só por isso a criança do Lapedo seria especial. Mas faltava o resto…

sag
Nuno Farinha / Museu de Leiria

Há 29 mil anos, uma criança foi enterrada com cuidados rituais extremos. O seu caso exemplifica a elevada antiguidade que nas culturas humanas tem a existência de crenças e práticas relacionadas com a morte. Na imagem superior, vemos a reconstituição da deposição do corpo da criança numa pequena depressão aberta no solo. Na imagem do meio, vemos a reconstituição do amortalhamento do corpo em peles tingidas de ocre. Na imagem inferior, um esqueleto em processo de escavação arqueológica.

A miscigenação 

Em 1848, numa gruta calcária de Gibraltar destruída por uma pedreira em época histórica, foi encontrado o chamado crânio da Pedreira Forbes. Foi o primeiro crânio de Neandertal descoberto, apesar de só duas décadas mais tarde se confirmar que o achado corresponderia a uma forma fóssil da humanidade que acabaria por ser baptizada na sequência de achados posteriores no vale de Neander, na Alemanha. Durante um século e meio, os neandertais intrigaram a ciência e alimentaram todo o tipo de mitos. À medida que novas descobertas de fósseis tiveram lugar na Europa, constatou-se que viveram predominantemente no continente europeu, onde desapareceram há cerca de 40.000 anos. 

A partir da década de 1980, debateu-se muito sobre as circunstâncias da sua extinção e a possibilidade de esta ter ocorrido por pressão violenta ou colonizadora de gentes oriundas de África, de anatomia muito próxima da actual e cognitivamente superior. Poucos colocavam a hipótese de miscigenação, mas, na década de 1990, após cuidadosa revisão de muitos restos esqueléticos dos neandertais, o paleoantropólogo Erik Trinkaus estava pronto para outras interpretações. A genética não estava ainda em condições de comparar os genomas das duas populações e a arqueologia não proporcionara ainda um fóssil sugestivo. Até ao Lapedo… 

À medida que escavavam os restos da criança do Lagar Velho entre Dezembro de 1998 e Janeiro de 1999, Cidália Duarte e João Zilhão entreolhavam-se. Algo no esqueleto não parecia normal. A mandíbula era claramente de um humano moderno, mas as proporções dos membros superiores e inferiores destoavam.

A mandíbula
LARC / DGPC

A limpeza e consolidação de uma mandíbula ajuda a clarificar mais um dos animais que coexistiram na região com os humanos no Paleolítico.

Convocado para a equipa, e após um estudo preliminar, levado a cabo em Janeiro de 1999, em Lisboa, depois de o esqueleto ter sido retirado do terreno, Erik Trinkaus propôs a hipótese que pairava no ar: poderia a criança representar prova de que no último bastião de ocupação neandertal no planeta, no Sudoeste da Península Ibérica, as duas populações se teriam miscigenado

Outras hipóteses seriam possíveis, como uma patologia por deficiência nutricional, uma eventual deformação ou um erro na medição dos ossos, mas nada explicava melhor a descoberta do que a primeira hipótese. Como um piloto de aviação a caminho de uma manobra arriscada, a equipa publicou a interpretação e preparou-se para a turbulência. Durante quase uma década, Zilhão e Trinkaus foram sujeitos a fogo de artilharia vindo de vários campos – no campo da arqueologia pré-histórica, a hipótese arrepiava muitos especialistas, pois contrariava mais de um século de preponderância da ideia segundo a qual os neandertais eram uma espécie diferente que se tinha extinguido sem descendência. Implicava igualmente a refutação das hipóteses que promoviam a maior sofisticação das populações de origem africana que por essa época haviam migrado para a Europa como chave para a sua prevalência. 

Do campo genético, a reacção foi ainda mais furiosa. O biólogo sueco Svante Päabo liderou a contestação, recusando liminarmente a possibilidade de miscigenação. O esqueleto esteve regularmente disponível para escrutínio externo, mas foi determinado que não proporcionaria material genético suficientemente puro para um eventual tira-teimas, pelo que seria um desperdício remeter amostras raras para obter resultados que nunca seriam decisivos. Mas Päabo não acreditava, em 1998, na possibilidade de humanos que se supunha terem pertencido a espécies diferentes terem tido contactos suficientes para se misturarem e legarem à sua descendência, muitas gerações mais tarde, traços comuns a ambos.

Tudo mudou em Fevereiro de 2009. Ao subir ao palco do Congresso da Associação Americana para o Avanço da Ciência, após mais de uma década de investigação intensiva,

Päabo anunciou a extraordinária proeza do seu grupo de investigação no Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva: a descodificação do genoma do neandertal, que se seguia à descodificação do genoma humano em 2003. Concluíra para sua surpresa que 60 a 70% do genoma é partilhado entre as duas espécies e, mais tarde, concluiu também que, nas populações actuais da Europa, ainda há 2 a 4% de genoma neandertal. A miscigenação foi seguramente comum. Provavelmente nunca se provará se a criança do Lapedo foi um exemplo dessa circunstância, mas é inquestionável que a hipótese suscitada por ela (e por achados posteriores na Roménia) acelerou a investigação que lhe valeria o Prémio Nobel em 2022.

Em laboratório
LARC / DGPC

Os restos faunísticos são analisados em laboratório de campo e mais tarde comparados com as colecções de referência existentes no Laboratório de Arqueociências, em Lisboa. 

Da criança para o grupo

A controvérsia sobre a miscigenação consumiu energia e pareceu limitar a importância do achado ao debate sobre coabitação de diferentes grupos humanos no vale do Lapedo, mas o trabalho prosseguiu. Em 2000, Francisco Almeida assumiu a coordenação científica da investigação arqueológica no Lagar Velho e abriu novas áreas de escavação. Iniciou-se, a partir de então, uma linha de investigação que permitiu transitar do estudo da criança para o de outras ocupações paleolíticas no abrigo.  A poucas dezenas de metros do local de enterramento, emergiram áreas de processamento de animais caçados. Dezenas de espécies de fauna foram identificadas, bem como oficinas de produção de ferramentas de pedra que teriam envolvido várias pessoas. Com o tempo, emergiu um retrato mais completo da ocupação do vale no Paleolítico Superior e começou a ser caracterizado um ecossistema que, no período compreendido entre 29 e 24 mil anos, envolveu os grupos humanos que o percorreram e as espécies animais que ali acorreram. 

Em laboratório
LARC / DGPC

Nas escavações do Paleolítico, um vestígio minúsculo pode conter informação decisiva.

As características geológicas e geomorfológicas do vale do Lapedo explicam a proliferação de abrigos e a boa preservação de vestígios paleolíticos. Muito encaixado, conservava uma vegetação autóctone durante grande parte do ano e servia de abrigo para humanos e animais. O curso de água constante atrairia decerto animais de algum porte que ficariam depois naturalmente encurralados entre enormes paredes rochosas, facilitando a sua caça pelo homem. De linces-ibéricos a leopardos entretanto extintos, passando por veados e vários outros ungulados, a fauna do Plistocénico ficou aqui testemunhada em ossos fossilizados e coprólitos. 

As escavações foram interrompidas em 2009 e o interesse pelo Abrigo do Lagar Velho pareceu esfriar. Em 2018, porém, uma equipa constituída por Ana Cristina Araújo, Ana Maria Costa, Joan Daura e Montserrat Sanz regressou ao local para um projecto de quatro anos. Propunha-se concluir as escavações no sector localizado a poente do enterramento infantil, onde Almeida anteriormente identificara e escavara contextos gravetenses de natureza doméstica, e aproveitar o desenvolvimento científico das duas últimas décadas no domínio das arqueociências para conferir maior robustez a determinados aspectos da arqueologia paleolítica do Lagar Velho (como a sua cronologia absoluta), do seu enquadramento no vale do Lapedo e da sua articulação com contextos vizinhos.

Um dos primeiros produtos do seu trabalho foi a confirmação de que as actividades domésticas associadas ao processamento de fauna no abrigo foram contemporâneas do enterramento. Até então vingara a hipótese de que o abrigo fora primeiro usado como local de sepultamento e mais tarde como espaço de actividades domésticas. Hoje, sabe-se que não existiu sobreposição funcional, mas as datações das duas ocupações sugerem fortemente uma contemporaneidade. 

Área do abrigo onde, em 1998, foi escavado o esqueleto infantil.
LARC / DGPC

Área de abrigo onde, em 1998, foi escavado o esqueleto infantil. A imagem mostra trabalhos desenvolvidos nessa área em 2022.

A segunda revelação foi produzida pelo fogo. A prevalência de ossos queimados não tem correspondência com qualquer outro sítio arqueológico do mesmo período. Não parecem ter sido queimados apenas para produção de combustível numa região que, apesar dos mantos de neve que cobriam grande parte da Europa naquela época, mantinha-se relativamente temperada e nunca perdeu a vegetação. Até à data, não se conseguiu ainda explicar a origem e a função das actividades de combustão postas a descoberto. 

Todos os anos têm sido publicados artigos sobre o ecossistema do Lagar Velho. Já por altura da publicação monográfica de 2002, os estudos paleobotânicos (palinologia e antracologia) tinham permitido reconstituir uma paisagem arborizada em redor do abrigo, no fundo do vale — um refúgio encravado entre a charneca com povoamentos esparsos de pinheiro silvestre que cobria os interflúvios da região. 

Os novos trabalhos revelaram que havia que juntar mais uma espécie ao vasto cardápio de aves e mamíferos que coabitaram com humanos naquela altura: foram recuperados coprólitos de quebra-ossos às centenas, comprovando que este membro da família dos abutres, extinto em Portugal na transição para o século XX, sobrevoou a curiosa comunidade que ocupou este (e talvez outros) abrigos do vale. 

O esqueleto fossilizado da criança do Lapedo foi classificado como Tesouro Nacional em 2021, mas o sítio arqueológico justifica preocupações de conservação.

No Natal do ano passado, uma parte da plataforma a que a equipa chamava o “testemunho pendurado” por constituir uma fugaz janela temporal com vestígios de ocupações que tiveram lugar no abrigo entre 26 e 24 mil anos atrás ruiu.

O futuro
LARC/DGPC

A criança do Lapedo, o primeiro esqueleto do Paelolítico Superior encontrado em Portugal, foi classificado como Tesouro Nacional em 2021. O sítio arqueológico foi afectado no Inverno de 2022, reavivando o debate sobre o futuro do local e a importância da sua conservação in situ.

 

Parece enraizada na opinião pública a conclusão de que o sítio já terá pouco por revelar, mas a descoberta, no ano passado, de uma laje pintada com ocre sugere que uma das razões para a preservação do esqueleto quase incólume poderá ter sido a sua cobertura com esta “tampa”, que a manteria a salvo de predadores. Esse e muitos outros mistérios requerem esforços redobrados de investigação e interpretação, tanto mais que persistem cerca de nove mil ossos de fauna por estudar. 

Na altura da ocupação, há 29 mil anos, algo aconteceu com esta criança que não deixou registo no esqueleto, mas que levou à sua morte e enterramento cuidado numa área protegida do abrigo que se manteve intacta até à passagem de um bulldozer e à qual, a partir daí, já mais ninguém foi. Que outra leitura poderá isto ter senão um elo fortíssimo entre o indivíduo que morreu e os outros que o enterraram com um sentido da posteridade pouco comum nas sociedades de caçadores-recolectores? A criação de condições para que um corpo não se destrua implica uma ideia de perpetuação que não estamos habituados a reconhecer no Paleolítico. Talvez seja essa a mensagem decisiva do Abrigo do Lagar Velho.

O abrigo do lagar velho
Alexandre Vaz

O Abrigo do Lagar Velho foi o nome atribuído pelo arqueólogo João Zilhão a um local com marcas de arte rupestre no vale do Lapedo.